Nº 10407 de julho de 202138:26efeméride
A história do golpe de 28 de Maio de 1926
Análise detalhada do golpe militar de 28 de Maio de 1926 que derrubou a Primeira República portuguesa. Rui Ramos desmonta mitos sobre o golpe, explicando que não foi uma conspiração planeada para levar ao Estado Novo, mas um pronunciamento militar que resultou de múltiplas crises e rivalidades políticas. O episódio mostra como a ditadura militar foi inicialmente apoiada por todo o espectro político e só gradualmente evoluiu para o regime salazarista, num processo incerto que durou cinco anos.
Ideias principais
- O 28 de Maio não foi um golpe de Estado clássico mas um pronunciamento militar à moda ibérica, onde militares se declaravam em revolta esperando adesões sucessivas até o governo se demitir sem violência significativa.
- O golpe teve apoio transversal de toda a esquerda à direita porque todos se opunham ao governo do Partido Republicano Português, não porque houvesse um projecto autoritário consolidado - se fosse claro que levaria ao Estado Novo, a resistência teria sido enorme.
- A cisão do Partido Republicano em 1925 entre António Maria da Silva e a Esquerda Republicana destruiu a 'máquina' que sustentava o regime, sendo a principal causa estrutural da queda da Primeira República.
- A pressão conspirativa da Esquerda Republicana contra a ditadura militar, incluindo a sabotagem do empréstimo da Sociedade das Nações, paradoxalmente empurrou o regime para a direita e criou as condições para a ascensão de Salazar em 1928.
- Durante cinco anos após 1926 nada estava decidido - a política deslocou-se do Parlamento para os quartéis e cafés de oficiais, e só gradualmente, através de lutas internas e conspirações sucessivas, o regime evoluiu para o Estado Novo.
Resumo do episódio
O episódio 104 de *E o Resto é História* é dedicado ao golpe de 28 de Maio de 1926, que pôs fim à Primeira República portuguesa e abriu caminho à ditadura militar e, mais tarde, ao Estado Novo. Rui Ramos e João Miguel Tavares partem de duas perguntas essenciais: o que tornou este movimento diferente de todos os outros que o precederam, e como se explica que o seu rosto mais visível, o general Gomes da Costa, tenha sido deposto apenas seis semanas após a sua marcha triunfal sobre Lisboa.
A primeira distinção que Rui Ramos estabelece é de natureza técnica: o 28 de Maio não foi propriamente um golpe de Estado clássico, destinado a capturar de surpresa os centros de poder, mas sim um pronunciamento, forma de sublevação militar típica da tradição ibérica do século XIX. Gomes da Costa declarou-se em Braga contra o governo, ficou à espera que outros comandantes militares aderissem, e foi avançando progressivamente para sul - Braga, Porto, Coimbra - até que o executivo se demitiu por falta de apoio das Forças Armadas, antes mesmo de ele chegar a Lisboa. O sucesso do movimento residiu precisamente nesta adesão maciça e quase sem resistência, que tornou desnecessário qualquer confronto armado significativo.
Os apresentadores dedicam atenção considerável a desmontar dois mitos persistentes. O primeiro, alimentado pela oposição ao Estado Novo, é o de que o 28 de Maio derrubou uma democracia liberal funcional para instaurar deliberadamente uma ditadura permanente: na realidade, o regime republicano estava longe de ser uma democracia estável, e os próprios líderes do pronunciamento garantiram durante meses que nenhuma liberdade seria suprimida, tendo a censura sido imposta apenas mais tarde. O segundo mito, difundido pelos apoiantes do salazarismo, é o de que o golpe inaugurou imediatamente uma era de ordem e estabilidade financeira, quando na verdade os anos seguintes foram de caos político e desregramento das contas públicas, com três chefes de Estado em apenas três meses. Salazar chegou ao Ministério das Finanças já em junho de 1926, mas demitiu-se passados poucos dias, percebendo que aquele não era o momento nem o enquadramento adequados para o que pretendia fazer.
Para explicar por que razão o golpe foi possível naquele momento, Rui Ramos recua à estrutura política da Primeira República, dominada pelo Partido Republicano Português - também chamado Partido Democrático -, liderado por Afonso Costa. Este partido controlava o Estado através de uma vasta rede de clientelas, grupos armados e, nos anos 20, da própria Guarda Republicana, que funcionava como um verdadeiro exército privativo. Em 1926, o líder efectivo do partido era António Maria da Silva, que tentava uma política de reconciliação com os católicos e de equilíbrio orçamental. Mas uma facção interna, liderada por José Domingos dos Santos, recusou essa orientação e fundou a Esquerda Republicana, cisão que destruiu a principal coluna de sustentação do regime. Em Maio de 1926, praticamente todas as correntes políticas - da extrema-esquerda à extrema-direita, passando por monárquicos, católicos e socialistas - estavam contra o governo de António Maria da Silva.
A parte final do episódio explica como a Esquerda Republicana acabou por ser um factor paradoxalmente decisivo na consolidação do regime autoritário que veio a seguir. Ao conspirar incessantemente contra a ditadura militar e ao tentar, em Fevereiro de 1927, um levantamento armado no Porto e em Lisboa, acabou por encontrar pela frente uma nova geração de jovens oficiais de direita - os chamados «tenentes de Maio» - dispostos a combater nas ruas, o que nunca antes acontecera. Além disso, a Esquerda Republicana sabotou, junto da Sociedade das Nações, o empréstimo internacional que a ditadura militar tentava obter para sanear as finanças, criando inadvertidamente as condições que levaram ao regresso de Salazar ao governo em 1928, desta vez com poderes reais. Ramos conclui que nada estava decidido em 1926, e que a história que vai do pronunciamento de Gomes da Costa ao Estado Novo foi longa, contingente e profundamente marcada pela rivalidade entre facções, sem qualquer conspiração unificadora por detrás.
Personagens
- Gomes da Costa
- Salazar
- Afonso Costa
- António Maria da Silva
- Sidónio Pais
- Mendes Cabeçadas
- Carmona
- José Domingues dos Santos
- Bernardo Machado
- Primo de Rivera
- Humberto Delgado
- Henrique Galvão
- António Sérgio
Lugares/Países
- Portugal
- Espanha
- Rússia
- Itália
- França
Épocas
- Primeira República Portuguesa
- Estado Novo
- Primeira Guerra Mundial
- século XIX
- século XX
- anos 20
Temas
- golpes de Estado
- ditadura militar
- partidos políticos
- republicanismo
- relações Igreja-Estado
- finanças públicas
- maçonaria
- conspiração política
- direita e esquerda
- militarismo
Eventos
- 28 de Maio de 1926
- Implantação da República (1910)
- golpe de Sidónio Pais (1917)
- assassinato de Sidónio Pais (1918)
- golpe de 19 de Outubro
- levantamento de Fevereiro de 1927
- Constituição de 1933
- Lei da Separação da Igreja e do Estado
Guerras e conflitos
- Primeira Guerra Mundial