Nº 11920 de outubro de 202141:09efeméride
100 anos dos linchamentos da Noite Sangrenta
Análise dos linchamentos da Noite Sangrenta (19-20 de outubro de 1921), quando militantes radicais do Partido Republicano Português assassinaram o primeiro-ministro António Granjo e os heróis do 5 de Outubro, Machado Santos e José Carlos da Maia. O episódio explora as causas profundas desta violência na instabilidade da Primeira República, dominada pelo sectarismo do PRP, pela crise económica pós-guerra e pelo confronto entre milícias armadas, terminando com o desmantelamento do poder da esquerda radical.
Ideias principais
- A Primeira República foi desde o início dominada pelo Partido Republicano Português de Afonso Costa, que recorria sistematicamente à violência através de milícias civis e controlo da GNR e Marinha para impedir a alternância política.
- Machado Santos e José Carlos da Maia, fundadores da República em 1910, foram assassinados precisamente por se oporem ao domínio sectário do PRP, tendo apoiado todas as tentativas de criar uma república mais aberta e nacional, incluindo o governo de Sidónio Pais.
- A violência de 19 de outubro de 1921 não resultou de um confronto armado mas de linchamentos públicos deliberados, quando militantes radicais do PRP perceberam que podiam perder definitivamente o poder para a direita republicana de António Granjo.
- Portugal vivia em 1921 a maior crise inflacionária da sua história (148% anual), com 14 governos em dois anos, sendo a GNR transformada numa força pretoriana de 15 mil homens em Lisboa com artilharia pesada que decidia quem podia governar.
- A Noite Sangrenta, apesar do trauma que causou, acabou por desmantelar o poder da esquerda radical ao legitimar o desarmamento da GNR e a prisão dos responsáveis, mas não conseguiu estabilizar a República, que cairia em 1926.
Resumo do episódio
O episódio 119 de *E o Resto é História* assinalou o centenário da chamada Noite Sangrenta, ocorrida na noite de 19 para 20 de outubro de 1921, um dos momentos de maior violência política da Primeira República portuguesa. Nessa noite, um grupo de marinheiros, soldados da GNR e civis, liderado pelo cabo marinheiro Abel Olímpio - conhecido por Dente de Ouro -, percorreu Lisboa numa camioneta militar em busca de figuras proeminentes do regime. No final, haviam sido assassinados o chefe do governo António Granjo, os heróis do 5 de Outubro Machado Santos e José Carlos da Maia, dois oficiais e o motorista que tentou opor-se aos crimes. O episódio responde a perguntas de ouvintes, uma sobre o papel de Cunha Leal nessa noite, outra sobre se a Noite Sangrenta terá contribuído para a aversão de Salazar à democracia.
Para explicar o sucedido, Rui Ramos recua a 1910. A República implantada nesse ano foi rapidamente capturada pelo Partido Republicano Português, liderado por Afonso Costa, que não tolerava governos em que não dominasse e recorria sistematicamente à violência para se manter no poder. O PRP apoiava-se numa rede de grupos civis armados e em bases militares leais, sobretudo na Marinha e na GNR, concentrada em Lisboa com artilharia pesada e metralhadoras. Ironicamente, os fundadores simbólicos da República - Machado Santos e José Carlos da Maia - tornaram-se adversários constantes deste domínio partidário, o que os tornava especialmente incómodos para o PRP, pois desmontavam a acusação habitual de que qualquer opositor era monarquista.
Após o colapso do sidonismo e o regresso dos velhos partidos em 1919, uma parte da liderança do PRP mostrou disponibilidade para concessões, aceitando mesmo a eleição do líder da direita republicana António José de Almeida para a Presidência da República. No verão de 1921, os governos de Barros Queirós e, depois, de António Granjo representavam uma tentativa séria de instaurar alternância e normalização, incluindo uma reconciliação com a Igreja Católica. Nas eleições de julho desse ano - as primeiras que o PRP não venceu -, foi eleito deputado Salazar. Esta perspetiva de transformação do regime aterrorizava os militantes radicais do PRP, que temiam perder definitivamente o poder.
Em outubro de 1921, a insurreição da GNR e da Marinha força a demissão de Granjo, mas o Presidente da República recusa nomear o chefe da revolta. Perante este impasse, e desconfiando que os seus próprios líderes estavam a ceder, os grupos radicais tomam a iniciativa de liquidar fisicamente aqueles que consideravam os seus principais inimigos históricos. Os assassinatos são linchamentos públicos, não atentados secretos - o que, sublinham os apresentadores, torna absurda qualquer teoria que os atribua a monárquicos. Cunha Leal, adversário político de Granjo, tentou protegê-lo e foi baleado no pescoço, tornando-se herói nacional e migrando simbolicamente para o campo da direita republicana.
As consequências foram paradoxalmente devastadoras para os próprios radicais. O governo que emergiu da insurreição nunca chegou a tomar posse por falta de apoio. Em dezembro de 1921, Cunha Leal chefia um novo governo, e em março de 1922 o exército desarmou a GNR, retirou-lhe a artilharia e dispersou-a pelo país como polícia rural - destruindo assim a principal base de poder da esquerda radical. Os líderes da insurreição, incluindo Abel Olímpio, foram presos e julgados. O governo longo de António Maria da Silva, a partir de fevereiro de 1922, tentou estabilizar a República, pôr fim ao conflito com a Igreja e sanear as finanças - mas nunca conseguiu consolidar essa transformação, o que acabaria por contribuir para a queda do regime em 1926.
Personagens
- Abel Olímpio
- António Granjo
- Machado Santos
- José Carlos da Maia
- Freitas da Silva
- Botelho de Vasconcelos
- Carlos Gentil
- Cunha Leal
- Salazar
- Afonso Costa
- Manuel de Arriaga
- Sidónio Pais
- António José de Almeida
- Tomé de Barros Queiroz
- Manuel Maria Coelho
- Alberto Guerra
- Ferraz das Barbas
- João das Bombas
- D. Carlos I
- António Maria da Silva
Lugares/Países
- Portugal
- Japão
- Alemanha
Épocas
- Primeira República Portuguesa
- Primeira Guerra Mundial
- Estado Novo
- século XX
Temas
- violência política
- revolução
- instabilidade política
- golpes de Estado
- crise financeira
- inflação
- separação Igreja-Estado
- democracia
- terrorismo político
- milícias
Eventos
- Noite Sangrenta
- Camionete Fantasma
- 5 de Outubro de 1910
- 14 de Maio de 1915
- Golpe de Sidónio Pais
- 31 de Janeiro de 1891
- eleições de 10 de Julho de 1921
Guerras e conflitos
- Primeira Guerra Mundial
Livros citados
- Memórias de Machado Santos sobre a República