Nº 24305 de março de 20241h15efeméride
1904: o ano em que Rússia e Japão entram em guerra
O episódio analisa a Guerra Russo-Japonesa de 1904-1905, primeiro grande conflito do século XX, que opôs dois impérios em rápida modernização pelo controlo da Manchúria e Coreia. A vitória japonesa surpreendeu o mundo, revelando o Japão como potência emergente, mas também desencadeou turbulência interna na Rússia que antecipou a revolução de 1917. A guerra foi decidida tanto por vantagens logísticas japonesas quanto por fragilidades políticas russas.
Ideias principais
- A Rússia pré-comunista vivia um período de forte crescimento económico e industrial (8% ao ano), contrariando o mito de decadência criado pela propaganda soviética posterior.
- O Japão conseguiu a primeira taxa de crescimento económico per capita da história mundial (4,3% ao ano) através de políticas liberais de comércio aberto, tornando-se a primeira potência moderna não-ocidental.
- A derrota russa de 1905 revelou a fórmula da queda imperial: derrotas externas deslegitimam regimes autoritários, provocando revolução interna - padrão que se repetiria em 1917, 1918 (Alemanha) e 1989 (URSS).
- A guerra foi decidida por geografia e logística: o Japão combatia junto às suas bases enquanto a Rússia precisava de 40 dias de comboio e sete meses de viagem naval para reforçar tropas, chegando exaustas ao campo de batalha.
- Montenegro declarou guerra ao Japão em solidariedade com a Rússia, foi esquecido no tratado de paz de 1906, e só formalizou o fim do conflito em 2006, cem anos depois, numa guerra esquecida de um século.
Resumo do episódio
Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares debruçam-se sobre a Guerra Russo-Japonesa de 1904-1905, um conflito que, apesar de pouco conhecido do grande público, teve consequências profundas para o século XX. O ponto de partida é o ataque surpresa da marinha japonesa à base naval russa de Port Arthur, em fevereiro de 1904 - um episódio que os apresentadores aproximam, pela sua lógica e método, do célebre ataque a Pearl Harbor em 1941.
Para enquadrar o conflito, Rui Ramos começa por traçar um retrato comparativo dos dois impérios em confronto. Apesar das suas diferenças, a Rússia e o Japão partilhavam traços comuns relevantes: ambos eram impérios antigos que, na segunda metade do século XIX, tinham sido forçados a modernizar-se após choques humilhantes com potências ocidentais - a derrota russa na Guerra da Crimeia e a abertura forçada do Japão pelos Estados Unidos em 1853. Ambos responderam com reformas estruturais profundas, abolindo formas de servidão, expandindo as redes ferroviárias, promovendo a industrialização e apostando na instrução pública. O apresentador desmonta ainda o mito, criado pela propaganda soviética, de que a Rússia imperial era um país estagnado: na viragem do século, a economia russa crescia a taxas de 8% ao ano e o país era o maior exportador mundial de cereais.
O Japão, por seu turno, apresentava a mais elevada taxa de crescimento económico per capita registada até então por qualquer país no mundo, sustentada por políticas comerciais abertas, uma agricultura produtiva e níveis de instrução já notáveis antes mesmo das reformas da era Meiji. Em 1905, a escolarização universal das crianças estava praticamente atingida - uma realidade que Portugal só alcançaria décadas mais tarde. Esta modernização acelerada tornou ambos os impérios expansionistas, procurando influência nos territórios mais frágeis da Ásia, nomeadamente na Manchúria, na Coreia e no norte da China, à custa de um Império Chinês incapaz de se reformar com eficácia.
Os apresentadores exploram as razões pelas quais o Japão ousou desafiar um império tão vasto. A resposta está na geografia e na logística: a maior parte dos recursos militares russos estava concentrada na Europa, o Transiberiano ainda não estava concluído, e qualquer reforço demorava quarenta dias a chegar ao teatro de operações. A marinha japonesa, além de apoiada tecnologicamente pela Grã-Bretanha - com quem o Japão mantinha um tratado de defesa desde 1902 -, tinha acumulado experiência de combate real, enquanto a esquadra russa enviada do Báltico chegou ao Pacífico ao fim de sete meses de viagem, exausta e sem qualquer batalha travada. A batalha naval de Tsushima, em maio de 1905, resultou na destruição da esquadra russa e ficou na história como o primeiro grande confronto moderno entre navios couraçados, incluindo o uso pioneiro da telegrafia sem fios em contexto de guerra naval.
A derrota russa teve consequências políticas internas de enorme alcance. As notícias do desastre alimentaram uma vaga de contestação - banquetes políticos, motins na marinha, greves e a formação de um soviete em Petrogrado - que obrigou o czar a prometer a criação de um parlamento eleito, a Duma. Rui Ramos sublinha que este episódio não determinou inevitavelmente a Revolução de 1917, mas revelou a fórmula: uma grande derrota externa podia desencadear a desagregação de um império multinacional. Essa fórmula repetiria em 1916-1917, com consequências definitivas.
Personagens
- Imperador Meiji
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- Lenin
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- Eisenstein
- Hirohito
Lugares/Países
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- Pacífico
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- Península Coreana
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Épocas
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- século XVIII
- século XVI
- século XV
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- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
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Temas
- guerra
- imperialismo
- modernização
- industrialização
- diplomacia
- revolução
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- expansionismo
- comércio internacional
- guerra naval
- servidão
- agricultura
- educação
- transporte ferroviário
- petróleo
- economia
- alfabetização
- monarquia constitucional
- autocracia
Eventos
- Guerra Russo-Japonesa
- Ataque a Port Arthur
- Guerra da Crimeia
- Golpe de Estado Meiji
- Revolta dos Boxer
- Cerco de Port Arthur
- Batalha de Mukden
- Batalha de Tsushima
- Revolução de 1905
- Revolução de Outubro
- Revolução de Fevereiro
- Queda do Muro de Berlim
- Ataque a Pearl Harbor
Guerras e conflitos
- Guerra Russo-Japonesa
- Guerra da Crimeia
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- Revolta dos Boxer
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- Guerra Fria