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Nº 25926 de junho de 202454:25análise histórica

A família Le Pen e a direita radical francesa

O episódio traça a história da direita radical francesa desde a Revolução Francesa até aos dias de hoje, centrando-se na família Le Pen e na evolução da Frente Nacional (hoje Rassemblement National). Rui Ramos explica como esta corrente política resulta da confluência de várias tradições - monarquismo, catolicismo, nacionalismo, antiparlamentarismo - e de momentos de ruptura como a Terceira República, Vichy, a descolonização argelina e a Quinta República gaullista. O crescimento eleitoral da Frente Nacional desde os anos 1980 é analisado tanto pela história ideológica como pelo enraizamento geográfico e social numa França periférica e descontente.

Ideias principais

  1. A divisão política francesa entre direita e esquerda nasceu da Revolução Francesa e enraizou-se geograficamente numa França católica do Norte versus uma França laica do Sul, divisão que persiste culturalmente até hoje.
  2. A direita radical francesa é uma 'direita revolucionária' paradoxal, que resulta da confluência de extrema-direita tradicionalista com extrema-esquerda radical, ambas unidas no ódio à Terceira República burguesa e moderada.
  3. Jean-Marie Le Pen, fundador da Frente Nacional em 1972, vem simultaneamente da resistência anti-nazi, da guerra da Argélia e do populismo de Poujade, mudando frequentemente de posições (pró-Europa/anti-Europa, liberal/protecionista) conforme a oportunidade eleitoral.
  4. O crescimento da Frente Nacional desde 1984 resultou da desilusão de eleitores de esquerda com a integração dos socialistas e comunistas no sistema, do boicote e exclusão pelos partidos tradicionais, e da exploração de temas como imigração e soberanismo.
  5. Geograficamente, a Frente Nacional não segue a divisão Norte-Sul tradicional, mas representa uma França de leste, de população concentrada e maior mal-estar social, e uma França periférica que se sente marginalizada pelas elites cosmopolitas parisienses.

Resumo do episódio

Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares debruçam-se sobre as origens e a ascensão da direita radical francesa, tomando como pretexto as eleições legislativas que se realizavam em França naquele momento e a crescente possibilidade de Marine Le Pen vir a ser eleita presidente da República em 2027. O ponto de partida é a família Le Pen, cujo patriarca Jean-Marie fundou a Frente Nacional em 1972, partido que em 2018 a sua filha Marine rebaptizou de Reagrupamento Nacional.

Para explicar essas origens, Rui Ramos recua à Revolução Francesa de 1789, momento fundador de uma divisão política entre direita e esquerda que se enraizou profundamente na cultura e na geografia do país, separando as regiões de maior prática católica, sobretudo no norte, das regiões mais laicas do sul. A esta divisão veio juntar-se, ainda no final do século XVIII, uma terceira corrente política de cariz autoritário, o bonapartismo, que procurava colocar-se acima do conflito entre revolucionários e contrarrevolucionários. Os apresentadores sublinham que a instabilidade política francesa - três monarquias, dois impérios e cinco repúblicas em menos de dois séculos - gerou sucessivas subcorrentes que complicaram este esquema inicial.

O episódio analisa em detalhe o surgimento, no final do século XIX, de uma "direita revolucionária" que confluiu paradoxalmente com elementos da extrema-esquerda em torno do ódio comum à Terceira República. Esta corrente tinha como traço distintivo um antissemitismo com raízes simultaneamente no catolicismo de direita e no anticapitalismo de esquerda, e encontrou a sua expressão mais elaborada na Action Française, fundada em 1899 por Charles Maurras, intelectual racionalista que defendia, por dedução fria, a restauração da monarquia e do catolicismo como garantes da grandeza de França. A Segunda Guerra Mundial e a ocupação alemã dividiriam profundamente esta família política entre colaboracionistas e resistentes.

O segundo momento decisivo foi a Guerra da Argélia, nos anos 1950 e 1960. O general De Gaulle, chamado ao poder por militares que queriam manter a Argélia francesa, acabou por conceder a independência em 1961, traindo muitos dos seus apoiantes. Jean-Marie Le Pen surge precisamente desta encruzilhada: antigo resistente em 1944, combatente na Argélia, adepto do populismo antimodernização de Pierre Poujade e, posteriormente, líder da Frente Nacional. Os apresentadores descrevem-no como um político que dominava a arte da provocação calculada - as declarações sobre o Holocausto como "detalhe" da Segunda Guerra Mundial, por exemplo - para garantir cobertura mediática gratuita e uma identidade antissistema consolidada.

A grande viragem eleitoral deu-se em 1984, quando a Frente Nacional saltou de 0,2% nas legislativas de 1978 para 11% nas europeias. Rui Ramos explica este salto por vários factores convergentes: a chegada ao poder dos socialistas de Mitterrand em 1981, que transformou a esquerda antissistema num partido do sistema, deixando órfãos muitos eleitores comunistas; a coabitação entre golistas e socialistas em 1986, percepcionada como traição pela direita; o soberanismo anti-europeu que Le Pen adoptou oportunisticamente a partir dos anos 1990; e a transformação do perfil da imigração, de europeia para árabe e muçulmana. O boicote sistemático da direita e da esquerda à Frente Nacional, impedindo eleições de deputados apesar de percentagens de voto expressivas, reforçou paradoxalmente a sua imagem de alternativa genuína ao sistema.

Personagens

  • Jean-Marie Le Pen
  • Marine Le Pen
  • Marion Maréchal-Le Pen
  • Napoleão Bonaparte
  • Charles Maurras
  • Pierre Laval
  • Marcel Déat
  • Jacques Doriot
  • Charles de Gaulle
  • Philippe Pétain
  • Pierre Poujade
  • François Mitterrand
  • Jacques Soustelle
  • Jacques Chirac
  • Valéry Giscard d'Estaing
  • Georges Pompidou
  • Benito Mussolini
  • Adolf Hitler
  • Luís XIV

Lugares/Países

  • França
  • Alemanha
  • Itália
  • Argélia
  • Espanha
  • Polónia
  • Portugal
  • Estados Unidos
  • União Soviética

Épocas

  • século XVIII
  • século XIX
  • século XX
  • Revolução Francesa
  • Terceira República Francesa
  • Quarta República Francesa
  • Quinta República Francesa
  • Segunda Guerra Mundial
  • anos 1930
  • anos 1950
  • anos 1960
  • anos 1980
  • anos 1990

Temas

  • direita radical
  • nacionalismo
  • populismo
  • antissemitismo
  • catolicismo
  • monarquismo
  • republicanismo
  • fascismo
  • colaboracionismo
  • resistência
  • descolonização
  • imigração
  • integração europeia
  • soberanismo
  • geografia eleitoral

Eventos

  • Revolução Francesa
  • Caso Dreyfus
  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • Ocupação alemã de França
  • Regime de Vichy
  • Guerra da Argélia
  • Tratado de Maastricht
  • Eleição presidencial francesa de 1981
  • Eleição presidencial francesa de 2002

Guerras e conflitos

  • Guerra Franco-Prussiana
  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra da Argélia

Livros citados

  • Tableau Historique de la France (Hervé Le Bras)