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Nº 29612 de março de 202544:51efeméride

200 anos do nascimento de Camilo

Episódio dedicado aos 200 anos do nascimento de Camilo Castelo Branco (1825-1890), explorando as razões da sua popularidade no século XIX e da sua sobrevivência como clássico da literatura portuguesa. Rui Ramos analisa a obra camiliana não apenas como literatura, mas como documento histórico essencial para compreender a sociedade portuguesa oitocentista, destacando a sua mestria da língua portuguesa e a sua visão trágica e pessimista do mundo.

Ideias principais

  1. Camilo Castelo Branco foi um dos primeiros escritores portugueses a viver exclusivamente da escrita, produzindo cerca de 260 livros e 30 mil páginas ao longo de quatro décadas, principalmente através de folhetins publicados em jornais.
  2. A sua popularidade no século XIX deveu-se à capacidade de escrever para dois públicos simultaneamente: leitores populares que seguiam as intrigas romanescas, e leitores sofisticados que apreciavam o humor, a ironia e os apartes meta-literários.
  3. Camilo sobreviveu como clássico porque a geração de 70 (Eça, Antero, Oliveira Martins) o respeitou como mestre da língua portuguesa, considerando-o o único escritor do século XIX ao nível do Padre António Vieira, representando uma tradição nacional pura sem influências francesas.
  4. A sua visão do mundo era profundamente pessimista e trágica, de matriz cristã tradicional, contrariando o optimismo progressista dominante na literatura portuguesa, o que o aproxima de Dostoiévski na dimensão existencial da sua obra.
  5. A sua vida tornou-se inseparável da sua obra: órfão aos 10 anos, múltiplas carreiras falhadas, prisão por adultério com Ana Plácido, cegueira causada por sífilis e suicídio em 1890, criando uma aura romântica que alimentou a sua popularidade.

Resumo do episódio

O episódio 296 de *E o Resto é História* é dedicado a Camilo Castelo Branco por ocasião do ducentésimo aniversário do seu nascimento, ocorrido a 16 de março de 1825. Rui Ramos e João Miguel Tavares propõem-se analisar a figura não como críticos literários, mas como historiadores: por um lado, compreender por que razão Camilo foi tão popular no seu tempo; por outro, explicar por que motivo essa reputação sobreviveu dois séculos, ao contrário de tantos outros escritores que foram igualmente celebrados em meados de Oitocentos.

A primeira explicação para a popularidade de Camilo reside no contexto mediático da época. Sem rádio nem televisão, o principal entretenimento narrativo das populações urbanas era o folhetim publicado em rodapé na primeira página dos jornais - histórias de aventuras, amores contrariados, mistérios e crimes, publicadas em capítulos e seguidas de um dia para o outro com a lógica das telenovelas actuais. Camilo foi um prolífico autor desse género desde finais da década de 1840, movendo-se com facilidade entre o romance negro, como *Anátema* ou *Mistérios de Lisboa*, o romance passional, o romance satírico sobre os novos-ricos regressados do Brasil, e até o romance histórico. Estes textos eram depois reunidos em volume, mas nasciam na imprensa. Ao contrário dos seus contemporâneos, Camilo vivia exclusivamente da pena, o que era raro numa época em que a maioria dos escritores acumulava cargos na função pública. Essa independência material contribuía para a sua aura de figura excêntrica e marginal.

A segunda razão é biográfica. A vida de Camilo era ela própria um folhetim: órfão desde criança, viúvo aos vinte e dois anos, estudante sem diploma de medicina, direito e teologia, guerrilheiro miguelista (segundo a sua própria versão), e, sobretudo, preso por adultério entre 1860 e 1861 depois de ter sido denunciado pelo marido de Ana Plácido. Durante esse ano na cadeia da Relação do Porto, continuou a publicar romances e artigos assinados da prisão, transformando o episódio numa causa pelo direito ao amor. Os jornais acompanhavam os seus escândalos, e ele próprio introduzia nos livros comentários autobiográficos e apartes humorísticos que criavam um segundo nível de leitura para o leitor mais sofisticado, ao mesmo tempo que a narrativa prendia o leitor ingénuo pela intriga.

