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Nº 26110 de julho de 20241h09resposta a ouvintes

A eleição de Mandela e a história da África do Sul

O episódio traça a história da África do Sul desde a colonização holandesa no século XVII até à eleição de Nelson Mandela em 1994. Rui Ramos explica a formação única do país através do encontro de colonos europeus (boers) e populações bantus migrantes, a instauração tardia do apartheid pelo Partido Nacional em 1948, e o papel extraordinário de Mandela na transição pacífica para a democracia multirracial nos anos 90.

Ideias principais

  1. Os portugueses não colonizaram o Cabo porque não tinha interesse comercial nem produtos exóticos para exportar, servindo apenas para agricultura de subsistência que não justificava o investimento.
  2. A colonização da África do Sul foi única porque tanto os boers (desde o século XVII) como as populações bantus (desde o século V d.C.) eram migrantes recentes, tendo ambos exterminado os povos aborígenes bosquímanos.
  3. O apartheid foi um regime tardio (1948-1991) que surgiu precisamente quando o mundo condenava o racismo após a Segunda Guerra Mundial, numa tentativa de separar populações que a economia estava a juntar.
  4. Nelson Mandela transformou-se de anticomunista cristão em socialista pragmático durante 27 anos de prisão, mas escolheu a reconciliação em vez da vingança, nomeando ministros do Partido Nacional e promovendo a 'nação arco-íris'.
  5. A África do Sul mantém-se a única nação africana com população significativa de origem europeia devido à política de reconciliação de Mandela, embora enfrente hoje corrupção, desemprego de 40% e crescimento populacional explosivo.

Resumo do episódio

Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares percorrem a história da África do Sul desde as origens da colonização europeia até à eleição de Nelson Mandela em 1994, respondendo a um pedido de um ouvinte. O ponto de partida é uma questão aparentemente simples: por que razão os portugueses, que dobraram o Cabo das Tormentas no século XV, nunca se instalaram naquela região? A resposta, segundo Rui Ramos, reside na lógica da expansão portuguesa, orientada para pontos de apoio às armadas, interpostos comerciais e zonas de produção de bens exportáveis. A África Austral, apesar do clima temperado, era pouco povoada e não oferecia nenhuma dessas vantagens, ao contrário de Moçambique ou das costas orientais africanas.

Quem acabou por se instalar no Cabo foi a Companhia Holandesa das Índias Orientais, que em 1652 estabeleceu ali uma base de apoio. Nas décadas seguintes, a colónia foi crescendo com a chegada de funcionários reformados da Companhia e de imigrantes protestantes, incluindo cerca de duzentos huguenotes franceses expulsos de França. Deste conjunto de populações nasceu uma comunidade de agricultores e criadores de gado, os chamados boers, que foram desenvolvendo uma identidade própria - cultural, religiosa e racial - muito distinta da europeia. A sua visão do mundo era profundamente marcada pelo calvinismo e por uma leitura do Antigo Testamento que os apresentava como um povo eleito em busca de uma terra prometida.

No início do século XIX, a colónia passou para mãos britânicas na sequência das guerras napoleónicas. A imposição do inglês, a extinção das instituições representativas boers e, sobretudo, a abolição da escravatura em 1833 levaram cerca de quinze mil boers a abandonar o Cabo e a penetrar no interior do continente numa migração em caravanas - o chamado Grande Trek - muito semelhante à expansão dos pioneiros americanos para Oeste. Neste avanço, os boers encontraram as populações bantus - xosas, zulos e outras - que também tinham migrado do norte ao longo de séculos. Seguiram-se guerras violentas e tratados que dividiram os territórios, até que os boers fundaram duas repúblicas independentes: o Transvaal e o Estado Livre do Orange. No fim do século XIX, a descoberta de ouro nessas repúblicas atraiu uma vaga de imigrantes e desencadeou a Guerra dos Boers, durante a qual os britânicos inventaram os campos de concentração para dobrar uma população que resistia através de guerrilha. Em 1910, o Reino Unido unificou os territórios na União da África do Sul, que em 1926 se tornou um domínio soberano.

Foi neste contexto que, em 1948, o Partido Nacional - o partido dos boers - ganhou eleições com menos votos do que o adversário, mas beneficiando da sobre-representação rural, e instaurou o apartheid. O sistema impôs a classificação racial obrigatória de todos os cidadãos em quatro categorias, proibiu casamentos e relações sexuais inter-raciais, segregou escolas, transportes e espaços públicos, e a partir de 1956 retirou o direito de voto a quem não fosse branco. Milhões de negros foram deportados para os chamados bantustões, territórios de segunda categoria apresentados como pátrias tribais. Os apresentadores sublinham que o apartheid nasceu precisamente quando o mundo, depois do Holocausto, condenava o racismo, e enquanto os Estados Unidos caminhavam para os direitos cívicos - o que tornava o regime sul-africano um caso cada vez mais isolado e anacrónico.

É neste cenário que entra Nelson Mandela, descendente de uma família real xosa, advogado formado antes das restrições raciais, líder da Liga da Juventude do ANC e grande orador dos protestos pacíficos dos anos cinquenta. Com a proibição do ANC em 1960, Mandela abraçou a luta armada através de uma organização de sabotagem, foi preso em 1962 e condenado à prisão perpétua. Permaneceu encarcerado vinte e sete anos, tornando-se símbolo internacional da resistência ao apartheid. O fim da Guerra Fria retirou ao regime o seu último argumento defensável - o anticomunismo - e Frederik de Klerk, o líder do Partido Nacional, negociou com Mandela ainda preso a transição para a democracia. Libertado em 1990, Mandela recus

Personagens

  • Nelson Mandela
  • Bartolomeu Dias
  • Frederico de Klerk
  • Martin Luther King
  • Gandhi
  • George Washington
  • Clint Eastwood

Lugares/Países

  • África do Sul
  • Holanda
  • Inglaterra
  • França
  • Portugal
  • Moçambique
  • Brasil
  • Alemanha
  • Índia
  • Estados Unidos da América
  • Namíbia
  • Rodésia
  • Angola
  • Austrália
  • Canadá
  • União Soviética
  • Europa

Épocas

  • século XV
  • século XVI
  • século XVII
  • século XVIII
  • século XIX
  • século XX
  • guerras napoleónicas
  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra Fria
  • pós-Guerra Fria

Temas

  • colonialismo
  • escravatura
  • segregação racial
  • apartheid
  • descolonização
  • direitos cívicos
  • migração
  • guerra
  • religião
  • cristianismo
  • protestantismo
  • economia
  • comércio
  • democracia
  • identidade racial
  • anticomunismo
  • socialismo
  • reconciliação

Eventos

  • eleição de Nelson Mandela
  • descobrimento do Cabo da Boa Esperança
  • fundação da Colónia do Cabo
  • Guerra dos Boers
  • instauração do Apartheid
  • Tratado de Paz de 1815
  • abolição da escravatura na Colónia do Cabo
  • Grande Trek
  • queda do Muro de Berlim
  • fim da União Soviética
  • libertação de Mandela
  • eleições de 1994 na África do Sul
  • Copa do Mundo de Rugby de 1995

Guerras e conflitos

  • Guerra dos Boers
  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra Fria

Livros citados

  • Os Lusíadas