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Nº 17226 de outubro de 202241:58efeméride

100 anos da marcha de Mussolini sobre Roma

Episódio comemorativo dos 100 anos da Marcha sobre Roma (28 de outubro de 1922), que levou Mussolini ao poder. Rui Ramos explica como o fascismo nasceu no pós-Primeira Guerra Mundial, da transformação de Mussolini de socialista revolucionário em líder nacionalista antibolchevista, e como ascendeu ao poder não por golpe militar mas por nomeação régia. Na segunda parte, analisa-se o Tratado de Fontainebleau (1807), que previa a divisão de Portugal mas serviu sobretudo para Napoleão intervir em Espanha.

Ideias principais

  1. A Marcha sobre Roma não foi um golpe de Estado violento mas uma encenação política que levou à nomeação legal de Mussolini pelo rei Vittorio Emanuele III, criando o primeiro regime fascista da história.
  2. Mussolini era originalmente um socialista revolucionário maximalista, diretor do jornal Avanti, que rompeu com o Partido Socialista Italiano em 1914 ao defender a entrada da Itália na Primeira Guerra Mundial ao lado dos Aliados.
  3. O fascismo nasceu como 'socialismo nacionalista', combinando métodos revolucionários violentos com nacionalismo e corporativismo, rejeitando a luta de classes em favor da unidade nacional, e inspirando-se em figuras republicanas de esquerda como Garibaldi e Mazzini.
  4. A ascensão de Mussolini foi facilitada pelo medo do bolchevismo no pós-guerra, pela divisão das elites italianas, e pela recusa do exército em apoiar o governo em funções, não pela força real dos 10 mil 'camisas negras' que marcharam sobre Roma.
  5. O Tratado de Fontainebleau que previa dividir Portugal em três partes nunca foi aplicado porque o verdadeiro objetivo de Napoleão era intervir em Espanha, usando Portugal como pretexto para colocar tropas francesas na Península Ibérica e eventualmente destronar os Bourbons espanhóis.

Resumo do episódio

Este episódio do podcast *E o Resto é História* é dedicado a dois temas históricos assinalados por datas redondas: o centésimo aniversário da Marcha sobre Roma, em outubro de 1922, e os 215 anos do Tratado de Fontainebleau, assinado em outubro de 1807. Rui Ramos e João Miguel Tavares percorrem ambos os temas com detalhe, procurando explicar ao ouvinte os contextos que os tornaram possíveis.

A maior parte do episódio é consagrada à ascensão de Mussolini. Os apresentadores começam por enquadrar o fascismo histórico - aquele que se reclama de si mesmo como tal - no conturbado contexto do pós-Primeira Guerra Mundial. A Itália saiu do conflito frustrada: entrara na guerra ao lado dos Aliados depois de romper com a Alemanha e a Áustria, suportara derrotas humilhantes, e na Conferência de Paz não obteve os territórios que ambicionava, nomeadamente a costa oriental do Adriático. Num país com apenas cinquenta anos de unidade e com grandes aspirações mediterrânicas, este desfecho foi vivido como uma humilhação nacional. A isto somava-se uma grave agitação social, alimentada pela inflação do pós-guerra e pelo exemplo da revolução bolchevista na Rússia, que ameaçava contagiar a Europa Ocidental.

É neste contexto que Rui Ramos traça a trajectória de Benito Mussolini. Antes da guerra, era uma das figuras mais proeminentes da ala maximalista do Partido Socialista Italiano, partidário de uma revolução violenta, e dirigia o principal jornal do partido. A sua ruptura com os socialistas deu-se sobretudo por causa da guerra: ao contrário da maioria do partido, que defendia o pacifismo, Mussolini passou a ver na participação militar uma via para transformar a Itália e derrubar os impérios reacionários. Expulso do partido em 1914, fundou os chamados "fascios de acção revolucionária" - um termo que vinha, ironicamente, da tradição da esquerda republicana - e acabou por combater na própria guerra. No pós-guerra, as milícias fascistas, recrutadas sobretudo entre antigos combatentes, tornaram-se conhecidas como as camisas negras e afirmaram-se nas cidades como força de resistência ao bolchevismo, em confrontos violentos com os socialistas pró-soviéticos. Entre 1919 e 1921, o movimento transformou-se: Mussolini fundou o Partido Nacional Fascista, centralizado e com um discurso abertamente antidemocrático, corporativista e assente na ideia de uma nação que precisava de espaço vital.

