Nº 17012 de outubro de 202259:48resposta a ouvintes
A crise dos mísseis de Cuba e o perigo nuclear
Episódio dividido em duas partes: primeiro explica as regras de sucessão monárquica em Portugal, esclarecendo porque houve mais reis que rainhas (preferência do sexo masculino sobre a idade); depois analisa em profundidade a crise dos mísseis de Cuba de outubro de 1962, quando o mundo esteve mais próximo de uma guerra nuclear, explorando as motivações políticas de Khrushchev e Kennedy e o desfecho tenso mas pacífico da crise.
Ideias principais
- Na monarquia portuguesa a sucessão privilegiava primeiro o sexo masculino e só depois a idade, ao contrário de França onde mulheres não podiam herdar a coroa, permitindo rainhas por direito próprio como D. Maria I e D. Maria II.
- A crise dos mísseis de Cuba aconteceu num momento paradoxal de aparente distensão da Guerra Fria, com Khrushchev a denunciar Stalin e a promover coexistência pacífica, tornando a instalação de mísseis nucleares a 140 km dos EUA inesperada.
- Ambos os líderes enfrentavam pressões políticas internas que os obrigavam a não ceder: Khrushchev era acusado de ser fraco pelos stalinistas e por Mao, enquanto Kennedy tinha criticado Eisenhower por alegadamente permitir superioridade soviética em mísseis.
- O momento mais perigoso foi o 'Black Saturday' de 27 de outubro de 1962, quando um avião U-2 foi abatido e, desconhecido na altura, comandantes de um submarino soviético discutiram usar uma arma nuclear contra navios americanos, sendo dissuadidos por um dos oficiais.
- A crise terminou com aparente vitória de Kennedy mas teve consequências paradoxais: reforçou a détente com acordos de controlo nuclear, mas provocou a ruptura sino-soviética e contribuiu para a queda de Khrushchev em 1964, acusado de ter iniciado uma crise da qual teve de recuar.
Resumo do episódio
Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares começam por responder a uma pergunta enviada por um ouvinte, inspirada numa dúvida da sua filha de doze anos: por que razão houve em Portugal muito mais reis do que rainhas? Rui Ramos explica que a sucessão na coroa não se regia apenas pela ordem de nascimento, mas também pelo sexo. Citando a Constituição de 1822 como exemplo tardio de uma tradição mais antiga, sublinha que o sexo masculino precedia o feminino na linha de sucessão, pelo que as filhas do rei só herdavam a coroa quando não havia filhos varões legítimos. Para ilustrar, recorda o caso da infanta D. Isabel Luísa Josefa, jurada herdeira de D. Pedro II em 1674, mas afastada da sucessão assim que nasceu, em 1689, um irmão varão do segundo casamento do pai - o futuro D. João V. Ao contrário de França, onde a sucessão feminina estava excluída por completo, Portugal admitia rainhas por direito próprio, como D. Maria I e D. Maria II, mas também conheceu rainhas regentes de grande relevo, como D. Catarina de Áustria e D. Luísa de Gusmão.
A segunda e principal parte do episódio é dedicada à crise dos mísseis de Cuba de outubro de 1962. Os apresentadores enquadram o episódio no contexto da Guerra Fria, salientando que ocorreu numa fase de aparente distensão entre as duas superpotências, depois dos anos mais tensos do estalinismo. Rui Ramos percorre as crises anteriores - o bloqueio de Berlim, a Guerra da Coreia - e explica como, a partir de 1950, as armas nucleares passaram a ser consideradas instrumentos políticos exclusivos dos chefes de Estado, e não ferramentas à disposição dos comandantes militares no terreno. Descreve também o clima de medo generalizado perante a destruição mútua assegurada, sublinhando a contradição que este medo gerava: para não encorajar o adversário, era necessário mostrar determinação e, portanto, correr riscos.
A crise emerge de uma confluência de pressões políticas internas sofridas por ambos os líderes. Khrushchev, que havia denunciado Stalin mas precisava de provar que a União Soviética não estava a perder terreno para o Ocidente, enfrentava críticas de sectores internos e da China de Mao Tsé-Tung, que o acusavam de fraqueza. Instalar mísseis em Cuba permitia-lhe compensar a inferioridade soviética em mísseis intercontinentais e criar um trunfo para negociar o abandono de Berlim Ocidental pelos aliados ocidentais. Kennedy, por seu lado, havia ganho as eleições de 1960 acusando os republicanos de negligenciarem a defesa nacional, e não podia tolerar mísseis soviéticos a cento e quarenta quilómetros da costa americana sem uma resposta firme, sobretudo com eleições legislativas à porta.
O episódio concentra-se depois no chamado Sábado Negro, 27 de outubro de 1962, o dia mais perigoso dos treze dias de crise. Nessa data, um avião espião americano foi abatido sobre Cuba, e Kennedy optou por não retaliar, interpretando o incidente como um acto não autorizado. Ao mesmo tempo, os dois lados negociavam discretamente: Khrushchev comprometeu-se a retirar os mísseis de Cuba em troca da promessa americana de não invadir a ilha e da retirada, mantida em segredo até 1969, dos mísseis americanos na Turquia. Rui Ramos revela ainda um episódio só tornado público em 2002: a bordo de um submarino soviético bloqueado pela Marinha americana, dois comandantes discutiram se deveriam usar a arma nuclear que tinham a bordo, sem possibilidade de contactar Moscovo. A decisão de não disparar foi, potencialmente, a que impediu uma escalada irreversível.
O episódio termina com uma avaliação das consequências da crise. Apesar de Kennedy ter saído vitorioso em termos de imagem pública, a iniciativa de Khrushchev acabou por prejudicar a União Soviética: reforçou a intransigência americana face a Cuba, forneceu argumentos à China para acusar Moscovo de cumplicidade com o Ocidente, e contribuiu para o afastamento sino-soviético que se tornou explícito em 1963. O próprio Khrushchev seria deposto em 1964, acusado precisamente de ter provocado uma crise da qual depois teve de
Personagens
- D. Pedro II
- D. Afonso VI
- Infanta D. Isabel Luísa Josefa
- D. João V
- D. Maria I
- D. Maria II
- D. Beatriz
- D. Fernando
- D. Catarina de Áustria
- D. João III
- D. Sebastião
- D. Luísa de Gusmão
- D. João IV
- Carlos V
- Nikita Khrushchev
- John F. Kennedy
- Robert Kennedy
- Joseph Stalin
- Fidel Castro
- Mao Tse Tung
- Richard Nixon
- Harry Truman
- Dwight Eisenhower
Lugares/Países
- Portugal
- Estados Unidos
- União Soviética
- Cuba
- França
- Inglaterra
- Castela
- China
- Alemanha
- Coreia do Norte
- Coreia do Sul
- Hungria
- Turquia
- Índia
- Japão
Épocas
- século XVII
- século XVIII
- século XIX
- Guerra Fria
- anos 1950
- anos 1960
Temas
- monarquia
- sucessão dinástica
- guerra nuclear
- diplomacia
- Guerra Fria
- comunismo
- corrida armamentista
- corrida espacial
- golpe de Estado
- revolução
Eventos
- Crise dos mísseis de Cuba
- Bloqueio de Berlim
- Guerra da Coreia
- Construção do Muro de Berlim
- Invasão da Hungria
- Invasão da Baía dos Porcos
- Sputnik
- Checkpoint Charlie
- Black Saturday
Guerras e conflitos
- Guerra Fria
- Guerra da Coreia
- Segunda Guerra Mundial
Livros citados
- Constituição de 1822