Nº 3326 de fevereiro de 202042:11análise histórica
A gripe de há 100 anos que matou 100 milhões
O episódio aborda a gripe espanhola de 1918-1919, que matou entre 50 a 100 milhões de pessoas no mundo, mais do que a Primeira e Segunda Guerras Mundiais juntas. Rui Ramos explica as origens incertas da pandemia, o papel da censura de guerra na sua denominação, e o seu impacto particularmente severo em Portugal. A segunda parte presta homenagem ao historiador Vasco Pulido Valente, recomendando três das suas obras fundamentais sobre a história portuguesa contemporânea.
Ideias principais
- A gripe espanhola de 1918-1919 matou entre 50 a 100 milhões de pessoas globalmente, superando em mortalidade as duas guerras mundiais combinadas, mas permanece menos presente na memória coletiva devido à censura de guerra, à dificuldade de identificação do vírus na época, e ao facto das sociedades estarem habituadas a epidemias regulares.
- O nome 'gripe espanhola' é enganador: a Espanha, sendo neutral na Primeira Guerra Mundial, não tinha censura, permitindo que a imprensa noticiasse livremente a epidemia, enquanto nos países beligerantes as notícias eram suprimidas, criando a falsa impressão de que só Espanha era afetada.
- Em Portugal, a gripe foi especialmente mortífera, matando cerca de 60 mil pessoas (9,8 por mil habitantes, quase o dobro do norte da Europa), numa população já debilitada pela participação na guerra, falta de abastecimentos e instabilidade política do governo de Sidónio Pais.
- Vasco Pulido Valente foi não apenas um grande cronista mas também um historiador fundamental da história portuguesa contemporânea, cuja obra oferece uma interpretação crítica das revoluções liberal (1834-1836) e republicana (1910), identificando padrões de violência revolucionária, Estados centralizados agressivos e sociedades civis fracas.
- A obra historiográfica de Pulido Valente influenciou a consciência política portuguesa moderna, particularmente 'O Poder e o Povo' (1975), que ajudou a classe política democrática pós-1974 a compreender que a nova democracia devia construir-se não só contra o Estado Novo mas também evitando os erros facciosos da Primeira República.
Resumo do episódio
Este episódio do podcast *E o Resto é História* aborda a pandemia de gripe de 1918-1919, conhecida como gripe espanhola, contextualizando-a face à preocupação então contemporânea com o coronavírus. João Miguel Tavares e Rui Ramos sublinham desde logo a escala devastadora desse surto: entre 50 e 100 milhões de mortos em todo o mundo, o equivalente a cerca de 5% da população mundial da época, um número muito superior ao das vítimas da Primeira Guerra Mundial e, segundo Rui Ramos, até superior ao conjunto das duas guerras mundiais. Os apresentadores questionam por que razão uma catástrofe desta dimensão ocupa um lugar tão apagado na memória colectiva.
A designação "espanhola" é explicada como um acidente histórico: a censura militar imposta pelos países beligerantes impediu a notícia da doença, ao passo que a Espanha, país neutral, a divulgou livremente. Assim, o vírus pareceu surgir em Espanha, quando provavelmente já circulava com maior intensidade noutros países europeus. Quanto à origem, os apresentadores referem hipóteses que apontam para a Ásia, com base em teorias sobre imunidade prévia da população chinesa, e para as grandes concentrações militares na Europa, nomeadamente os enormes centros de distribuição de tropas no norte de França. O vírus só seria identificado cientificamente nos anos 30, o que ajuda a compreender a confusão diagnóstica da época, quando nem sequer havia consenso sobre se a doença era bacteriana ou viral.
