Nº 36002 de junho de 202655:31efeméride
100 anos do 28 de Maio: o que veio depois do golpe
Análise das consequências do golpe militar de 28 de Maio de 1926, que deu origem à ditadura militar em Portugal. O episódio explora a instabilidade inicial com três governos em menos de dois meses, o papel dos 'tenentes de maio' como força radical de sustentação do regime, e a ascensão gradual de Salazar desde ministro das Finanças (1928) até chefe do governo (1932), derrotando figuras como Cunha Leal e consolidando uma ditadura civil apoiada nas Forças Armadas.
Ideias principais
- A ditadura militar de 1926 não trouxe estabilidade: houve três governos em menos de dois meses (Mendes Cabeçadas, Gomes da Costa, Carmona) e a instabilidade financeira agravou-se face à Primeira República.
- Os 'tenentes de maio' - jovens oficiais veteranos da Primeira Guerra - tornaram-se a força radical do regime, criando 'sovietes de tenentes' em cafés como o Martinho da Arcada, de onde ditavam decisões governamentais, chegando a ameaçar ministros com armas.
- A ascensão de Salazar baseou-se no facto de ser subestimado: ao contrário de Cunha Leal, figura talentosa e temida que todos bloqueavam, Salazar era visto como técnico inofensivo, o que lhe permitiu consolidar poder sem alarmar rivais.
- A revolta de fevereiro de 1927 da esquerda republicana falhou porque não conseguiu unir todos os republicanos e enfrentou a resistência feroz dos jovens oficiais, marcando o fim das tentativas de restaurar o regime anterior a 1926.
- O legado do 28 de Maio ultrapassou o Estado Novo: mesmo opositores como Humberto Delgado e Henrique Calvão reivindicavam o golpe, e Vaz Gonçalves em 1974 afirmou que o 25 de Abril não visava regressar ao período anterior a 1926.
Resumo do episódio
Este episódio de *E o Resto é História* dá continuidade a uma conversa anterior sobre o centésimo aniversário do golpe de 28 de maio de 1926, centrando-se agora no que aconteceu nos anos imediatamente seguintes ao movimento militar que derrubou a Primeira República. Rui Ramos e João Miguel Tavares partem de uma pergunta de um ouvinte sobre Cunha Leal e sobre se a conspiração era um segredo bem guardado. A resposta é clara: em Lisboa praticamente não havia segredos, e o golpe foi amplamente antecipado porque existia um consenso generalizado de que era preciso sair do impasse político, mesmo que cada grupo esperasse resultados diferentes.
O período pós-golpe revelou-se extremamente instável. Em menos de dois meses houve três chefes de governo: Mendes Cabeçadas, que recebeu os poderes do executivo logo a 28 de maio, foi derrubado a 17 de junho por Gomes da Costa, que por sua vez foi afastado a 9 de julho pelo general Carmona. Este era um militar de formação teórica e burocrática, sem experiência de combate, e ninguém o via como um verdadeiro ditador com programa ou doutrina. Ao contrário de Mussolini em Itália ou de Primo de Rivera em Espanha, a ditadura militar portuguesa era, nas palavras dos apresentadores, um enorme ponto de interrogação. É neste contexto que Salazar aparece pela primeira vez como ministro das Finanças, ainda em junho de 1926, mas rapidamente regressa a Coimbra ao perceber a desordem instalada.
A tentativa de reversão do golpe pela esquerda republicana, em fevereiro de 1927, revela-se um momento decisivo. Os revoltosos esperavam encontrar generais hesitantes e um regime frágil, mas quem os defrontou nas ruas do Porto e de Lisboa foram os chamados "tenentes de Maio" - jovens oficiais com experiência de combate na Primeira Guerra Mundial e em África, com desprezo pelo parlamentarismo e fascínio pelo fascismo europeu. A revolta fracassou com dezenas de mortos, e estes tenentes emergiram como força política dominante, criando o que os apresentadores descrevem como os "sovietes de tenentes": reuniões informais em cafés lisboetas, como o Martinho da Arcada, onde decisões governamentais eram aprovadas ou vetadas. O episódio caricato do tenente Moraes Sarmento, que entrou armado no Conselho de Ministros, deu pontapés no general Carmona e disparou para o ar sem que ninguém o prendesse, ilustra o poder real destes jovens oficiais.
A ditadura militar, porém, não resolvia os problemas que justificaram o golpe. As finanças públicas deterioraram-se, a tentativa de empréstimo junto da Sociedade das Nações falhou, e o envolvimento direto do exército na política arriscava dividir as Forças Armadas com consequências potencialmente graves. A grande questão, a partir de 1928, passou a ser como sair da ditadura militar. É neste contexto que Salazar regressa ao governo como ministro das Finanças, desta vez para ficar, beneficiando ironicamente do lobby da oposição de esquerda que havia sabotado o empréstimo externo e aberto caminho ao seu programa de austeridade sem endividamento externo.
O episódio termina com uma análise reveladora da rivalidade entre Salazar e Cunha Leal. Este último era, em 1926, uma das maiores figuras da política portuguesa - ex-ministro das Finanças, ex-primeiro-ministro, grande orador, diretor do jornal de maior circulação -, e aparentemente julgava poder usar Salazar como técnico preparatório antes de ele próprio chegar ao poder. Mas foi precisamente o excesso de notoriedade de Cunha Leal que o prejudicou: todos os grupos políticos se uniam contra ele por receio do seu talento e ambição, ao passo que o discreto professor de Coimbra não inspirava semelhante resistência. Em 1930, quando Cunha Leal tentou aproveitar uma crise financeira em Angola para derrubar Salazar, foi ele o preso e exilado. Salazar, apoiado pelos tenentes de Maio e pela Igreja Católica, e acumulando a reputação de ter equilibrado as contas públicas, consolidou progressivamente o seu poder, tornando-se chefe do governo em 1932 e arquitecto do Estado Novo. Cunha Leal ficaria na oposição durante quarenta anos, morrendo em 1970, o mesmo ano que Salazar, sem nunca ter chegado ao poder que parecera
Personagens
- Nuno Marques Mendes
- Cunha Leal
- António Maria da Silva
- Mendes Cabeçadas
- Gomes da Costa
- Carmona
- Salazar
- Franco Nogueira
- Sinel de Cortes
- Mussolini
- Primo de Rivera
- Moraes Sarmento
- Henrique Calvão
- Humberto Delgado
- Vicente Freitas
- Iveiros Ferraz
- Domingos Oliveira
- Dom Manuel II
- Vaz Gonçalves
Lugares/Países
- Portugal
- Espanha
- Itália
- Angola
- Moçambique
- Inglaterra
- Suíça
- Europa
Épocas
- Primeira República
- Estado Novo
- Primeira Guerra Mundial
- anos 1920
- anos 1930
- anos 1950
- anos 1960
- pós-1974
Temas
- golpe militar
- ditadura
- instabilidade política
- crise financeira
- religião
- monarquia vs república
- censura
- colonialismo
- oposição política
- fascismo
- corporativismo
Eventos
- 28 de Maio de 1926
- Noite Sangrenta
- revolta de fevereiro de 1927
- incidente do Palácio das Necessidades de 1927
- eleições presidenciais de 1928
- crise de Angola de 1930
- 25 de Abril de 1974
Guerras e conflitos
- Primeira Guerra Mundial
- Guerra Civil Espanhola
Livros citados
- memórias de Cunha Leal
- diário de Franco Nogueira