A sobrevivência da sua reputação, porém, tem outras causas. A geração de 1870 - Eça de Queirós, Antero de Quental, Oliveira Martins - varreu da memória colectiva quase todos os escritores da geração anterior, mas poupou Camilo. Os apresentadores atribuem isso, em primeiro lugar, à qualidade da sua língua: Camilo é descrito como o mais extraordinário manejador da prosa portuguesa dos últimos duzentos anos, cujo estilo conciso, preciso e musical faz lembrar os grandes prosadores clássicos dos séculos XVII e XVIII, como o Padre António Vieira ou o Frei Luís de Sousa, em contraste com a prosa de Eça, marcada por influências francesas. Para os críticos do fim do século XIX e início do século XX, Camilo representava uma tradição genuinamente nacional, tornando-se o escritor "mais castiço" da língua portuguesa. Esta distinção gerou uma divisão quase futebolística entre "camilianos" e "queirozistas" que perdurou durante décadas.

Em segundo lugar, e talvez mais decisivamente, os dois apresentadores defendem que Camilo transporta uma visão do mundo radicalmente diferente da que domina a literatura portuguesa de Oitocentos e do século XX. Enquanto os seus contemporâneos e sucessores partilham um optimismo humanista e progressista, Camilo tem uma perspectiva trágica e cristã - a ideia de que a felicidade plena é impossível neste mundo - que Rui Ramos aproxima de Dostoiévski. O *Amor de Perdição* é lido como uma lenda cristã de martírio e redenção, e Simão Botelho é comparado a Raskolnikov. Esta dimensão trágica, vivida também na própria experiência do autor - a cegueira, o suicídio em 1890 -, confere aos seus livros uma interpelação ao leitor que vai além do documento histórico. Camilo, concluem os apresentadores, é um escritor que não vive distraído da cond

Personagens

  • Camilo Castelo Branco
  • Ana Plácido
  • Manuel Pinheiro Alves
  • Alexandre Herculano
  • Fontes Pereira de Melo
  • Mendes Leal
  • Rebelo da Silva
  • Eça de Queiroz
  • Antero de Quental
  • Oliveira Martins
  • Teófilo Braga
  • Paul Féval
  • Eugène Sue
  • José Cardoso Vieira de Castro
  • Ramalho Ortigão
  • Vasco Pulido Valente
  • Frei Luís de Sousa
  • Padre António Vieira
  • Padre Manuel Bernardes
  • Fidelino de Figueiredo
  • Fernando Pessoa
  • Rafael Bordalo Pinheiro
  • António Pedro Lopes de Mendonça
  • João de Araújo Correia
  • Agostinha Bessa-Luís
  • Fiódor Dostoiévski
  • Friedrich Nietzsche
  • Blaise Pascal

Lugares/Países

  • Portugal
  • França
  • Brasil
  • Rússia

Épocas

  • século XIX
  • século XVI
  • século XVII
  • século XVIII
  • século XX
  • Regeneração

Temas

  • literatura
  • cultura
  • sociedade
  • romance
  • imprensa
  • folhetim
  • romantismo
  • realismo
  • biografia
  • escândalo social
  • adultério
  • língua portuguesa
  • tradição literária
  • crítica literária
  • pessimismo filosófico
  • cristianismo

Eventos

  • Guerra Civil da Patuleia
  • prisão na Relação do Porto
  • geração de 70

Guerras e conflitos

  • Guerra Civil da Patuleia

Livros citados

  • Amor de Perdição
  • Memórias do Cárcere
  • Anátema
  • Mistérios de Lisboa
  • Onde Está a Felicidade
  • O Que Fazem Mulheres
  • O Judeu
  • Eusébio Macário
  • Vinte Horas de Liteira
  • Novelas do Minho
  • Crime e Castigo