O episódio desmonta o mito da Marcha sobre Roma como um golpe de Estado clássico. Os apresentadores sublinham que os cerca de dez mil camisas negras que marcharam - debaixo de chuva e em condições precárias - nunca teriam chegado ao poder por força própria. O que colocou Mussolini no governo foi uma combinação de cálculo político da elite liberal italiana, que o via como instrumento para afastar rivais como Giolitti, e da recusa do exército em apoiar a declaração de lei marcial pedida pelo governo em exercício. O rei Vítor Emanuel III acabou por nomear Mussolini chefe do governo dentro de um quadro parlamentar legal. O regime fascista propriamente dito, com censura e partido único, só se instalaria gradualmente nos anos seguintes. A prova disso é que, em julho de 1943, seria o próprio rei a demitir Mussolini.

Na segunda parte do episódio, os apresentadores abordam o Tratado de Fontainebleau, assinado em outubro de 1807 entre Napoleão e o ministro espanhol Manuel de Godoy, que previa a divisão de Portugal em três zonas após a invasão francesa. Rui Ramos explica que o tratado nunca foi aplicado porque o seu verdadeiro objectivo não era Portugal, mas sim a Espanha. Napoleão usou o pretexto da ocupação de Portugal para introduzir mais de cem mil soldados franceses em território espanhol, aproveitando as divisões internas da monarquia espanhola - entre a facção do rei Carlos IV e a do seu filho Fernando VII - para se impor como árbitro e acabar por colocar o seu irmão José Bonaparte no trono de Espanha em 1808. Com a sublevação espanhola de maio desse ano e a subsequente resistência portuguesa, o tratado caiu definitivamente no esquecimento, e Portugal escapou ao destino que lhe estava traçado em Fontainebleau

Personagens

  • Benito Mussolini
  • Vittorio Emanuele III
  • Adolf Hitler
  • Francisco Franco
  • Salazar
  • Giuseppe Garibaldi
  • Giuseppe Mazzini
  • Lenin
  • Rosa Luxemburg
  • Filippo Marinetti
  • Giovanni Giolitti
  • Napoleão Bonaparte
  • Manuel de Godoy
  • D. João VI
  • Carlos IV de Espanha
  • Fernando VII de Espanha
  • Maria Luisa de Bourbon
  • José Bonaparte
  • Junot
  • Benito Juárez

Lugares/Países

  • Itália
  • Alemanha
  • Áustria
  • Inglaterra
  • França
  • Rússia
  • Jugoslávia
  • Sérvia
  • Polónia
  • Espanha
  • Portugal
  • Etiópia
  • Líbia
  • México
  • Dalmácia
  • Veneza
  • Etrúria
  • Catalunha
  • País Vasco
  • Argentina
  • Uruguai

Épocas

  • século XX
  • século XIX
  • Primeira Guerra Mundial
  • pós-Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • década de 1920
  • 1807
  • 1808
  • invasões francesas

Temas

  • fascismo
  • golpe de Estado
  • revolução
  • guerra
  • nacionalismo
  • socialismo
  • bolchevismo
  • antibolchevismo
  • ditadura
  • corporativismo
  • imperialismo
  • colonialismo
  • tratados internacionais
  • monarquia
  • partido único
  • militarismo
  • totalitarismo

Eventos

  • Marcha sobre Roma
  • unificação italiana
  • Revolução Russa
  • Tratado de Fontainebleau
  • invasões francesas de Portugal
  • Batalha de Trafalgar
  • bloqueio continental
  • sublevação de Madrid 1808

Guerras e conflitos

  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • guerra civil russa
  • guerras napoleónicas