Nº 17302 de novembro de 202254:26efeméride
A descoberta do túmulo de Tutankhamon há 100 anos
Episódio duplo comemorando dois centenários de 1922: a descoberta do túmulo de Tutankhamon por Howard Carter e Lord Carnarvon, o único túmulo real egípcio encontrado intacto com 5 mil objetos; e o fim do Império Otomano após 600 anos, com a deposição do sultão Mehmed VI. Analisa o fascínio ocidental pelo Egito antigo desde a Antiguidade, a decadência otomana no século XIX, e as consequências geopolíticas da queda do império para o Médio Oriente contemporâneo.
Ideias principais
- O túmulo de Tutankhamon permaneceu intacto 3 mil anos porque foi acidentalmente soterrado por construções posteriores, tornando-se o único túmulo real egípcio não saqueado alguma vez descoberto.
- O fascínio europeu pelo Egito antigo é milenar: já no tempo de Platão (século IV a.C.), o Egito tinha mil anos de antiguidade, e a Grande Pirâmide foi a estrutura mais alta da humanidade até ao século XIV.
- O Império Otomano no século XVI era o maior poder da Europa e Mediterrâneo, controlando territórios da Hungria à Arábia, com um vasto sistema de escravatura que incluía maioritariamente europeus capturados.
- A sobrevivência do Império Otomano até ao século XX deveu-se à rivalidade entre potências europeias, especialmente ao interesse britânico em mantê-lo como estado-tampão contra a expansão russa no Mediterrâneo.
- A queda do Império Otomano em 1922 criou Estados artificiais no Médio Oriente que herdaram a base multinacional e multi-religiosa do império, oscilando até hoje entre modernização secular e revivalismo islâmico, gerando instabilidade persistente.
Resumo do episódio
Este episódio do podcast *E o Resto é História* aborda dois centenários que coincidiram em novembro de 1922: a descoberta do túmulo de Tutankhamon, a 4 de novembro, e a queda do Império Otomano, a 1 de novembro. Rui Ramos e João Miguel Tavares exploram ambos os acontecimentos, traçando os contextos históricos que os tornaram possíveis e explicando a sua relevância duradoura.
A primeira parte é dedicada à descoberta arqueológica no Vale dos Reis, no Egito. Os apresentadores sublinham que o faraó Tutankhamon - cujo título, notam, seria mais correctamente "rei", dado que "faraó" só se generalizou depois do seu reinado - seria uma figura historicamente menor não fosse a descoberta do seu túmulo pelo arqueólogo britânico Howard Carter. A importância do achado reside no facto de ser o único túmulo de um rei do Antigo Egito encontrado intacto, com cerca de cinco mil objectos preservados durante três milénios, incluindo a célebre máscara mortuária em ouro. Os apresentadores explicam que a descoberta não foi puramente acidental: Carter tinha fortes razões para crer que o túmulo estaria naquela área, com base na ausência de Tutankhamon nas listagens de reis já identificados e em fragmentos com o seu nome encontrados nas escavações. O túmulo terá escapado aos saqueadores da Antiguidade por ter ficado soterrado sob cabanas de trabalhadores que construíam túmulos vizinhos. Para contextualizar o fascínio pelo Antigo Egito, Rui Ramos recua à expedição de Napoleão ao Egito em 1798, à descoberta da Pedra de Roseta e à decifração dos hieróglifos por Champollion em 1822, que abriram caminho a uma verdadeira mania egípcia na Europa do século XIX. A descoberta tornou-se ainda mais mediática devido à morte precoce de Lord Carnarvon, o financiador das escavações, que a imprensa sensacionalista de 1923 associou à maldição inscrita num dos selos do túmulo. A isso somou-se o interesse suscitado pelo facto de Tutankhamon ser filho de Akhenaten, o rei que tentou impor o monoteísmo no Egito Antigo, e a multiplicação de novas revelações proporcionadas pelos métodos científicos modernos, incluindo a genética.
