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Nº 12822 de dezembro de 202142:01resposta a ouvintes

A história do bacalhau e o fim da URSS

O episódio aborda dois temas distintos: a história do bacalhau na gastronomia portuguesa, desde a pesca viking até se tornar elemento de identidade nacional, e o fim da União Soviética em 1991, explorando como a queda do regime comunista desafiou a interpretação do mundo baseada na Guerra Fria e revelou outras causas de conflito (nacionalismo, etnia, religião) que a rivalidade ideológica tinha obscurecido.

Ideias principais

  1. O bacalhau foi divulgado na Europa pelos vikings desde o ano 800 e tornou-se central na alimentação marítima europeia devido à possibilidade de conservação por salga e seca, chegando a representar metade do peixe consumido na Europa no século XVI.
  2. Portugal integrou-se na rede mundial do bacalhau desde o século XV, pescando na Terra Nova desde 1500, mas nunca foi autossuficiente: em 1910 apenas 10% do bacalhau consumido era de pesca nacional, sendo a maioria importada de Inglaterra e Noruega.
  3. O bacalhau tornou-se elemento de identidade portuguesa por ser abundante, barato, substituto de carne em dias de abstinência católica e transversal a classes sociais, com Portugal a consumir 8,8 kg per capita após a Segunda Guerra Mundial, quase três vezes mais que Espanha.
  4. O fim da União Soviética em 1991 surpreendeu o mundo porque durante 40 anos todos interpretavam conflitos globais através da lente da Guerra Fria, julgando que a rivalidade ideológica entre democracia e comunismo era a causa primária de todas as tensões internacionais.
  5. A dissolução soviética não trouxe o fim da história previsto por Fukuyama, mas revelou que nacionalismos, conflitos étnicos, religiosos e concorrência entre potências continuavam a gerar guerras, como demonstrado na Jugoslávia, Ruanda, Médio Oriente e na permanente hostilidade russa ao Ocidente.

Resumo do episódio

Neste episódio de *E o Resto é História*, Rui Ramos e João Miguel Tavares abordam dois temas distintos, aproveitando a proximidade do Natal: a história do bacalhau na tradição gastronómica portuguesa e o significado do fim da União Soviética, cujo trigésimo aniversário se assinalava na altura da gravação.

A primeira parte responde a perguntas de ouvintes sobre como um peixe dos mares frios do Norte se tornou tão central na mesa portuguesa. Rui Ramos explica que o consumo de bacalhau na Europa remonta provavelmente à difusão feita pelos vikings por volta do ano 800, que já o utilizavam seco para as suas viagens marítimas. A chave do sucesso do bacalhau estava precisamente na sua capacidade de conservação: através da secagem e da salga, tornava-se um alimento durável, proteico e abundante, ideal para longas travessias em épocas sem refrigeração. Estima-se que em meados do século XVI metade do peixe consumido na Europa fosse já bacalhau. Portugal integrou-se cedo nesta rede comercial: há registos de navios estrangeiros a trazer peixe seco e salgado ao país desde 1439, e pescadores portugueses, sobretudo de Aveiro, já percorriam o Atlântico até à Terra Nova para pescar bacalhau em meados do século XVI. A Terra Nova era aliás descrita num documento de 1529 como "a terra dos bacalhau descoberta pelos Corte Reais". Nos séculos XVII e XVIII, as guerras associadas à União Ibérica reduziram a presença portuguesa naqueles mares, e Portugal passou a depender sobretudo das importações inglesas - chegando ao ponto em que, em 1910, apenas 10% do bacalhau consumido no país era de pesca nacional. Com o Estado Novo, a partir de 1934, houve um forte investimento na frota pesqueira nacional, e em 1958 Portugal era o maior produtor mundial de bacalhau salgado e seco. Mesmo assim, o consumo interno era tão elevado que era necessário importar mais 25 mil toneladas. Os apresentadores exploram também as razões culturais desta preferência: o bacalhau era barato, nutritivo, substituía a carne em dias de abstinência religiosa no calendário católico, e foi progressivamente ganhando estatuto de elemento identitário. Eça de Queirós, numa carta de 1884, dizia ser "francês em tudo, menos no gosto pelo fado e pelo bacalhau de cebolada".

