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Nº 15315 de junho de 202241:03efeméride

450 anos dos Lusíadas e os Ferraris de Felgueiras

Celebração dos 450 anos da publicação d'Os Lusíadas (1572) e dos 3 milhões de downloads do podcast. Rui Ramos analisa as diferentes leituras da obra ao longo dos séculos: como poema dirigido a D. Sebastião, como comemoração genealógica da nobreza portuguesa, como obra de engenho literário com estrutura esotérica (segundo Jorge de Sena), e como símbolo do nacionalismo a partir do século XIX. Termina estabelecendo a ligação entre a imigração portuguesa para o Brasil e o desenvolvimento industrial do Minho.

Ideias principais

  1. Os Lusíadas foram lidos de formas radicalmente diferentes ao longo do tempo: inicialmente como incentivo militar a D. Sebastião e comemoração genealógica das famílias nobres portuguesas, não como obra de história nacional.
  2. Jorge de Sena demonstrou matematicamente que Os Lusíadas possuem uma arquitetura esotérica complexa, com episódios estrategicamente posicionados segundo cálculos precisos, revelando uma reflexão moral platónica sobre tempo e história.
  3. A transformação de Camões em poeta nacional ocorreu no século XIX, quando substituiu os santos como figura de veneração cívica, num movimento europeu que elegeu autores como símbolos das identidades linguísticas nacionais (Shakespeare, Goethe).
  4. A riqueza do Minho nos séculos XIX-XX resultou da imigração para o Brasil, com retorno de capitais que financiaram a alfabetização masculina mais alta do país e o posterior desenvolvimento industrial têxtil da região.
  5. Os Lusíadas adquiriram dimensão anti-castelhana após 1580 e tornaram-se veículo de um discurso de decadência e regeneração nacional, passando de exortação régia a apelo dirigido a todos os portugueses para recuperarem a grandeza perdida.

Resumo do episódio

Este episódio de *E o Resto é História* foi gravado numa ocasião dupla: a celebração dos três milhões de descarregamentos do podcast, atingidos precisamente no Dia de Portugal, e o 450.º aniversário da primeira edição de *Os Lusíadas*, publicada em 1572. A partir destas coincidências, Rui Ramos desenvolve uma reflexão sobre como o poema de Camões foi lido e interpretado de formas muito distintas ao longo dos séculos, e o episódio termina com uma pergunta de um ouvinte sobre a ligação histórica entre a emigração minhota para o Brasil e a prosperidade industrial da região de Felgueiras.

Rui Ramos começa por explicar que *Os Lusíadas* tiveram impacto imediato após a publicação, mas que esse impacto não foi sempre o mesmo. A primeira leitura, a mais óbvia, é a da exaltação militar dirigida ao jovem rei D. Sebastião, que tinha dezoito anos em 1572 e que, poucos anos depois, partiria para a campanha desastrosa de Alcácer-Quibir. O poema funcionava como um incentivo ao monarca para reencetar os grandes feitos dos antepassados, e Camões foi recompensado com uma tença régia que continuou a ser paga após a sua morte, em 1580.

Mas há uma outra leitura, menos conhecida, que Rui Ramos atribui sobretudo ao trabalho do escritor e académico Jorge de Sena, nomeadamente ao livro *A Estrutura dos Lusíadas*, de 1969. Sena leu o poema com os livros de linhagens nobres na mão e concluiu que Camões parece ter privilegiado sistematicamente as figuras com quem tinha laços familiares - incluindo Inês de Castro e Vasco da Gama, de quem seria parente por via materna. Isto não seria nepotismo no sentido moderno, explica Rui Ramos, mas antes um reflexo da lógica daquela sociedade, em que a linhagem era um verdadeiro capital simbólico e material. Muitos dos primeiros leitores do poema reconheceriam nele não figuras históricas abstractas, mas antepassados das suas próprias famílias.

Jorge de Sena identificou ainda uma dimensão muito mais elaborada: uma arquitectura simbólica e matemática que estrutura o poema, com cálculos que determinam a posição de cada episódio e de cada verso de forma a conferir-lhe carga simbólica. Segundo esta leitura, *Os Lusíadas* são uma reflexão moral sobre o tempo e a história, ancorada na tradição platónica e nas correntes esotéricas do Renascimento, com o episódio de Inês de Castro e o da Ilha dos Amores a funcionar como os dois pólos do poema - a tragédia das paixões humanas e a glorificação do heroísmo que as supera. Foi essa grandeza de engenho, e não apenas o tema português, que explicou as traduções imediatas para as principais línguas europeias nos séculos XVI e XVII.

A partir do século XVII, com a União Dinástica e a resistência à presença castelhana, o poema adquiriu uma nova função: a afirmação de uma identidade histórica portuguesa singular. E no século XIX, com o Romantismo e a construção das identidades nacionais europeias, Camões tornou-se o símbolo por excelência da língua e da nação portuguesas - comparável a Shakespeare em Inglaterra ou a Goethe nos países de língua alemã. A estátua no Largo de Camões em Lisboa, em 1867, e as grandes comemorações do tricentenário da morte em 1880 consolidaram essa centralidade. O próprio Fernando Pessoa, em *Mensagem* (1934), dialogou explicitamente com este legado, numa tentativa de suceder simbolicamente a Camões.

Personagens

  • Luís Vaz de Camões
  • D. Sebastião
  • Vasco da Gama
  • Inês de Castro
  • Filipe II de Espanha
  • D. Manuel I
  • Homero
  • Virgílio
  • Platão
  • Jorge de Sena
  • Fernão Lopes de Castanheda
  • João de Barros
  • Junot
  • Napoleão Bonaparte
  • Morgado de Mateus
  • Almeida Garrett
  • João Domingos Bontempo
  • Domingos António Sequeira
  • Auguste Comte
  • D. José I
  • D. Pedro IV
  • Fernando Pessoa
  • Eça de Queirós
  • Camilo Castelo Branco
  • William Shakespeare
  • Goethe

Lugares/Países

  • Portugal
  • Espanha
  • Brasil
  • Marrocos
  • Índia
  • França
  • Itália
  • Inglaterra
  • Alemanha
  • Europa

Épocas

  • século XVI
  • século XVII
  • século XVIII
  • século XIX
  • século XX
  • Renascimento
  • Estado Novo

Temas

  • literatura
  • colonialismo
  • império
  • identidade nacional
  • nobreza
  • genealogia
  • imigração
  • industrialização
  • comércio
  • nacionalismo
  • patriotismo
  • esoterismo
  • matemática
  • religião
  • guerra
  • cultura
  • educação

Eventos

  • Batalha de Alcácer-Quibir
  • União Dinástica de 1580
  • invasões francesas
  • Revolução de 25 de Abril de 1974
  • centenário da morte de Camões (1880)
  • publicação d'Os Lusíadas (1572)

Guerras e conflitos

  • Batalha de Alcácer-Quibir
  • guerras napoleónicas

Livros recomendados

  • A Estrutura dos Lusíadas (Jorge de Sena)

Livros citados

  • Os Lusíadas
  • A Estrutura dos Lusíadas
  • Mensagem (Fernando Pessoa)
  • Os Maias (Eça de Queirós)