Nº 30223 de abril de 202538:33efeméride
25 de Abril de 1975: a história da Constituinte
O episódio analisa o processo constituinte português de 1975-1976, desde as eleições de 25 de Abril de 1975 até à aprovação da Constituição em Abril de 1976. Rui Ramos explica como a Assembleia Constituinte trabalhou num contexto de revolução militar dominada pelo PCP e extrema-esquerda, sendo inicialmente secundarizada mas ganhando relevância após o 25 de Novembro de 1975. O episódio revela as condicionantes impostas aos partidos, os conflitos políticos e o processo técnico-jurídico que levou à Constituição.
Ideias principais
- As eleições de 25 de Abril de 1975 foram um sucesso sem precedentes com 91,2% de participação e revelaram que o PCP e extrema-esquerda, apesar de dominarem o poder militar, tinham menos de 20% do apoio popular.
- Os partidos foram obrigados a assinar a Plataforma de Acordo Constitucional que limitava o impacto das eleições, garantindo que os resultados não alterariam o governo e que a Constituição consagraria o socialismo e a tutela militar.
- Durante o Verão de 1975 a Assembleia Constituinte foi completamente secundarizada pelos órgãos militares revolucionários que produziam as suas próprias propostas políticas ignorando os deputados eleitos.
- O 25 de Novembro de 1975 alterou radicalmente o trabalho constituinte: o PCP passou a investir na Assembleia que antes desprezava, e os alinhamentos mudaram com o PS a votar com o PCP as conquistas da revolução em vez de com o PPD.
- A Constituição de 1976 reflecte dois consensos distintos: consenso sobre a organização do poder político mas profunda divisão sobre o modelo económico-social, com o CDS a votar contra devido às nacionalizações irreversíveis e limitações à iniciativa privada.
Resumo do episódio
Este episódio de *E o Resto é História* é dedicado à Assembleia Constituinte eleita a 25 de abril de 1975, cujo trabalho culminou na aprovação da Constituição Portuguesa a 2 de abril de 1976. A ocasião é o cinquentenário desse momento fundador, e Rui Ramos e João Miguel Tavares propõem-se responder a uma questão central: que impacto tiveram a rua e a revolução militar sobre o texto constitucional que Portugal acabou por aprovar?
Rui Ramos começa por inverter a pergunta de partida: dado que a Revolução Portuguesa foi essencialmente militar - conduzida pelas cúpulas das Forças Armadas, e não pelas massas -, o mais pertinente é perguntar que impacto teve a Assembleia Constituinte sobre a própria revolução. Antes das eleições, os militares alinhados com o PCP e a extrema-esquerda controlavam o governo, a televisão, a rádio, grande parte da imprensa, as câmaras municipais e os sindicatos. Conscientes, porém, de que não conseguiriam manipular um sufrágio dotado de recenseamento universal, segredo de voto, escrutínio partilhado por todos os partidos e representação proporcional, optaram por limitar antecipadamente o alcance das eleições. A 13 de abril de 1975, poucos dias antes do ato eleitoral, impuseram aos partidos a assinatura da chamada Plataforma de Acordo Constitucional: os resultados eleitorais não poderiam alterar os equilíbrios do governo provisório, a futura Constituição teria de consagrar uma orientação socialista e as Forças Armadas manteriam um papel tutelar sobre o Estado, através do Conselho da Revolução e de uma Assembleia do MFA paralela ao futuro Parlamento eleito. Todos os partidos - PS, PPD e CDS incluídos - assinaram, calculando que um bom resultado eleitoral lhes daria força suficiente para subverter o pacto.
E foi o que aconteceu. A afluência às urnas foi de 91,2%, um contraste abissal com os 59% das eleições de 2024. O resultado revelou que o PCP e a extrema-esquerda, juntos, não chegavam aos 20% dos votos - sendo que o PCP sozinho ficou pelos 12% -, enquanto o PS saía como claro vencedor. Ficava demonstrado que os detentores do poder revolucionário eram uma pequena minoria do país, e que Portugal era eleitoralmente plural, dividido grosso modo entre um Norte e ilhas mais à direita e um Sul alentejano e a área de Setúbal mais à esquerda. Os apresentadores notam, com alguma ironia, que esta clivagem confirma a velha intuição geográfica de Orlando Ribeiro sobre os dois Portugais.
Paradoxalmente, durante o Verão Quente de 1975, a Assembleia Constituinte foi quase ignorada. Aberta a 2 de junho no Palácio de São Bento, com 250 deputados na sua maioria sem experiência parlamentar, ela funcionava através de treze comissões temáticas e de plenários que somaram centenas de horas de trabalho. Mas a comunicação social estatizada mal a cobria, os deputados não receberam subsídio antes de setembro, Álvaro Cunhal suspendeu de imediato o seu mandato como sinal de desprezo, e a Assembleia do MFA aprovava em julho de 1975 documentos sobre a organização política do país como se a Constituinte simplesmente não existisse. A extrema-esquerda chegou a exigir a sua dissolução. O debate interno ficou largamente reservado a juristas - Jorge Miranda, Marcelo Rebelo de Sousa, Mota Pinto e Vital Moreira entre eles -, que discutiam sobretudo questões técnicas.
O ponto de viragem foi o 25 de novembro de 1975, quando os militares moderados afastaram a ala alinhada com o PCP. O novo pacto MFA-Partidos, assinado em fevereiro de 1976, era radicalmente diferente do anterior: previa a eleição direta do Presidente da República, reduzia a tutela militar ao Conselho da Revolução e limitava-a a um período de transição. O PCP, que desprezara a Constituinte quando estava no poder, passou a investir nela intensamente após a derrota. Os alinhamentos de voto também mudaram: o PS, que em 1975 votara sistematicamente com PPD e CDS em defesa dos direitos e liberdades, aproximou-se em 1976 do PCP nas chamadas
Personagens
- General Spínola
- Adelino da Palma Carlos
- General Costa Gomes
- José Magalhães Godinho
- Tenente-Coronel Costa Brás
- Coronel Vasco Gonçalves
- Mário Soares
- Álvaro Cunhal
- Orlando Ribeiro
- Francisco Pinto Balsemão
- Mota Amaral
- Magalhães Mota
- Jorge Miranda
- Mota Pinto
- Manuel Costa Andrade
- Barbosa de Melo
- Marcelo Rebelo de Sousa
- Vital Moreira
- Francisco Sá Carneiro
Lugares/Países
- Portugal
Épocas
- Revolução de 25 de Abril de 1974
- Estado Novo
- Revolução Francesa de 1789
- século XVIII
Temas
- revolução
- democracia
- direito constitucional
- política
- eleições
- nacionalizações
- reforma agrária
- socialismo
- poder militar
- sindicalismo
- comunicação social
Eventos
- 25 de Abril de 1974
- Eleições de 25 de Abril de 1975
- 11 de Março de 1975
- Verão Quente de 1975
- Cerco do Parlamento
- 25 de Novembro de 1975
- Ocupação do Jornal República
- 1º de Maio de 1975
- Plataforma de Acordo Constitucional
Livros citados
- Portugal e o Mediterrâneo