Nº 15529 de junho de 202249:35efeméride
90 anos da chegada de Salazar à chefia do governo
No 90.º aniversário da nomeação de Salazar como Presidente do Conselho (5 de julho de 1932), Rui Ramos e João Miguel Tavares analisam a «pré-história do salazarismo» e questionam se a ascensão de Salazar estava predeterminada. O episódio explora como, entre 1928 e 1932, Salazar passou de Ministro das Finanças a líder incontestado, transformando a ditadura militar numa ditadura civil e doutrinária. A segunda parte aborda a morte do último imperador Habsburgo, Carlos I, no Funchal, em 1922.
Ideias principais
- A ascensão de Salazar ao poder não era inevitável em 1928: ele era apenas um entre vários ministros representando correntes políticas distintas num governo de coligação sob tutela militar.
- Entre 1928 e 1932, a combinação da crise económica de 1929, a radicalização da esquerda republicana e o apoio dos jovens oficiais militares ('tenentes de maio') transformou Salazar num líder credível com doutrina própria.
- A historiografia tradicional sobre Salazar, tanto de admiradores como de críticos, tende a sacralizar a sua figura e a ignorar a história política concreta das intrigas e lutas pelo poder que permitiram a sua consolidação.
- Cunha Leal era em 1928 o candidato mais provável a liderar uma transição civil pós-ditadura, mas Salazar conseguiu afastá-lo através de conflitos políticos e do seu posterior exílio e desacreditação junto da esquerda republicana.
- Carlos I de Habsburgo, último imperador austro-húngaro, morreu exilado na Madeira em 1922 após tentativas falhadas de restauração monárquica, tendo sido beatificado em 2004 pelas suas convicções pacifistas cristãs durante a Primeira Guerra Mundial.
Resumo do episódio
Este episódio de *E o Resto é História* centra-se no 90.º aniversário da nomeação de António de Oliveira Salazar como presidente do Conselho de Ministros, a 5 de julho de 1932. A pergunta de partida é provocatória: seria inevitável que Salazar chegasse à chefia do governo? A famosa frase que proferiu ao tomar posse como ministro das Finanças em 1928 - "sei o que quero e para onde vou" - é frequentemente lida como uma espécie de profecia. Rui Ramos e João Miguel Tavares argumentam, pelo contrário, que essa leitura resulta de um anacronismo: tendemos a projetar o desfecho no início, tratando o percurso de Salazar como se estivesse escrito de antemão, quando a realidade era bem mais aberta e contingente.
Em 1928, Portugal vivia sob uma ditadura militar presidida pelo general Carmona, e o governo funcionava como um mini-parlamento que agregava diversas correntes - republicanos conservadores, católicos, monárquicos - com os militares a arbitrar entre elas. Salazar entrava nesse governo como representante de uma dessas correntes, a dos católicos próximos da Igreja, e não como candidato a líder. Além disso, a própria ditadura era então entendida como um regime transitório: os militares estavam ali para resolver os problemas que o parlamentarismo republicano não resolvera, mas sem intenção de ficar indefinidamente, até porque a politização das Forças Armadas poderia conduzir à guerra civil. O candidato mais plausível a chefiar uma eventual transição para um governo civil seria Cunha Leal, líder da direita republicana, orador habilidoso e figura com implantação partidar real - alguém a quem o próprio Salazar devia, em parte, a sua nomeação.
Entre 1928 e 1932, porém, o contexto transformou-se profundamente, e Salazar soube aproveitar essa aceleração. A grande crise financeira de 1929 e a depressão económica que se lhe seguiu abalaram a confiança nos regimes liberais e parlamentares, tornando os modelos autoritários - o fascismo italiano, o comunismo soviético - referências credíveis de alternativa. Em Portugal, a esquerda republicana deixou claro que não aceitaria qualquer transição pacífica para um governo civil em que não dominasse totalmente, o que revelou ao conjunto dos apoiantes da ditadura - católicos, nacionalistas, direita republicana - que precisavam de a tornar duradoura. A queda da monarquia em Espanha, em 1931, e o entusiasmo que isso gerou na oposição republicana portuguesa reforçaram essa perceção.
