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Nº 14123 de março de 202239:27resposta a ouvintes

A Europa Central é um barril de pólvora. Porquê?

Análise da Europa Central, Oriental e Balcânica entre os séculos XVII e XX, explicando como quatro grandes impérios multinacionais (Russo, Alemão, Austro-Húngaro e Otomano) dominaram populações heterogéneas através da força. A dissolução destes impérios após a Primeira Guerra Mundial criou Estados-nação artificiais sobre territórios étnicamente misturados, gerando conflitos violentos, limpezas étnicas e instabilidade que perduram até hoje, da Ucrânia ao Médio Oriente.

Ideias principais

  1. A Europa Oriental era dominada por quatro impérios multinacionais que só se mantinham unidos pela força militar e expansão constante, ao contrário do Ocidente onde Estados-nação homogéneos se consolidaram através da educação e assimilação cultural.
  2. Estes impérios caracterizavam-se por hierarquias étnico-religiosas onde senhores e camponeses pertenciam frequentemente a nacionalidades diferentes, criando divisões sociais que se sobrepunham às divisões culturais e linguísticas.
  3. A dissolução dos impérios após 1918 não trouxe paz mas sim conflitos violentos que mataram 4 milhões de pessoas entre 1918-1923, pois os novos Estados-nação eram na verdade 'impérios multinacionais em miniatura' com populações profundamente misturadas.
  4. A solução encontrada após 1945 foram limpezas étnicas massivas: 10 milhões de alemães expulsos da Polónia, 2 milhões da Checoslováquia, mais de um milhão de gregos da Ásia Menor, num processo brutal de 'arrumação' de populações para criar Estados etnicamente homogéneos.
  5. A democracia e a autodeterminação dos povos, embora aspirações legítimas, revelaram-se incompatíveis com a estrutura multiétnica destes territórios, tornando os conflitos inevitáveis: como concluiu Metternich, 'a democracia na Europa era uma receita para a guerra', mas o autoritarismo imperial também o era.

Resumo do episódio

Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares partem de uma pergunta enviada por um ouvinte sobre as origens históricas da instabilidade crónica da Europa Central, aquilo que o ouvinte descreve como um "barril de pólvora quase perpétuo". O ponto de partida é a ideia de que para compreender os conflitos contemporâneos nessa região, incluindo a guerra na Ucrânia, é mais esclarecedor recuar à Primeira Guerra Mundial do que à Segunda, pois foi o modo como a Grande Guerra terminou que moldou decisivamente a paisagem política e étnica da Europa Central, de Leste e dos Balcãs.

Rui Ramos começa por estabelecer um contraste fundamental entre as duas metades da Europa até ao início do século XX. No Ocidente, o mapa era dominado por muitos Estados relativamente pequenos, que tenderam a tornar-se Estados-nação com populações linguística e religiosamente homogéneas, homogeneidade essa em boa medida fabricada pelo próprio Estado através da escola e do serviço militar. Na outra metade - a Europa Central, de Leste e Balcânica -, dominavam quatro grandes impérios multinacionais: o Russo, o Alemão, o Austro-Húngaro e o Otomano, cada um governado por uma dinastia que se identificava com um grupo étnico ou religioso específico, impondo uma hierarquia sobre uma enorme variedade de povos, línguas e confissões. Esta heterogeneidade era tão profunda que por vezes era difícil sequer delimitar onde terminava uma comunidade e começava outra, e a estratificação social coincidia frequentemente com a divisão nacional: os senhores das terras eram húngaros ou polacos, os camponeses eram eslavos.

Os apresentadores exploram depois a dinâmica interna destes impérios: a sua estabilidade dependia da força militar e da capacidade de expansão. Quando essa força se esgotava, os povos conquistados começavam a contestar o poder que sobre eles era exercido, porque não existia nenhuma "cola" cultural ou linguística que os mantivesse unidos. É o que acontece ao Império Otomano ao longo do século XIX, com revoltas sucessivas nas populações cristãs dos Balcãs e o surgimento de novos Estados como a Grécia, a Sérvia, a Roménia e a Bulgária. As potências vizinhas, sobretudo a Rússia e o Império Austro-Húngaro, aproveitaram essa debilidade para disputar influência sobre esses novos Estados, criando tensões que desembocaram diretamente no deflagrar da Primeira Guerra Mundial em 1914.

A guerra de 1914-1918 destruiu os quatro impérios, e as potências ocidentais vencedoras - fortemente influenciadas pela ideia wilsoniana de autodeterminação dos povos - redesenharam o mapa criando uma série de novos Estados republicanos entre o Báltico e o Mar Negro. O problema, sublinham os dois apresentadores, é que as populações destes territórios estavam profundamente misturadas: cada novo Estado proclamado como nação era, na prática, um pequeno império em miniatura, com minorias que não se reviam na nacionalidade dominante. Isso gerou tensões imediatas, limpezas étnicas e conflitos violentos. Um historiador citado no episódio calcula que entre 1918 e 1923 morreram cerca de quatro milhões de pessoas nesta região em consequência das guerras que se seguiram ao armistício. O problema só seria "resolvido" depois de 1945, mediante expulsões e trocas de população em larga escala - alemães da Polónia e da Checoslováquia, polacos da Ucrânia -, num processo brutal de homogeneização forçada.

O episódio termina com uma reflexão sobre o dilema insolúvel que esta região sempre representou: manter os impérios autoritários significava oprimir as aspirações nacionais e democráticas dos povos; dissolvê-los em Estados-nação significava criar conflitos entre comunidades misturadas que reclamavam os mesmos territórios. Como resume Rui Ramos, citando o chanceler Metternich, a democracia era vista como uma receita para a guerra nesta parte da Europa - mas o autoritarismo imperial também o era. Era, nas palavras dos apresentadores, uma situação sem saída, o que explica por que razão o barril de pólvora nunca se esvaziou de todo.

Personagens

  • Metternich

Lugares/Países

  • Rússia
  • Alemanha
  • Áustria-Hungria
  • Império Otomano
  • Portugal
  • Holanda
  • Itália
  • Polónia
  • Lituânia
  • Ucrânia
  • Roménia
  • Sérvia
  • Montenegro
  • Bulgária
  • Albânia
  • Grécia
  • Turquia
  • Inglaterra
  • França
  • Estados Unidos
  • Checoslováquia
  • Estónia
  • Líbano
  • Israel
  • Hungria

Épocas

  • século XVII
  • século XVIII
  • século XIX
  • século XX
  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • entre guerras
  • 1914-1918
  • 1918-1939
  • 1945

Temas

  • império
  • nacionalismo
  • guerra
  • diplomacia
  • religião
  • etnia
  • democracia
  • autoritarismo
  • limpeza étnica
  • genocídio
  • minorias
  • autodeterminação
  • homogeneização cultural
  • aristocracia
  • feudalismo

Eventos

  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • Revolução Russa de 1917
  • guerras dos Balcãs 1912-1913
  • genocídio arménio
  • dissolução do Império Otomano
  • unificação alemã
  • unificação italiana
  • independência grega
  • trocas de população Grécia-Turquia

Guerras e conflitos

  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • guerras dos Balcãs