Nº 12103 de novembro de 202146:56efeméride
A importância da revolução húngara de 1956
Análise da Revolução Húngara de 1956, primeira grande insurreição de um país do Pacto de Varsóvia contra o domínio soviético. O episódio explora as razões profundas do descontentamento húngaro - desde a tutela de um inimigo histórico até à repressão stalinista -, a breve tentativa de libertação liderada por Imre Nagy, e o brutal esmagamento pelos tanques soviéticos. A revolução demonstrou definitivamente que as ditaduras comunistas da Europa de Leste só sobreviviam pela força militar soviética, prefigurando o colapso de 1989.
Ideias principais
- A Revolução Húngara de 1956 provou sem margem para dúvidas que as ditaduras comunistas da Europa de Leste não tinham apoio popular e só sobreviviam pela ameaça da intervenção militar soviética.
- A Hungria era especialmente hostil ao comunismo por ser um país católico conservador, com elevada taxa de alfabetização (93,6% em 1940), sob tutela de um inimigo histórico (a Rússia) e brutalmente reduzido territorialmente após a Primeira Guerra Mundial.
- Imre Nagy, antigo stalinista e agente do NKVD, tornou-se líder reformista e tentou transformar a Hungria numa democracia neutra como a Áustria, mas foi traído, preso e executado após a invasão soviética.
- A repressão brutal da revolta húngara (cerca de 3000 mortos, 26000 presos, 200000 refugiados) feriu de morte a credibilidade do comunismo ocidental, levando intelectuais e militantes a abandonarem os partidos comunistas.
- Paradoxalmente, a União Soviética teve de instalar um regime mais tolerante na Hungria sob János Kádár (o 'comunismo gulag'), reconhecendo que só a coerção extrema não bastava para manter o controlo de uma população tão hostil.
Resumo do episódio
A Revolução Húngara de 1956, que durou apenas dezassete dias - de 23 de outubro a 10 de novembro -, é o tema central deste episódio. Rui Ramos e João Miguel Tavares partem de uma pergunta simples mas reveladora: qual foi a verdadeira importância desta insurreição, frequentemente eclipsada na memória colectiva pela Primavera de Praga de 1968? A resposta que o historiador desenvolve ao longo do episódio é que a revolta húngara foi um momento decisivo para compreender a natureza do comunismo europeu e antecipou, com trinta e três anos de avanço, o colapso dos regimes satélites de Moscovo em 1989.
Para perceber a profundidade do descontentamento húngaro, os apresentadores recuam ao contexto histórico do país. A Hungria era, à partida, um terreno particularmente inóspito para o comunismo: um país católico e conservador, com uma taxa de alfabetização de quase noventa e quatro por cento em 1940, e que havia sido inimigo histórico da Rússia - combatendo-a na Primeira Guerra Mundial e aliando-se à Alemanha nazi na Segunda. Além disso, o Tratado de Trianon reduzira drasticamente o seu território e população, tornando-a uma nação profundamente ressentida. Nas eleições relativamente livres de novembro de 1945, o Partido Comunista obteve apenas dezassete por cento dos votos, sendo derrotado esmagadoramente por um partido conservador apoiado pela Igreja Católica. A resposta soviética foi a eliminação gradual dos partidos rivais através da chamada "táctica do salame", até o Partido Comunista controlar completamente o país, com os resultados eleitorais a saltarem para os noventa e cinco por cento. O cardeal Mindszenty foi preso, torturado e obrigado a confessar crimes absurdos em julgamentos encenados. A língua russa substituiu o alemão como língua estrangeira obrigatória no ensino - mais uma humilhação para uma população que se sentia submetida a um inimigo.
A morte de Stalin, em março de 1953, abriu fissuras dentro da elite comunista húngara. O líder estalinista Rákosi perdeu parte do poder, sendo substituído como chefe de governo por Imre Nagy, um velho comunista de perfil reformista que tentou um "novo curso" de abertura moderada. A luta interna entre as duas facções prolongou-se até 1956, criando brechas que permitiram uma crescente mobilização da população. Em outubro desse ano, uma manifestação estudantil em Budapeste - à qual rapidamente aderiram duzentas mil pessoas - derrubou a estátua de Stalin, levou soldados a juntarem-se aos revoltosos e desencadeou uma caça aos agentes da polícia política. O poder comunista entrou em colapso quase total na capital, com conselhos revolucionários a assumirem o controlo local.
Imre Nagy regressou ao governo, reconheceu a insurreição como um acontecimento democrático legítimo, libertou presos políticos, autorizou novos partidos e, a 1 de novembro, anunciou a saída da Hungria do Pacto de Varsóvia, aspirando a um estatuto de neutralidade semelhante ao da Áustria. A União Soviética hesitou, dividida entre o receio de dar um precedente perigoso e o de fortalecer internamente os estalinistas mais duros. A invasão anglo-francesa do Egipto, na mesma altura, desviou as atenções internacionais e facilitou a decisão de Khrushchev. A 4 de novembro, cento e cinquenta mil soldados soviéticos atacaram Budapeste. Os bairros operários resistiram durante vários dias. Morreram cerca de dois mil e quinhentos civis húngaros. Seguiram-se vinte e seis mil prisões e uma vaga de duzentos mil refugiados para o Ocidente. Imre Nagy, atraído para fora da embaixada jugoslava com falsas garantias, foi preso, julgado e executado.
As consequências da derrota foram, paradoxalmente, reveladoras. Ficou demonstrado que os regimes comunistas da Europa de Leste não tinham qualquer apoio popular e só subsistiam graças à ameaça militar soviética. Esta lição afectou profundamente os partidos comunistas ocidentais, que perderam a credibilidade e viram sair muitos intelectuais e militantes. O novo líder húngaro, János Kádár, adoptou um comunismo comparativamente mais tolerante e orientado para o consumo - o chamado
Personagens
- Stalin
- Nikita Khrushchev
- Imre Nagy
- Matias Rákosi
- Tito
- Cardeal Mindszenty
- János Kádár
- Władysław Gomułka
- Almirante Horthy
- Gorbachev
Lugares/Países
- Hungria
- União Soviética
- Rússia
- Áustria
- Alemanha
- Checoslováquia
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Épocas
- Guerra Fria
- Pós-Segunda Guerra Mundial
- Stalinismo
- século XX
Temas
- revolução
- comunismo
- repressão política
- insurgência popular
- tutela soviética
- ditadura
- Guerra Fria
- nacionalismo
- religião
- exílio político
Eventos
- Revolução Húngara de 1956
- Queda do Muro de Berlim
- Invasão soviética da Hungria
- Primavera de Praga
- Crise do Canal de Suez
- Jogos Olímpicos de Melbourne 1956
Guerras e conflitos
- Segunda Guerra Mundial
- Primeira Guerra Mundial
- Guerra Fria