Rui Ramos destaca algumas características que distinguem este surto de outros: atingiu sobretudo jovens adultos entre os 20 e os 40 anos, ao contrário do padrão habitual das gripes sazonais; ocorreu principalmente no verão e no outono de 1918, atenuando-se precisamente quando as gripes invernais costumam começar; e a morte resultava frequentemente não do vírus directamente, mas de infecções bacterianas secundárias, sobretudo pneumonias, o que explica a designação alternativa de "pneumónica". O apagamento da pandemia da memória colectiva é atribuído à sobreposição com a guerra, à censura, à falta de clareza sobre o que se passava, e ao facto de a morte por doença epidémica ainda ser, naquele mundo, uma realidade relativamente familiar.
Em Portugal, a gripe chegou na primavera e no verão de 1918, começando pelo Alentejo, possivelmente por contágio com Espanha, e propagando-se pelo país através dos movimentos sazonais de trabalhadores agrícolas e da rede de caminhos de ferro. A mortalidade foi proporcionalmente mais elevada do que no norte da Europa, com cerca de 60 mil mortos estimados e uma taxa de 9,8 por mil habitantes. O país estava fragilizado pela participação na guerra, pela escassez de alimentos importados e pela agitação política intensa - o governo de Sidónio Pais, os golpes e contra-golpes, a Monarquia do Norte. Entre as vítimas conhecidas contam-se o pintor Amadeu de Sousa Cardoso e o compositor António Fragoso, e há indícios de que Francisco e Jacinta, dois dos pastorinhos de Fátima, também terão morrido em consequência da doença.
O episódio aborda ainda brevemente a Lisboa dos espiões durante a Segunda Guerra Mundial, nomeadamente a rede de agentes britânicos montada à sombra da Shell para resistir a uma eventual ocupação alemã, que envolveu contactos com a oposição portuguesa e gerou tensões com a polícia de Salazar. Na segunda parte, os apresentadores prestam homenagem ao historiador e cronista Vasco Pulido Valente, recentemente falecido, recomendando três obras suas: *O Poder e o Povo* (1975), sobre a Revolução Republicana de 1910 e o fracasso do regime em superar a sua fase violenta; *Os Devoristas* / *A Revolução Liberal 1834-1836* (1993/2007), sobre a fragilidade do liberalismo português após a guerra civil, que Valente interpreta como geradora de um Estado centralizado a dominar uma sociedade fraca; e *A Glória* (2001), um retrato da elite lisboeta do século XIX a partir do caso do assassinato da mulher pelo deputado Vieira de Castro, obra de microhistória que revela a faceta mais inovadora de Valente enquanto historiador.
Personagens
- Afonso XIII
- Sidónio Pais
- Francisco (pastorinho de Fátima)
- Jacinta (pastorinha de Fátima)
- Amadeu de Sousa Cardoso
- António Fragoso
- Miguel Pina Martins
- Muzinho da Silveira
- Eça de Queiroz
- António de Quental
- José Cardoso Vieira de Castro
- António Rodrigues de Sampaio
- Ramalho Ortigão
- Camilo Castelo Branco
- Vasco Pulido Valente
- Cândido de Oliveira
- D. Miguel I
Lugares/Países
- Portugal
- Espanha
- China
- França
- Alemanha
- Inglaterra
- Estados Unidos
- Brasil
- Suíça
- Suécia
Épocas
- século XX
- século XIX
- século XIV
- Primeira República
- Estado Novo
- anos 1910
- anos 1918-1919
- anos 1930
- anos 1940
- anos 1970
- anos 1980
Temas
- epidemias
- saúde pública
- guerra
- censura
- espionagem
- história política
- revolução
- liberalismo
- republicanismo
- historiografia
- jornalismo
- literatura
- oratória parlamentar
- crime
Eventos
- Gripe Espanhola
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
- Revolução Republicana de 5 de Outubro de 1910
- Monarquia do Norte
- Aparições de Fátima
- Guerra Civil de 1832-1834
- Revolução Liberal de 1834-1836
- Assassinato de 7 de maio de 1870
Guerras e conflitos
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra Civil de 1832-1834
Livros recomendados
- O Poder e o Povo
- Os Devoristas
- A Revolução Liberal 1834-1836
- A Glória
Livros citados
- O Fundo da Gaveta
- Tentar Perceber