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Nº 5605 de agosto de 202038:15efeméride

A bomba de Hiroxima foi moralmente justificada?

O episódio aborda duas efemérides de agosto: os 75 anos da bomba de Hiroshima (6 de agosto de 1945) e os 442 anos da Batalha de Alcácer-Quibir (4 de agosto de 1578). Rui Ramos defende a justificação moral das bombas atómicas no contexto da Segunda Guerra Mundial, desmontando a narrativa soviética da Guerra Fria, e reabilita D. Sebastião, argumentando que a expedição africana não foi loucura mas tentativa de reagir ao declínio português e à subordinação a Espanha.

Ideias principais

  1. A propaganda soviética criou após 1948 uma narrativa falsa de que as bombas atómicas foram lançadas para intimidar a URSS e não para forçar a rendição japonesa, quando na verdade o Japão não mostrava sinais de capitulação.
  2. A Batalha de Okinawa (abril-junho 1945) revelou a determinação japonesa de resistir até à morte, com 95 mil mortos em 100 mil soldados e 150 mil civis mortos, levando a projecções apocalípticas de 1 milhão de baixas americanas numa invasão do Japão.
  3. D. Sebastião não foi um rei louco responsável pelo declínio de Portugal, mas antes reagiu a um declínio já existente desde D. João III, tentando libertar Portugal da crescente subordinação à Espanha dos Habsburgos através de uma vitória militar no Norte de África.
  4. A expedição a Alcácer-Quibir tinha apoio popular em Portugal e visava restaurar o prestígio da coroa portuguesa através de uma cruzada, numa época em que o comércio da Índia declinava e a influência castelhana na corte era dominante.
  5. D. Sebastião terá preferido morrer em combate a deixar-se capturar porque sabia que seria Filipe II a resgatá-lo, o que o tornaria completamente dependente do tio espanhol e anularia os objectivos políticos da expedição.

Resumo do episódio

Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares debruçam-se sobre duas questões históricas distintas: a justificação moral do lançamento das bombas atómicas sobre o Japão em 1945 e o papel de D. Sebastião na expedição a Alcácer Quibir em 1578.

A primeira parte do episódio parte de uma pergunta directa: foram as bombas de Hiroxima e Nagasaki moralmente justificadas? Rui Ramos defende que sim, desde que a decisão de Truman seja analisada no contexto real em que foi tomada, e não no contexto artificialmente construído pela propaganda soviética durante a Guerra Fria. A União Soviética difundiu a narrativa de que o Japão estava prestes a render-se e de que as bombas teriam servido apenas para intimidar Moscovo, mas Ramos desmonta esse argumento recorrendo à Batalha de Okinawa, travada entre Abril e Junho de 1945. Nessa batalha, os americanos, com o dobro das forças japonesas e domínio total do ar e do mar, demoraram quase três meses a conquistar uma ilha de apenas 1200 km². Dos cerca de 100 mil soldados japoneses defensores, 95 mil morreram em combate, sem se renderem, e 150 mil civis também pereceram. A ferocidade da resistência - incluindo ataques kamikaze, bombistas suicidas adolescentes e o suicídio ritual de quase todos os oficiais superiores - levou o estado-maior americano a calcular que uma invasão convencional do Japão resultaria entre 800 mil e um milhão de mortos americanos e entre cinco a dez milhões de mortos japoneses. Quando o Japão recusou a Declaração de Potsdam em Julho de 1945 e mobilizou a população civil para resistir até à morte, Truman viu-se perante três opções igualmente terríveis: a invasão com milhões de mortos, o bloqueio prolongado com fome e bombardeamentos convencionais durante anos, ou o uso da bomba atómica sobre alvos urbanos para pressionar o governo japonês a render-se. O episódio assinala ainda que, mesmo após Hiroxima, o governo japonês hesitou, e só a segunda bomba, sobre Nagasaki, levou o imperador a impor a rendição a 15 de Agosto. O facto de Truman nunca mais ter autorizado o uso da bomba - recusando fazê-lo durante a Guerra da Coreia, mesmo quando o general MacArthur o propôs perante a ofensiva chinesa de 1950 - é apresentado como prova de que não havia gosto na decisão, mas sim um cálculo pragmático para salvar mais vidas do que as que se sacrificavam.

A segunda parte do episódio aborda a figura de D. Sebastião e a batalha de Alcácer Quibir, respondendo a questões de ouvintes que perguntam por que razão os portugueses continuam a nutrir simpatia por um rei a quem muitos atribuem o declínio do país. Ramos recusa a leitura simplista do rei como jovem fanático e irresponsável, argumentando que o declínio já estava em curso antes de 1578 e que a expedição africana foi, em parte, uma tentativa de lhe reagir. Portugal enfrentava dificuldades financeiras crescentes, o comércio com a Índia decaíra, e a monarquia estava progressivamente subordinada aos Habsburgos espanhóis, com Filipe II a exercer influência determinante sobre a coroa portuguesa. Neste quadro, a campanha no norte de África surge como um projecto com amplo apoio interno, enquadrado numa tradição de cruzada contra o Islão e na necessidade de reafirmar o prestígio e a autonomia de Portugal perante a Europa. A derrota resultou da desproporção de forças - cerca de 15 mil homens portugueses contra 50 a 60 mil marroquinos - e do colapso da disciplina do exército de D. Sebastião em combate. Quanto à morte do rei, o episódio sublinha o mistério que ainda persiste: D. Sebastião recusou deliberadamente render-se, consciente de que a sua captura o colocaria nas mãos de Filipe II, o que esvaziaria politicamente tudo o que a expedição pretendia afirmar.

Personagens

  • Harry S. Truman
  • Douglas MacArthur
  • Gustavo Adolfo da Suécia
  • Jaime VI da Escócia
  • D. Sebastião
  • D. João III
  • D. Manuel I
  • Vasco da Gama
  • D. Afonso V
  • D. Catarina
  • Carlos V
  • Filipe II
  • D. João (príncipe)
  • D. Joana
  • Infante D. Carlos
  • Buckner (general americano)

Lugares/Países

  • Estados Unidos
  • Japão
  • União Soviética
  • China
  • Coreia
  • Coreia do Norte
  • Coreia do Sul
  • Portugal
  • Espanha
  • Marrocos
  • Egito
  • Turquia
  • Brasil
  • Índia
  • Palestina
  • França

Épocas

  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra Fria
  • Guerra da Coreia
  • século XVI
  • século XV
  • século XVII
  • século XIX
  • século XX
  • Idade Média

Temas

  • guerra
  • armas nucleares
  • ética militar
  • estratégia militar
  • propaganda
  • batalhas
  • expansão marítima
  • cruzadas
  • religião
  • comércio
  • economia
  • diplomacia
  • império
  • declínio
  • colonialismo

Eventos

  • Bomba de Hiroshima
  • Bomba de Nagasaki
  • Batalha de Okinawa
  • Declaração de Potsdam
  • Batalha de Alcácer-Quibir
  • Reconquista

Guerras e conflitos

  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra Fria
  • Guerra da Coreia
  • Guerra do Vietname
  • Guerra do Iraque