A segunda parte do episódio debruça-se sobre o fim da União Soviética. João Miguel Tavares recorda as imagens do golpe de agosto de 1991 em Moscovo e o momento em que, a 25 de dezembro desse ano, Gorbachev extinguiu o seu próprio cargo, entregando o poder e os códigos nucleares a Boris Yeltsin. No dia seguinte, o soviete supremo dissolveu formalmente a União Soviética. Rui Ramos analisa as causas do colapso - a ineficiência económica, o atraso tecnológico face ao Ocidente, a queda do preço do petróleo e, sobretudo, a impossibilidade de manter pela força um império multinacional em que os russos eram minoria - e concentra-se depois nas expectativas não cumpridas que o fim da Guerra Fria gerou. Durante quarenta anos, o mundo fora interpretado quase exclusivamente através da lente do confronto ideológico entre os Estados Unidos e a União Soviética, como se todos os conflitos globais tivessem essa rivalidade como causa primeira. Com o colapso soviético, esperava-se que os conflitos cessassem e que a democracia liberal se impusesse como modelo universal - a ideia do "fim da história" de Francis Fukuyama. Mas o que a década de 1990 revelou foi que a humanidade dispõe de muitas outras fontes de conflito: o nacionalismo, que explodiu na Jugoslávia; as tensões étnicas, como o genocídio do Ruanda; o fundamentalismo religioso, que começou a afirmar-se no Médio Oriente; e a concorrência entre potências, independentemente de qualquer divergência ideológica, como demonstrou a hostilidade continuada da Rússia pós-comunista em relação ao Ocidente. O episódio termina com a reflexão de que a Guerra Fria tinha simplificado excessivamente a leitura do mundo, e que o seu fim não trouxe clareza, mas antes uma complexidade para a qual ninguém estava verdadeiramente preparado.

Personagens

  • Delfim Ferreira
  • Clara Sepúlvia
  • José Daniel Rodrigues da Costa
  • José Manuel Sobral
  • Patrícia Rodrigues
  • Eça de Queiroz
  • Oliveira Martins
  • Mikhail Gorbachev
  • Boris Yeltsin
  • Vladimir Nabokov
  • Mao Tsé-Tung
  • Saddam Hussein
  • Francis Fukuyama
  • Gaspar Corte Real
  • Miguel Corte Real

Lugares/Países

  • Portugal
  • Noruega
  • Islândia
  • Groenlândia
  • Canadá
  • Terra Nova
  • Inglaterra
  • Holanda
  • Espanha
  • França
  • Itália
  • Brasil
  • Índia
  • Marrocos
  • União Soviética
  • Rússia
  • Estados Unidos
  • China
  • Chile
  • Vietname
  • Israel
  • Egito
  • Síria
  • Iraque
  • Kuwait
  • Arábia Saudita
  • Irão
  • Jugoslávia
  • Ruanda
  • Europa

Épocas

  • Idade Média
  • século XIII
  • século XV
  • século XVI
  • século XVII
  • século XVIII
  • século XIX
  • século XX
  • Estado Novo
  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra Fria
  • anos 1980
  • anos 1990

Temas

  • pesca
  • gastronomia
  • economia
  • comércio atlântico
  • navegação
  • conservação de alimentos
  • catolicismo
  • identidade nacional
  • geopolítica
  • comunismo
  • colapso soviético
  • Guerra Fria
  • nacionalismo
  • conflitos étnicos
  • fundamentalismo islâmico
  • hegemonia
  • ideologia

Eventos

  • Cortes de Lisboa de 1439
  • descoberta da Terra Nova
  • queda do muro de Berlim
  • golpe de agosto de 1991
  • dissolução da União Soviética
  • golpe no Chile em 1973
  • guerra do Vietname
  • Primeira Guerra do Golfo
  • genocídio do Ruanda
  • Revolução Iraniana de 1978

Guerras e conflitos

  • Guerra Fria
  • Segunda Guerra Mundial
  • guerra do Vietname
  • guerra árabe-israelita de 1948
  • guerra árabe-israelita de 1956
  • guerra árabe-israelita de 1967
  • guerra árabe-israelita de 1973
  • Primeira Guerra do Golfo
  • guerras da Jugoslávia
  • Primeira Guerra Mundial

Livros recomendados

  • O Fiel Amigo, o Bacalhau e a Identidade Portuguesa

Livros citados

  • O Suplício do Bacalhau
  • O Fim da História