Nº 8603 de março de 202150:16efeméride
100 anos do PCP e 150 anos da Comuna de Paris
Episódio dedicado aos 150 anos da Comuna de Paris (1871) e aos 100 anos do Partido Comunista Português (1921). Rui Ramos desmistifica a Comuna como 'primeiro governo operário', mostrando-a como última insurreição jacobina e não primeira revolução proletária. Sobre o PCP, argumenta que o partido actual é criação dos anos 40 (era stalinista de Cunhal), não tendo continuidade real com o pequeno grupo fundado em 1921, que era minoritário, indisciplinado e dominado por dissidentes anarquistas.
Ideias principais
- A Comuna de Paris não foi o primeiro governo operário mas a última grande insurreição urbana da tradição jacobina francesa, liderada por veteranos das revoluções de 1830 e 1848, com base nas Guardas Nacionais armadas e motivação patriótica anti-alemã.
- Karl Marx salvou o horizonte revolucionário após o fracasso de 1848 ao teorizar que a revolução viria não de conspiradores mas da própria evolução económica, criando dois marxismos: o social-democrata (via eleitoral) e o revolucionário (ditadura do proletariado).
- O PCP fundado em 1921 era um grupo minúsculo e indisciplinado de ex-anarquistas (oscilando entre 70 e 2900 militantes), sem continuidade real com o partido actual, tendo a Internacional Comunista expulsado todos os comunistas portugueses no fim dos anos 30.
- O verdadeiro PCP como organização disciplinada nasce nos anos 40 com Álvaro Cunhal, adoptando o modelo stalinista de revolucionários profissionais e financiamento soviético, o que lhe permitiu manter estrutura clandestina quando outros grupos de oposição não conseguiam.
- O calendário revolucionário francês (1792-1806) exemplifica a ambição de descristianizar o tempo através da razão decimal, com meses de 30 dias divididos em três semanas de 10 dias, deixando legado em expressões como '9 do Termidor' e no prato 'lagosta Thermidor'.
Resumo do episódio
Este episódio do podcast *E o Resto é História* debruça-se sobre duas efemérides coincidentes: os 150 anos da Comuna de Paris e o centenário da fundação do Partido Comunista Português. Os apresentadores, Rui Ramos e João Miguel Tavares, exploram estas duas datas em sequência cronológica, procurando perceber o que tornou duradoura a memória da Comuna e o que explica o nascimento e a sobrevivência do PCP.
A conversa começa por contextualizar a Comuna de Paris de 1871 no quadro do colapso do Estado francês provocado pela guerra franco-prussiana. A derrota e captura de Napoleão III em Sedan, em setembro de 1870, abriu um vazio de poder que permitiu a proclamação da Terceira República, a qual, apesar de mobilizar meio milhão de homens, também falhou militarmente. Quando o governo republicano, entretanto retirado para Bordéus, decidiu negociar a paz com a Prússia, grupos de extrema-esquerda com raízes nas revoluções de 1830 e 1848 aproveitaram a existência de 300 mil civis armados nas Guardas Nacionais para tomar o poder em Paris em março de 1871. Rui Ramos sublinha que a Comuna não foi propriamente um governo operário - dos 81 membros, apenas 25 eram operários, e os verdadeiros dirigentes eram jacobinos veteranos como Louis-Auguste Blanqui. O motor da insurreição foi sobretudo um patriotismo belicista contra a rendição à Alemanha, e não um programa socialista coerente. O governo da Comuna reprimiu a imprensa, fechou igrejas, fuzilou reféns e destruiu monumentos, sendo derrubado em maio de 1871 pelas tropas republicanas com vários milhares de mortos. Apesar de tudo isso, Karl Marx reinterpretou a Comuna como prefiguração da ditadura do proletariado, o que lhe garantiu um lugar mítico na memória da esquerda revolucionária. O episódio inclui ainda um interlúdio sobre o calendário revolucionário francês, reativado brevemente pela Comuna, com os seus meses de nomes rurais e semanas de dez dias, e do qual restam hoje expressões como o "9 do Termidor" ou, curiosamente, a receita da lagosta à Termidor.
