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Nº 29719 de março de 202554:47efeméride

A ditadura militar brasileira acabou há 40 anos

O episódio analisa a ditadura militar brasileira (1964-1985) e a sua transição para a democracia, marcando os 40 anos do seu fim. Rui Ramos explora as origens do golpe de 1964, a evolução do regime desde uma intervenção militar que prometia restaurar a democracia até uma ditadura repressiva nos 'anos de chumbo', e o longo processo de abertura democrática que culminou na Constituição de 1988, passando pela análise dos problemas económicos e políticos que o regime não conseguiu resolver.

Ideias principais

  1. A ditadura militar brasileira foi precedida por uma longa tradição de intervenção das Forças Armadas como árbitro político desde 1889, tornando o golpe de 1964 parte de um padrão histórico de resolução de impasses políticos.
  2. O regime evoluiu de uma presidência militar com relativa liberdade (1964-1968) para uma ditadura efectiva após o Ato Institucional nº 5 em dezembro de 1968, que instalou censura, suspendeu habeas corpus e fechou o Congresso.
  3. A repressão violenta nos 'anos de chumbo' (1968-1974) coincidiu paradoxalmente com o período de maior prosperidade económica, o 'milagre brasileiro', mas a ditadura falhou em resolver os problemas estruturais que a tinham originado.
  4. A transição para a democracia foi extraordinariamente lenta e gradual (1974-1988), negociada entre militares divididos e oposição, condicionada a uma amnistia geral que impediu responsabilização pelos crimes do regime.
  5. As fronteiras temporais da ditadura brasileira são muito mais fluidas que outras ditaduras como o Estado Novo português, tornando difícil definir quando exactamente começou e acabou, reflectindo a complexidade da política brasileira e a continuidade de elites políticas antes, durante e após o regime militar.

Resumo do episódio

Este episódio de *E o Resto é História* debruça-se sobre a ditadura militar brasileira, com particular enfoque na forma como terminou e na transição para a democracia, quarenta anos após a saída dos militares do poder em 1985. O ponto de partida é o filme *Ainda Estou Aqui*, de Walter Salles, premiado com o Óscar de melhor filme internacional, que reconstitui a história real de Eunice Paiva, cujo marido Rubens Paiva - engenheiro e ex-deputado - foi detido pela polícia em 1971 e nunca mais voltou. O caso serve de mote para uma análise mais ampla do regime e do seu legado.

Rui Ramos começa por contextualizar o golpe de 1964 numa longa tradição de intervencionismo militar na política brasileira, que remonta ao século XIX. As Forças Armadas funcionavam como árbitro dos impasses políticos, tendo derrubado a monarquia em 1889, dado o poder a Getúlio Vargas em 1930 e forçado a sua saída em 1945 e 1954. Em 1964, o golpe contra João Goulart foi amplamente apoiado - pela Igreja Católica, pelas associações empresariais e por figuras da oposição -, não como instauração de uma ditadura, mas como resgate da democracia face à polarização extrema entre esquerda e direita, agravada pela Guerra Fria e pela inflação galopante. Ninguém esperava que os militares ficassem.

Os apresentadores explicam como o regime foi endurecendo de forma gradual e não linear. Num primeiro momento, o Congresso continuou a funcionar e elegeu o general Castelo Branco presidente. Mas em 1965 e 1966, através de sucessivos atos institucionais, foram dissolvidos todos os partidos políticos e criado um sistema bipartidário artificial: a ARENA, de apoio ao governo, e o MDB, de oposição controlada. O ponto de rutura foi o Ato Institucional n.º 5, de dezembro de 1968, que instaurou a censura, suspendeu o habeas corpus e fechou o Congresso, transformando o regime numa ditadura plena. Este endurecimento foi em parte uma reação às guerrilhas urbanas de extrema-esquerda, inspiradas em Cuba, que pretendiam provocar uma repressão violenta capaz de gerar revolta popular. A estratégia falhou: as guerrilhas foram dizimadas, mas deixaram um rasto de cerca de 434 desaparecidos, vítimas de prisão arbitrária e tortura.

A legitimidade económica do regime foi outro eixo central da discussão. O chamado "milagre económico" dos anos 1968–1973, com crescimento acelerado e explosão do consumo, sustentou durante algum tempo o apoio popular à ditadura. Mas o choque petrolífero de 1973 e o endividamento externo colossal - contraído para financiar grandes obras como a Transamazónica - mergulharam o Brasil numa crise profunda, com inflação que atingiu 211% em 1983 e greves generalizadas em São Paulo, onde emergiu um jovem sindicalista chamado Lula da Silva.

A transição democrática foi longa e negociada, durando mais de uma década. A partir de 1974, com o general Geisel, iniciou-se uma "abertura" gradual, cujo arquiteto nas sombras foi o general Golbery do Couto e Silva, que condicionou a saída dos militares a uma amnistia geral - para perseguidos e perseguidores. Em 1979, com Figueiredo, foram abolidos os atos institucionais, restabelecida a liberdade de imprensa e sindical e permitido o regresso dos exilados. Em 1985, Tancredo Neves foi eleito pelo colégio eleitoral, mas adoeceu antes da posse e morreu em abril desse ano, cabendo a José Sarney - oriundo da própria ARENA - iniciar a presidência civil. A nova Constituição só chegou em 1988.

Personagens

  • Walter Salles
  • Fernanda Torres
  • Eunice Paiva
  • Rubens Paiva
  • Marcelo Rubens Paiva
  • José Sarney
  • Tancredo Neves
  • Fernando Collor de Melo
  • Getúlio Vargas
  • Humberto Castelo Branco
  • Arthur da Costa e Silva
  • Raquel Queiroz
  • João Goulart
  • Carlos Lacerda
  • Juscelino Kubitschek
  • Augusto Pinochet
  • Salvador Allende
  • Fidel Castro
  • Che Guevara
  • Golbery do Couto e Silva
  • Ernesto Geisel
  • João Batista Figueiredo
  • Lula da Silva
  • Jimmy Carter
  • Pelé
  • Juan Domingo Perón

Lugares/Países

  • Brasil
  • Portugal
  • Estados Unidos
  • Cuba
  • Chile
  • Argentina
  • Bolívia
  • México

Épocas

  • século XIX
  • década de 1960
  • década de 1970
  • década de 1980
  • anos 50
  • Guerra Fria
  • Estado Novo

Temas

  • ditadura militar
  • transição democrática
  • golpe de Estado
  • repressão política
  • tortura
  • desaparecimentos
  • censura
  • guerrilha urbana
  • movimentos estudantis
  • desenvolvimento económico
  • inflação
  • dívida externa
  • partidos políticos
  • direitos humanos
  • amnistia
  • urbanização

Eventos

  • Golpe militar de 1964
  • Ato Institucional nº 2
  • Ato Institucional nº 3
  • Ato Institucional nº 5
  • Milagre económico brasileiro
  • Choque do petróleo de 1973
  • Maio de 68
  • Revolução Cubana
  • Crise dos mísseis de Cuba
  • Concílio Vaticano II
  • Campanha das Diretas Já
  • Constituição de 1988
  • Mundial de futebol de 1970

Guerras e conflitos

  • Guerra Fria
  • Guerra do Vietnã

Livros citados

  • Ainda Estou Aqui