Neste novo quadro, o papel de Salazar alterou-se decisivamente. Como ministro das Finanças, ele acumulara o prestígio do equilíbrio orçamental, mas foi igualmente construindo uma doutrina para o regime - um Estado autoritário e corporativo, distinto tanto do parlamentarismo republicano como da simples ditadura militar. Os seus discursos, escritos com elegância e precisão, conferiam forma a ideias que outros apenas esboçavam. Paralelamente, Salazar foi estabelecendo laços com os oficiais mais jovens da ditadura, os chamados "tenentes de maio", que tinham combatido na rua contra as insurreições da esquerda republicana e que desconfiavam dos generais mais velhos formados na cultura republicana. Foram estes jovens militares que lhe garantiram uma base de força real. Quanto a Cunha Leal, Salazar tratou de o afastar: criou um conflito com ele por volta de 1930, forçou-o ao exílio e conseguiu que, nesse exílio, Cunha Leal se aproximasse da esquerda republicana, desacreditando-se como alternativa à ditadura.
O episódio inclui ainda um segundo tema, introduzido a partir de um pedido de um ouvinte: a história de Carlos de Habsburgo, último imperador da Áustria-Hungria, que morreu no Funchal em abril de 1922, com apenas 34 anos. Rui Ramos explica como o jovem imperador - que subiu ao trono em 1916, em plena Primeira Guerra Mundial - tentou por várias vias salvar o seu império: negociações secretas com os aliados para uma paz separada, proposta de federalização do império em várias nações autónomas e, por fim, uma oferta de se tornar uma figura meramente simbólica. Todas estas tentativas fracassaram. Em novembro de 1918, proclamou-se a república na Áustria e o império dissolveu-se. Após
Personagens
- António de Oliveira Salazar
- Óscar Carmona
- Cunha Leal
- Franco Nogueira
- Fernando Pessoa
- Cardeal Cerejeira
- Humberto Delgado
- Henrique Galvão
- Lenin
- Mussolini
- Carlos I de Habsburgo
- Franz Ferdinand
- Franz Josef
- Imperatriz Isabel (Sissi)
- Papa Bento XV
- Papa João Paulo II
- Maria II de Portugal
- Infanta Mariana
- Agustina Bessa-Luís
Lugares/Países
- Portugal
- Espanha
- Itália
- Rússia
- Estados Unidos da América
- Alemanha
- Áustria
- Hungria
- Prússia
- França
- Inglaterra
- República Checa
- Eslováquia
- Roménia
- Ucrânia
- Eslovénia
- Croácia
- Sérvia
- Boémia
- Suíça
- Madeira
- Saxónia
Épocas
- Estado Novo
- Ditadura Militar (1926-1932)
- Primeira República Portuguesa
- Século XIX
- Século XX
- Primeira Guerra Mundial
- Grande Depressão (1929)
- Anos 20
- Anos 30
Temas
- ditadura
- política
- economia
- finanças públicas
- catolicismo
- militarismo
- republicanismo
- autoritarismo
- corporativismo
- nacionalismo
- inflação
- orçamento de Estado
- repressão política
- monarquia
- imperialismo
- autodeterminação
- federalismo
- beatificação
Eventos
- 28 de Maio de 1926
- Nomeação de Salazar como Presidente do Conselho (5 de julho de 1932)
- Nomeação de Salazar como Ministro das Finanças (1928)
- Crise financeira de 1929
- Queda da monarquia em Espanha (1931)
- Reviralho (1927)
- Revolução de 1931
- Fim do Sacro Império Romano-Germânico (1806)
- Unificação da Alemanha (1871)
- Guerra Austro-Prussiana (1866)
- Assassinato de Franz Ferdinand (1914)
- Morte de Franz Josef (1916)
- Fim da Primeira Guerra Mundial (1918)
- Proclamação da República na Áustria (11 de novembro de 1918)
- Morte de Carlos I (1 de abril de 1922)
Guerras e conflitos
- Primeira Guerra Mundial
Livros citados
- A Corte do Norte (Agustina Bessa-Luís)