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Nº 36507 de julho de 20261h04série especial

A chegada dos ingleses (independência americana 1)

Primeiro episódio de uma série de quatro sobre a independência americana, centra-se na chegada e estabelecimento dos colonos europeus na América do Norte durante os séculos XVI e XVII. Explica porque é que os ingleses chegaram mais tarde que espanhóis e franceses, mas criaram colónias mais prósperas e populosas. Analisa as diferenças entre as colónias do sul (plantações de tabaco com escravos) e do norte (puritanos com economia baseada em pesca, madeira e comércio), concluindo que em meados do século XVIII as 13 colónias inglesas tinham um milhão de habitantes europeus, muito mais que as colónias francesas e espanholas.

Ideias principais

  1. A conquista espanhola das Américas foi uma empresa quase privada de fidalgos pobres atraídos pelas riquezas dos impérios Azteca e Inca, mas a América do Norte não tinha grandes civilizações visíveis nem ouro facilmente acessível, tornando-a pouco atraente inicialmente.
  2. Os portugueses no Brasil desenvolveram criativamente a produção de açúcar com escravos africanos, um modelo imitado nas Caraíbas, enquanto os espanhóis introduziram cavalos, gado e a cultura dos vaqueros (cowboys) no sul da América do Norte.
  3. As colónias inglesas eram excepcionalmente prósperas e atraíam imensa migração porque ofereciam terra abundante, ausência de corporações profissionais, protecção legal dos direitos de propriedade, recursos naturais imensos (especialmente madeira e rios navegáveis) e salários muito superiores aos da Inglaterra.
  4. As colónias puritanas do norte estabeleceram governos democráticos baseados no consentimento dos cidadãos livres, com Rhode Island a ser a primeira a declarar total liberdade religiosa em 1644, e desenvolveram taxas de literacia de 90% nos homens em meados do século XVIII.
  5. Em 1750 as 13 colónias inglesas tinham um milhão de habitantes europeus contra apenas 70 mil franceses no Canadá e Louisiana e 5 mil espanhóis na Flórida, mas as potências europeias valorizavam mais as pequenas ilhas produtoras de açúcar nas Caraíbas do que estas vastas extensões territoriais.

Resumo do episódio

Este episódio inaugura uma série de quatro programas dedicados ao 250.º aniversário da declaração de independência americana, assinada a 4 de julho de 1776. João Miguel Tavares e Rui Ramos propõem-se explicar o nascimento dos Estados Unidos desde as suas raízes coloniais até à criação da Constituição, começando neste primeiro episódio pela chegada dos europeus à América do Norte no início do século XVII.

Rui Ramos parte de uma pergunta essencial: se os espanhóis exploraram a América do Norte muito antes dos ingleses, por que razão não se estabeleceram lá primeiro? A resposta reside na lógica da conquista espanhola, que funcionava como uma empresa quase privada de fidalgos e mercadores à procura de riquezas imediatas. Os grandes impérios asteca e inca, com as suas construções monumentais e os seus minerais preciosos, justificavam o risco. A América do Norte, pelo contrário, não oferecia esses incentivos visíveis: as tribos pareciam pobres e primitivas, não havia ouro à vista e o sistema de encomiendas, que permitia aos conquistadores viver como senhores feudais à custa das populações indígenas, era difícil de replicar numa região pouco populosa. Os espanhóis limitaram-se a missionários e fortes dispersos na Flórida, no Texas, no Novo México e na Califórnia, deixando como legado mais duradouro a introdução do cavalo, do gado bovino e da cultura dos vaqueros — os futuros cowboys.

Os franceses chegaram ao Canadá atraídos pelas pescas e pelo lucrativo comércio de peles de castor, explorando o interior ao longo do rio São Lourenço e fundando Quebec. O explorador La Salle percorreu toda a bacia do Mississípi até ao Golfo do México, reclamando para França uma região imensa que batizou de Louisiana. Contudo, a presença francesa era sempre muito ténue — fortes, missões e alianças com tribos índias —, e nunca gerou uma migração de monta. Em meados do século XVIII, havia um milhão de colonos ingleses na costa leste contra apenas 70 mil franceses no Canadá e na Louisiana.

Os ingleses chegaram por último, mas com uma lógica diferente. As primeiras expedições eram companhias comerciais com acionistas londrinos, e logo desde o início garantiram aos colonos os mesmos direitos que tinham em Inglaterra — julgamento por júri, governo representativo, propriedade protegida por lei. Jamestown, fundada em 1607 na Virgínia, foi um começo terrivelmente duro: dos 144 colonos que partiram, apenas 38 estavam vivos ao fim de dois anos. O que salvou a colónia foi a descoberta do tabaco como cultura de exportação, que rapidamente se expandiu ao longo dos rios da região. Em 1620, o Mayflower trouxe os Peregrinos puritanos ao Massachusetts, dissidentes religiosos que queriam fundar uma comunidade segundo os seus princípios calvinistas. Estes elegiam o seu próprio governador e viam o sucesso material como sinal da graça divina, o que os tornava particularmente resistentes às adversidades.

As 13 colónias que foram surgindo ao longo da costa leste eram muito diferentes entre si — as do sul viviam das plantações de tabaco e arroz com recurso a escravos africanos, as do centro da agricultura de cereais, e as do norte das pescas, peles e madeira. Mas partilhavam a tradição inglesa da common law, o governo representativo e a lealdade à coroa. Distinguiam-se das colónias espanholas e francesas por se governarem a si próprias, por atraírem uma migração massiva e por prosperarem a um ritmo extraordinário. Em 1700 tinham 250 mil habitantes europeus; em 1776, 2,5 milhões. Os trabalhadores eram mais bem pagos do que em Inglaterra, a literacia era altíssima — 90% dos homens na Nova Inglaterra sabiam ler em meados do século XVIII —, e universidades como Harvard ou Yale foram fundadas décadas após a chegada dos primeiros colonos. Este crescimento acelerado começou a gerar tensões com a França, cujos colonos tentavam travar o avanço inglês para o interior do continente. Esse confronto daria origem à Guerra dos Sete Anos, ponto de partida para o próximo episódio.

Personagens

  • Thomas Jefferson
  • John Adams
  • Benjamin Franklin
  • Cristóvão Colombo
  • Hernán Cortés
  • Francisco Pizarro
  • Francisco Vázquez de Coronado
  • Filipe II
  • Francisco I
  • Jacques Cartier
  • La Salle
  • Luís XIV
  • John Rolfe
  • Pocahontas
  • Francis Drake
  • Isabel I
  • John Winthrop

Lugares/Países

  • Estados Unidos da América
  • Reino Unido
  • Inglaterra
  • Escócia
  • Irlanda
  • Espanha
  • Castela
  • França
  • Portugal
  • Holanda
  • Alemanha
  • México
  • Peru
  • Brasil
  • Canadá

Épocas

  • século XVI
  • século XVII
  • século XVIII
  • século XI-XIII

Temas

  • colonialismo
  • independência americana
  • religião
  • puritanismo
  • economia
  • escravatura
  • migração
  • democracia
  • liberdade religiosa
  • comércio
  • exploração
  • guerra

Eventos

  • Declaração da Independência Americana
  • fundação de Jamestown
  • chegada do Mayflower
  • destruição da Armada Invencível
  • conquista do México
  • conquista do Peru
  • fundação de Quebec
  • fundação de Nova Amsterdão
  • fundação de Rhode Island
  • Guerra dos Sete Anos

Guerras e conflitos

  • Cruzadas
  • Guerra dos Sete Anos