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Nº 30116 de abril de 202550:55efeméride

A descoberta do corpo de Humberto Delgado

O episódio marca os 60 anos da descoberta do corpo de Humberto Delgado, assassinado pela PIDE em fevereiro de 1965 junto à fronteira espanhola. Rui Ramos analisa as razões que levaram o Estado Novo a executar o seu mais perigoso opositor, a singularidade deste crime político na ditadura portuguesa, e as dúvidas que persistem sobre o grau de envolvimento de Salazar e os detalhes da operação, mesmo após as confissões dos agentes da PIDE em 1974.

Ideias principais

  1. Humberto Delgado representava uma ameaça única ao regime porque, ao contrário da oposição tradicional, tinha contactos dentro da ditadura e apostava em golpes espetaculares imprevisíveis em vez de rotinas de contestação.
  2. O assassinato de Delgado foi uma operação sem paralelo na PIDE em relação a dirigentes da oposição portuguesa, contrastando com a prática habitual de prisão em vez de execução.
  3. As divisões profundas na oposição portuguesa, incluindo a cisão sino-soviética no PCP e os conflitos entre grupos exilados, tornaram inicialmente plausível a versão oficial de que Delgado teria sido morto pelos próprios companheiros.
  4. Apenas após o 25 de Abril, com as confissões dos agentes da PIDE presos, se confirmou definitivamente que tinha sido uma operação policial, embora persistam dúvidas sobre se o objetivo era rapto ou assassinato e sobre o papel de Salazar.
  5. As contradições e lacunas nos testemunhos dos agentes da PIDE, que sistematicamente culpam aqueles que fugiram, demonstram que mesmo em casos históricos bem documentados permanecem incertezas irresolvíveis que a realidade, ao contrário da ficção, raramente esclarece completamente.

Resumo do episódio

Este episódio de *E o Resto é História* é dedicado ao assassinato do general Humberto Delgado e da sua secretária e companheira Arajarir Campos, mortos por agentes da PIDE a 13 de fevereiro de 1965, perto de Badajoz, em Espanha. Os seus corpos só seriam descobertos 70 dias depois, a 24 de abril desse ano, por dois jovens espanhóis que caçavam na região. O episódio parte de três perguntas centrais: por que razão o Estado Novo decidiu eliminar Delgado, se este assassinato foi um caso único na ditadura, e qual o grau de envolvimento de Salazar na decisão.

Rui Ramos começa por contextualizar a ameaça que Delgado representava para o regime. Em 1958, este general relativamente jovem, de 52 anos, e antigo colaborador de Salazar protagonizou uma campanha presidencial sem precedentes, mobilizando multidões e obtendo oficialmente cerca de um quarto dos votos. O seu perigo não residia apenas na popularidade: Delgado apostava numa estratégia de agitação que pudesse convencer outros militares a derrubar Salazar, aproveitando as divisões internas das Forças Armadas, nomeadamente o conflito entre o Presidente da República Craveiro Lopes e o ministro da Defesa Santos Costa. Depois das eleições, o regime tratou de o afastar, recorrendo a agentes duplos que o persuadiram a pedir asilo na Embaixada do Brasil em janeiro de 1959, iniciando assim o exílio.

No entanto, o exílio não silenciou Delgado. Ao contrário dos oposicionistas tradicionais - republicanos de gabinete ou militantes do PCP, com as suas rotinas previsíveis - Delgado e figuras como Henrique Galvão apostavam em golpes espetaculares e imprevisíveis, com contactos dentro do próprio aparelho do regime. O sequestro do paquete *Santa Maria* em 1961 e a sublevação de Beja em 1962 ilustram essa estratégia. Em 1962, Delgado entrou clandestinamente em Portugal e depois publicou fotografias na imprensa internacional, humilhando o regime num momento em que a guerra colonial em Angola já atraía atenção mundial. Mesmo operado na Checoslováquia por volta de 1963-64, Delgado mantinha-se ativo e perturbador, tornando a sua prisão uma opção arriscada - prendê-lo em Portugal seria transformá-lo num foco de campanhas internacionais pela sua libertação. Fazê-lo desaparecer era, do ponto de vista do regime, a saída mais segura.

Quando os cadáveres apareceram em Espanha, o governo salazarista negou qualquer responsabilidade e fez circular a versão de que Delgado tinha sido morto pelos seus próprios companheiros de oposição. Esta narrativa era parcialmente plausível: havia precedentes de mortes no seio da oposição, como o caso do capitão Almeida Santos, e as divisões entre os grupos exilados eram profundas e públicas, alimentadas nomeadamente pela rutura entre o PCP e os chamados "chineses" e pelo fim da Frente Patriótica de Libertação Nacional. Quando o desaparecimento de Delgado foi anunciado em fevereiro de 1965, vários grupos da oposição denunciaram a situação como uma encenação do próprio general para ganhar poder. Estes rancores deram credibilidade à versão oficial durante anos.

As investigações que se seguiram - conduzidas por um juiz espanhol, por autoridades italianas e pelos próprios simpatizantes da oposição, incluindo Mário Soares enquanto advogado da família - foram fixando os movimentos de Delgado e identificando uma cilada organizada com a colaboração de um agente infiltrado conhecido como Mário de Carvalho. Só após o 25 de Abril de 1974, com os arquivos acessíveis e os agentes da PIDE presos e interrogados, se obtiveram confissões que confirmaram tratar-se de uma operação da polícia política. A equipa era chefiada pelo inspetor Rosa Casaco e incluía Agostinho Tienza, Ernesto Lopes Ramos e Casimiro Monteiro. Os primeiros três confessaram; Casimiro Monteiro, apontado pelos outros como o executor material, fugiu para a África do Sul e nunca foi ouvido.

Personagens

  • Humberto Delgado
  • Salazar
  • Arajarير Campos
  • Rosa Casaco
  • Craveiro Lopes
  • Santos Costa
  • Henrique Galvão
  • Álvaro Cunhal
  • Mário Soares
  • Henrique Cerqueira
  • Mário de Carvalho
  • Ernesto Castro e Sousa
  • José Carlos Pires
  • José Fonseca e Costa
  • Almeida Santos
  • Manuel Domingos
  • Ben Bella
  • Trotsky
  • Mehdi Ben Barca
  • Mao
  • Álvaro Pereira de Carvalho
  • Silva Pais
  • Agostinho Tienza
  • Ernesto Lopes Ramos
  • Casimiro Monteiro
  • José Maria Crespo Marques
  • Ernesto Bisonho
  • Barbieri Cardoso
  • Eduardo Mondlane

Lugares/Países

  • Portugal
  • Espanha
  • Brasil
  • Argélia
  • Marrocos
  • Itália
  • Checoslováquia
  • França
  • México
  • Angola
  • África do Sul
  • China
  • União Soviética

Épocas

  • Estado Novo
  • anos 50
  • anos 60
  • pós-25 de Abril

Temas

  • ditadura
  • oposição política
  • eleições
  • repressão política
  • assassinato político
  • polícia política
  • exílio
  • conspiração
  • investigação criminal
  • descolonização

Eventos

  • Eleições presidenciais de 1958
  • Assalto ao Santa Maria
  • Revolta de Beja
  • 25 de Abril de 1974
  • Guerra de Angola

Guerras e conflitos

  • Guerra de Angola

Livros citados

  • Portugal Amordaçado