A segunda parte centra-se no Partido Comunista Português e nas ideias de Karl Marx que lhe deram origem. Rui Ramos explica que Marx, ao desenvolver a sua teoria nos anos 1850 e 1860 em Londres, veio oferecer uma nova esperança à esquerda revolucionária desiludida com o fracasso das revoluções de 1848: a ideia de que o próprio progresso capitalista criaria, inevitavelmente, a classe operária destinada a substituir a propriedade privada pela propriedade coletiva. Esta visão inspirou a social-democracia, que apostou na via parlamentar, mas também uma corrente que, relendo Marx à luz da Comuna, defendia a necessidade de uma ditadura do proletariado. Foi esta segunda corrente que Lenin encabeçou na Rússia em 1917, dando origem ao marxismo-leninismo e, em 1919, à Internacional Comunista, de que os partidos comunistas europeus seriam secções nacionais.
Em Portugal, o PCP foi fundado a 6 de março de 1921 a partir de uma minoria do movimento anarco-sindicalista que apoiava a Revolução Russa. A organização era, contudo, minúscula e fragmentada: de quase três mil militantes em 1922, caiu para setenta em 1928. Vários dos seus primeiros líderes acabaram por aderir ao Estado Novo ou desaparecer. Rui Ramos argumenta que o PCP tal como é hoje conhecido é, na prática, uma criação dos anos 1940, formado em torno de Álvaro Cunhal com uma disciplina stalinista adequada à clandestinidade, financiado pela União Soviética e beneficiando do prestígio desta após a derrota do nazismo. O partido atingiu o seu pré-74 em torno de 1947, com cerca de cinco mil militantes, depois voltou a declinar. A sua sobrevivência deveu-se em grande parte ao apoio material soviético, que sustentava funcionários a tempo inteiro e as suas famílias, algo que nenhuma outra organização opositora podia oferecer. Como partido de massas com sedes, militantes e implantação sindical efectiva, o PCP é, na prática, uma organização nascida com o 25 de Abril, à semelhança dos restantes partidos portugueses.
Personagens
- Napoleão III
- Napoleão I
- Karl Marx
- Louis-Auguste Blanqui
- Robespierre
- Jules Verne
- Karl Kautsky
- Edward Bernstein
- Rosa Luxemburg
- Lenin
- Stalin
- José Carlos Rados
- Volejo Gril
- Álvaro Cunhal
- Mário Soares
- Júlio Fogaça
- Humberto Delgado
- Henrique Galvão
- Salazar
- Franco
- José Pacheco Pereira
Lugares/Países
- França
- Alemanha
- Prússia
- Portugal
- Rússia
- União Soviética
- Inglaterra
- Espanha
- Itália
- Suécia
- Moçambique
Épocas
- século XVIII
- século XIX
- século XX
- Primeira República Francesa
- Segunda República Francesa
- Terceira República Francesa
- Segundo Império Francês
- Revolução Francesa
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
- Estado Novo
- época vitoriana
- Idade Média
Temas
- revolução
- comunismo
- socialismo
- anarquismo
- marxismo
- guerra
- insurreição urbana
- sindicalismo
- ditadura
- democracia
- movimento operário
- clandestinidade
- repressão política
- terrorismo revolucionário
- nacionalismo
Eventos
- Comuna de Paris
- Guerra Franco-Prussiana
- Batalha de Sedan
- Revolução de 1830
- Revolução de 1848
- Revolução Russa
- Revolução de 1917
- 9 do Termidor
- 18 Brumário
- Fundação do PCP
Guerras e conflitos
- Guerra Franco-Prussiana
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
Livros citados
- O Capital
- A Guerra Civil em França