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Nº 36721 de julho de 202640:20série especial

A guerra da revolução (independência americana 3)

Terceiro episódio da série sobre a independência americana, centrado na Guerra da Revolução (1775-1783). Analisa o equilíbrio de forças entre britânicos e americanos, o papel decisivo da aliança francesa e espanhola, a participação de diferentes grupos (lealistas, índios, escravos), e as consequências financeiras e políticas do conflito para todas as potências envolvidas, incluindo a crise fiscal que levaria à Revolução Francesa.

Ideias principais

  1. A Guerra da Independência foi muito mais equilibrada do que parece retrospectivamente: apesar da superioridade naval e militar britânica, os americanos contavam com conhecimento do terreno, apoio francês decisivo e vantagens logísticas de combater em casa.
  2. A população americana estava profundamente dividida, com cerca de 20% de lealistas pró-britânicos, 30% de patriotas independentistas e metade indecisa, resultando em 60 a 100 mil emigrados para o Canadá e Inglaterra após a guerra.
  3. Os índios foram os grandes derrotados do conflito: cerca de 13 mil combateram ao lado dos britânicos para proteger as suas terras, mas a vitória americana abriu caminho à expansão para oeste e à ocupação dos territórios que os britânicos tinham declarado reserva indígena.
  4. A intervenção francesa foi militarmente decisiva (10 mil soldados, duas esquadras navais, bloqueio que forçou a rendição em Yorktown), mas financeiramente catastrófica, contribuindo diretamente para a crise fiscal que desembocaria na Revolução Francesa de 1789.
  5. George Washington venceu a guerra apesar de perder quase todas as batalhas, através de uma estratégia de desgaste que manteve o exército continental operacional e evitou confrontos decisivos até conseguir cercar Cornwallis em Yorktown com apoio naval francês em 1781.

Resumo do episódio

Este episódio de "E o Resto é História" é o terceiro de uma série dedicada à independência americana e centra-se na Guerra da Revolução, o conflito armado que se prolongou de 1775 a 1783 e que selou a separação das treze colónias relativamente à coroa britânica. Rui Ramos e João Miguel Tavares partem de uma pergunta aparentemente simples — quem eram, afinal, o David e o Golias desta guerra? — para mostrar que a resposta é muito menos óbvia do que parece à distância de dois séculos e meio.

Em termos de recursos, o Império Britânico partia em posição de clara vantagem formal: oito milhões de habitantes na Grã-Bretanha, mais quatro milhões na Irlanda, a maior marinha de guerra do mundo e o acesso a dezenas de milhares de soldados profissionais alemães. No verão de 1776, por exemplo, os britânicos atacaram Nova Iorque com 73 navios e mais de trinta mil homens. As colónias rebeldes contavam apenas com cerca de dois milhões e meio de habitantes, dos quais meio milhão eram escravos. No entanto, os americanos beneficiavam de conhecer o terreno, de uma tradição de caça que tornava muitos deles excelentes atiradores de longa distância, e de uma logística comparativamente menos pesada do que a dos seus adversários, que tinham de abastecer os seus exércitos através do Atlântico. Decisivo foi ainda o apoio da França — ela própria um Golias — que formalizou a aliança com os Estados Unidos em fevereiro de 1778 e contribuiu com dez mil soldados profissionais e duas esquadras navais. A Espanha e a Holanda também entraram na guerra contra a Inglaterra, transformando o conflito numa guerra verdadeiramente mundial, com frentes abertas em Gibraltar, no Canal da Mancha, nas Caraíbas, no Senegal e na Índia.

No plano interno, a sociedade colonial estava longe de ser unanimemente patriota. Os apresentadores estimam que cerca de vinte por cento da população se manteve leal à coroa britânica, os chamados lealistas ou tories, enquanto apenas trinta por cento eram independentistas declarados, ficando metade da população numa posição de espera. Os britânicos procuraram ainda mobilizar a seu favor os escravos — prometendo liberdade a quem lutasse pelo rei —, a maioria das nações indígenas a oeste dos Apalaches, e os colonos de origem francesa no Canadá. No final da guerra, entre sessenta a cem mil lealistas emigraram para o Canadá e para a Inglaterra, não podendo ou não querendo permanecer numa América independente. Os grandes perdedores do conflito foram, contudo, os povos indígenas: embora cerca de treze mil tenham combatido ao lado dos britânicos na esperança de preservar as suas terras, a vitória americana abriu o caminho à expansão para oeste, anulando as protecções que a coroa britânica lhes havia garantido em 1763.

No plano militar, Rui Ramos sublinha que a estratégia de George Washington consistiu essencialmente em manter o Exército Continental operacional, evitando confrontos decisivos com forças britânicas superiores e desgastando o adversário ao longo do tempo. O general americano perdeu a maioria dos combates individuais, mas nunca de forma suficientemente devastadora para inviabilizar a continuação da guerra. A Batalha de Saratoga, em outubro de 1777, foi o ponto de viragem: a rendição de sete mil soldados britânicos vindos do Canadá convenceu o governo francês de que os americanos tinham capacidade real de vencer, precipitando a aliança formal. A batalha final em Yorktown, em outubro de 1781, foi decidida não tanto em combate directo mas pelo bloqueio naval francês, que cortou os abastecimentos ao exército do general Cornwallis, obrigando-o à rendição.

O episódio termina com uma reflexão sobre as consequências da guerra para além da independência americana. A intervenção francesa, apesar de vitoriosa, agravou de forma irreparável as finanças do reino de Luís XVI, contribuindo directamente para a crise que desembocaria na Revolução Francesa de 1789. A Espanha também sofreu o peso fiscal da guerra, que alimentou revoltas nas suas colónias americanas. E os próprios Estados Unidos emergiram do conflito com dívidas enormes e uma inflação galopante, o que viria a forçar, entre 1787 e 1788, a redacção de uma nova Constituição e a criação de um governo federal. Em 1783, os treze estados eram ainda repúbl

Personagens

  • George Washington
  • Benjamin Franklin
  • Benedict Arnold
  • Gates
  • Marquês de Lafayette
  • Cornwallis
  • Neckar

Lugares/Países

  • Estados Unidos da América
  • Inglaterra
  • Grã-Bretanha
  • França
  • Espanha
  • Holanda
  • Alemanha
  • Canadá
  • Irlanda
  • Senegal
  • Serra Leoa
  • Índia
  • Peru
  • Colômbia
  • Jamaica
  • Granada
  • Barbados
  • Saint-Domingue

Épocas

  • século XVIII
  • 1775-1783

Temas

  • guerra
  • independência
  • revolução
  • colonialismo
  • diplomacia
  • escravatura
  • logística militar
  • alianças internacionais
  • religião
  • economia
  • finanças públicas
  • populações indígenas

Eventos

  • Declaração de Independência
  • Cerco de Boston
  • Batalha de Saratoga
  • Batalha de Yorktown
  • Tratado de Paris
  • Cerco de Gibraltar
  • Revolução Francesa

Guerras e conflitos

  • Guerra da Revolução Americana
  • Guerra da Independência Americana
  • Guerra dos Sete Anos