A segunda metade do episódio é dedicada ao fim do Império Otomano. Rui Ramos traça a história deste estado fundado por turcos descendentes de Osman, que em 1453 conquistou Constantinopla e no século XVI se estendeu pelo Médio Oriente e pelo Norte de África, assumindo os títulos de Césares de Roma e de Califas do mundo muçulmano sunita. No seu apogeu, sob Suleimão, o Magnífico, era o maior poder do Mediterrâneo, chegando às portas de Viena. A decadência começa no século XVIII, com as sucessivas derrotas militares perante a Rússia e a Áustria e a emergência de novos estados nacionais nos Balcãs - Grécia, Bulgária, Sérvia, Roménia - apoiados pelas potências europeias. O Império sobreviveu ao século XIX sobretudo porque as potências europeias não conseguiam acordar a sua partilha, interessando à Inglaterra mantê-lo como estado-tampão contra a expansão russa no Mediterrâneo.
A entrada na Primeira Guerra Mundial ao lado da Alemanha e da Áustria revelou-se fatal. A tentativa britânica de desembarque em Galípoli fracassou, mas os aliados conseguiram fomentar revoltas árabes e arménias contra os otomanos, respondidas com massacres e deportações em massa. Derrotado em 1918, o Império viu-se ameaçado de redução a um território mínimo. Foi o nacionalismo turco, liderado pelo general Mustafa Kemal - futuro Atatürk -, que resistiu militarmente a essa partilha, incluindo a tentativa grega de ocupar parte da Anatólia. Em novembro de 1922, o sultão Mehmed VI foi deposto. Atatürk lançou então uma radical ocidentalização laica, abolindo o califato, impondo o alfabeto latino e proibindo símbolos religiosos islâmicos, ao mesmo tempo que promovia uma identidade turca homogénea sobre uma população diversa, o que gerou limpezas étnicas e a troca forçada de populações entre a Turquia e a Grécia. No restante
Personagens
- Tutankhamon
- Howard Carter
- Lord Carnarvon
- Ramsés II
- Akhenaten
- Platão
- Aristóteles
- Napoleão Bonaparte
- Jean-François Champollion
- Ptolomeu V
- Eça de Queiroz
- Fradique Mendes
- Osman I
- Solimão Magnífico
- Mehmed VI
- Abdulmejid II
- Mustafa Kemal Atatürk
- Winston Churchill
- Lawrence da Arábia
Lugares/Países
- Egito
- Inglaterra
- Alemanha
- França
- Grécia
- Turquia
- Império Otomano
- Rússia
- Áustria
- Hungria
- Sérvia
- Roménia
- Bulgária
- Ucrânia
- Síria
- Iraque
- Palestina
- Líbia
- Tunísia
- Argélia
- Arménia
- Arábia
- Pérsia
- Irão
- Afeganistão
- Índia
- Japão
- Estados Unidos
Épocas
- século XIV a.C.
- Antigo Egito
- Antiguidade Grega
- Antiguidade Romana
- século XVI
- século XVII
- século XVIII
- século XIX
- século XX
- década de 1920
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
Temas
- arqueologia
- egiptologia
- morte e sepultamento
- mumificação
- imperialismo
- colonialismo
- nacionalismo
- religião
- islão
- cristianismo
- escravatura
- secularização
- ocidentalização
- limpeza étnica
- multiculturalismo
Eventos
- descoberta do túmulo de Tutankhamon
- invasão francesa do Egito (1798)
- descoberta da Pedra de Rosetta
- decifração dos hieróglifos (1822)
- descoberta da múmia de Ramsés II (1881)
- revolução dos Jovens Turcos (1908)
- guerras dos Balcãs (1912-1913)
- campanha de Galípoli (1915)
- abolição do sultanato otomano (1922)
- abolição do califado (1924)
- trocas de população greco-turcas
Guerras e conflitos
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
- campanha de Galípoli
- guerras dos Balcãs