Nº 8524 de fevereiro de 202140:57análise histórica
A História pode dividir-se entre heróis e vilões?
O episódio debate se a história deve ser estudada através da dicotomia heróis/vilões, argumentando que essa abordagem impede a compreensão histórica. Rui Ramos defende que a história exige empatia e contextualização, não julgamentos morais baseados em critérios contemporâneos. Na segunda parte, analisa-se o golpe de Estado falhado de 23 de fevereiro de 1981 em Espanha e o seu papel na consolidação da democracia espanhola.
Ideias principais
- A divisão entre heróis e vilões é inadequada para o estudo histórico porque os critérios de avaliação moral mudam com o tempo, como demonstra o caso do Marquês de Pombal, visto como tirano em 1800 e celebrado como herói no século XX.
- A história deve procurar compreender, não julgar: a empatia histórica não é branqueamento nem desculpabilização, mas a tentativa de entender as razões e contextos que levaram a determinados atos, costumes e instituições do passado.
- A politização da história, particularmente a tendência para criminalizar o passado ocidental enquanto se relativizam outras culturas, resulta em contradições metodológicas e impede a compreensão genuína dos fenómenos históricos.
- O golpe de Estado de 23 de fevereiro de 1981 em Espanha falhou porque o rei Juan Carlos se recusou a apoiar os golpistas, consolidando assim a transição democrática e provando que esta não era frágil nem reversível.
- A extrema-esquerda espanhola, através do terrorismo da ETA e dos GRAPO, procurou deliberadamente provocar uma intervenção militar para impedir a transição pacífica para a democracia, preferindo a radicalização à democratização negociada.
Resumo do episódio
Este episódio de *E o Resto é História* aborda duas questões distintas mas relacionadas: em primeiro lugar, se a história pode ou deve organizar-se em torno de heróis e vilões; em segundo lugar, o golpe de Estado de 23 de fevereiro de 1981 em Espanha, conhecido como 23F, por ocasião do seu quadragésimo aniversário.
Na primeira parte, Rui Ramos argumenta que as categorias de herói e vilão são inadequadas para fazer história rigorosa, por duas razões fundamentais. A primeira é a instabilidade dessas categorias ao longo do tempo: o que uma geração considera um vilão pode tornar-se o herói de outra, em função das suas próprias convicções políticas. O exemplo escolhido é o Marquês de Pombal, que em 1800 era visto por muitos portugueses como um tirano corrupto e sanguinário, mas que no século XIX passou a ser celebrado pelos liberais como precursor das suas causas, acabando por ter uma das estátuas mais imponentes de Lisboa. A segunda razão, considerada mais profunda, é que dividir personagens históricas em bons e maus impede a compreensão, que é o verdadeiro objetivo da história. Compreender o passado exige empatia histórica - tentar perceber as razões e o contexto dos atos, costumes e instituições de outras épocas -, o que não equivale a justificar ou absolver, mas simplesmente a explicar. Os apresentadores ilustram os riscos do julgamento anacrónico com o caso de Afonso Henriques: avaliado pelos critérios democráticos de hoje, o fundador de Portugal seria reprovado por não ter realizado eleições livres nem consultado os habitantes do Condado Portugalense.
A conversa deriva então para a politização da história, fenómeno que Rui Ramos identifica como uma tentativa de usar o passado para marcar pontos em disputas políticas do presente. João Miguel Tavares relata o caso de uma historiadora americana especialista na conquista do México que condenou veementemente os conquistadores espanhóis sem qualquer cedência ao contexto histórico, mas que, quando confrontada com os sacrifícios humanos dos astecas, recorreu imediatamente ao relativismo cultural para evitar o mesmo julgamento. Esta inconsistência, observam os apresentadores, revela uma agenda política disfarçada de história. Rui Ramos conclui que esta estratégia - criminalizar o passado ocidental para deslegitimar as suas instituições presentes - nunca produziu resultados duradouros, como provam os casos da União Soviética e do Estado Novo, regimes que também instrumentalizaram a história e cujas versões do passado desmoronaram com eles.
Na segunda parte, o episódio centra-se no 23F. Os apresentadores reconstituem o contexto da transição democrática espanhola após a morte de Franco em 1975: a negociação conduzida por Adolfo Suárez entre franquistas e oposição de esquerda, a legalização do Partido Comunista em 1977, as primeiras eleições livres e a Constituição de 1978, que assentou num compromisso histórico em que a esquerda republicana reconheceu a monarquia e os franquistas aceitaram um Estado de comunidades autónomas. Rui Ramos sublinha que esta transição, embora frequentemente vista como inevitável, foi muito arriscada e mais sangrenta do que a portuguesa, precisamente porque a extrema-esquerda armada - a ETA e os GRAPO - intensificou os atentados contra militares com o objetivo deliberado de provocar um golpe, estratégia semelhante à seguida pelos tupamaros e montoneros na América Latina.
O golpe de 23 de fevereiro foi protagonizado pelo tenente-coronel Tejero, que invadiu o Congresso dos Deputados com guardas civis armados, tomando deputados e membros do governo como reféns. Noutros pontos do país, nomeadamente em Valência, houve movimentações de tanques. O golpe falhou sobretudo porque o rei Juan Carlos I recusou apoiá-lo, aparecendo na televisão na madrugada com uniforme de capitão-geral a condenar a sublevação e a reafirmar o seu compromisso com a democracia. A coragem de Adolfo Suárez e do general Gutiérrez Mellado, que permaneceram impassíveis nas suas cadeiras enquanto os golpistas disparavam, reforçou a legitimidade da transição. O episódio termina com a nota de que a vitória do PSOE nas eleições de 1982 consolidou definitivamente a democracia espanhola, ao demonstrar que a alternância política era possível dentro do novo sistema.
Personagens
- Marcelino da Mata
- Marquês de Pombal
- Camilo Castelo Branco
- Afonso Henriques
- Hernán Cortés
- Francisco Franco
- Juan Carlos I
- Adolfo Suárez
- António Tejero
- Gutiérrez Mellado
- Santiago Carrillo
- Luís Carrero Blanco
- Leopoldo Calvo Sotelo
- Alfonso Armada
- Milans del Bosch
- Constantino II da Grécia
Lugares/Países
- Portugal
- Espanha
- México
- União Soviética
- Reino Unido
- Estados Unidos
- Argentina
- Uruguai
- Grécia
Épocas
- século XII
- século XVI
- século XVIII
- século XIX
- século XX
- Estado Novo
- Guerra Colonial
- anos 70
- anos 80
- Guerra Civil Espanhola
Temas
- historiografia
- memória coletiva
- politização da história
- terrorismo
- transição democrática
- golpes de estado
- Guerra Colonial
- repressão política
- colonialismo
- sacrifícios humanos
- ditadura
- democracia
Eventos
- Guerra Colonial Portuguesa
- 23F
- Golpe de Estado de 23 de fevereiro de 1981
- Guerra Civil Espanhola
- Transição Espanhola
- Revolução de 25 de Abril
- Conquista do México
- Cerco do Alcázar de Toledo
Guerras e conflitos
- Guerra Colonial Portuguesa
- Guerra Civil Espanhola
Livros citados
- O Perfil do Marquês de Pombal