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Nº 14230 de março de 202241:12efeméride

A chegada de Estaline ao poder há 100 anos

Análise dos 100 anos da nomeação de Stalin como secretário-geral do Partido Comunista (3 de abril de 1922). Rui Ramos argumenta que a União Soviética stalinista foi obra de Lenin e não um desvio pessoal: a ditadura do partido, o terror político, os campos de concentração e as purgas já existiam sob Lenin. Stalin apenas continuou e aprofundou o sistema leninista, transformando a revolução permanente numa escalada de violência sem precedentes.

Ideias principais

  1. Stalin não traiu Lenin mas continuou e radicalizou o sistema que este criou, incluindo ditadura do partido, terror político, campos de concentração e purgas internas desde 1921.
  2. A tese de Khrushchev (1956) que atribuía todos os crimes ao 'culto da personalidade' de Stalin foi uma forma dos próprios colaboradores stalinistas se desresponsabilizarem do regime que ajudaram a construir.
  3. Nas eleições livres de novembro de 1917 para a Assembleia Constituinte, os bolcheviques obtiveram apenas 23% dos votos em mais de 100 partidos, revelando que a Rússia era pluralista antes da imposição da ditadura comunista.
  4. O poder de Stalin baseou-se no cargo de secretário-geral do Comité Central (criado em 1919), que lhe permitiu controlar o partido através de purgas e colocações, tornando presidência e governo do Estado meras fachadas decorativas.
  5. Ao contrário das revoluções europeias do século XIX que moderavam após a violência inicial, a revolução soviética tornou-se progressivamente mais violenta, eliminando inimigos reais e inventando novos numa dinâmica de revolução permanente.

Resumo do episódio

O episódio 142 de *E o Resto é História* é dedicado ao centenário da nomeação de Estaline como secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética, a 3 de abril de 1922. A pergunta de partida que João Miguel Tavares coloca a Rui Ramos é simultaneamente histórica e interpretativa: quem era Estaline em 1922, como decorreu a sua coabitação com Lenine nos últimos dois anos de vida deste, e, no fundo, a União Soviética tal como a conhecemos é mais obra de Lenine ou de Estaline?

Rui Ramos começa por rejeitar a tese, popularizada por Khrushchev no célebre discurso secreto ao XX Congresso do Partido, em 1956, segundo a qual todos os crimes do regime soviético - os campos de concentração, as execuções em massa, a coletivização forçada, a fome na Ucrânia de 1932-33 - seriam responsabilidade exclusiva de Estaline e de um alegado "culto da personalidade". Para Ramos, esta narrativa era conveniente para os próprios colaboradores de Estaline, que assim se isentavam de cumplicidade, mas é historicamente insustentável. O stalinismo não foi um desvio em relação ao leninismo: foi a sua continuação lógica.

Para fundamentar esta tese, os apresentadores recuam ao período entre 1917 e 1922 e descrevem o regime que Lenine construiu. Um ponto de partida revelador são as eleições para a Assembleia Constituinte de novembro de 1917, realizadas poucos dias depois de os bolchevistas tomarem o poder - e que estes não se atreveram ainda a impedir. Com 47 milhões de eleitores e mais de cem partidos, os bolchevistas obtiveram apenas 23% dos votos. A assembleia reuniu um único dia e foi dissolvida. O que Lenine derrubou não foi o czarismo, esclarecem os apresentadores, mas uma república democrática pluripartidária que havia sido proclamada após a abdicação do czar em março de 1917. Já em 1921, o único partido tolerado era o Comunista, e dentro deste a autoridade de Lenine era absoluta: decidido por ele, o debate encerrava. A Tcheca - polícia política - era o órgão central do Estado, e as purgas internas começaram ainda sob Lenine, com um quarto dos membros do partido a ser expulsos em 1921-1922.

O episódio traça também o contexto das divisões táticas entre os dirigentes bolchevistas após a guerra civil. Trotsky, apresentado aqui não como uma face moderada da revolução mas, pelo contrário, como a sua ala mais radical, defendia a "revolução permanente" e a coletivização imediata. Lenine optou pela Nova Política Económica, que combinava a ditadura do partido com uma economia parcialmente livre - um recuo pragmático que deu resultados, mas que o próprio Lenine sempre descreveu como provisório. É neste contexto de luta pela sucessão que Estaline emerge. Descrito como um homem aparentemente cinzento em comparação com o brilhantismo de Trotsky, era na verdade um leitor voraz e um operador político meticuloso. O cargo de secretário-geral, criado apenas em 1919 e aparentemente burocrático, revelou-se o instrumento decisivo: permitia controlar as nomeações, a disciplina interna e, progressivamente, eliminar os críticos.

Rui Ramos conclui que o que Estaline acrescentou a Lenine foi essencialmente a recusa de qualquer moderação. Ao contrário do padrão das revoluções europeias do século XIX, em que um momento inicial de violência dava lugar a uma estabilização, o poder soviético tornou-se cada vez mais violento nos anos 1930 e 1940, inventando inimigos quando os reais já haviam sido eliminados. Mas isto só foi possível graças à estrutura leninista, que concentrou o poder no líder do partido e não numa assembleia - o que permitiu ao líder mudar de rumo sem qualquer mecanismo de controlo. A conclusão é clara: sem Lenine não teria havido Estaline, e a União Soviética que Estaline governou foi, na sua essência, a obra que Lenine começou.

Personagens

  • Josef Stalin
  • Vladimir Lenin
  • Leon Trotsky
  • Nikita Khrushchev
  • Vyacheslav Molotov
  • Georgy Malenkov
  • Deng Xiaoping
  • Karl Marx
  • Anton Tchekhov
  • Lev Tolstói
  • Stephen Kotkin

Lugares/Países

  • União Soviética
  • Rússia
  • Império Russo
  • Alemanha
  • França
  • China
  • Ucrânia
  • México
  • Polónia
  • Arménia
  • Geórgia

Épocas

  • século XIX
  • século XX
  • Primeira Guerra Mundial
  • anos 1920
  • anos 1930
  • anos 1940
  • anos 1950
  • anos 1980
  • anos 1990

Temas

  • revolução
  • comunismo
  • ditadura
  • terror político
  • guerra civil
  • ideologia
  • economia
  • coletivização
  • purgas políticas
  • poder
  • marxismo-leninismo

Eventos

  • Revolução Russa
  • Guerra Civil Russa
  • eleições para a Assembleia Constituinte de 1917
  • fundação da União Soviética
  • XX Congresso do Partido Comunista
  • Grande Purga
  • fome na Ucrânia 1932-33

Guerras e conflitos

  • Primeira Guerra Mundial
  • Guerra Civil Russa

Livros citados

  • biografia de Stalin de Stephen Kotkin