Nº 1125 de setembro de 201943:31efeméride
A incrível viagem de Magalhães e os mortos do Estado Novo
O episódio comemora os 500 anos da partida da viagem de Fernão de Magalhães, desmistificando a ideia de que o objectivo era provar que a Terra era redonda - o verdadeiro propósito era chegar às ilhas das especiarias através do Pacífico. Na segunda parte, Rui Ramos analisa os números de mortos no Estado Novo, concluindo que, comparativamente a outras ditaduras europeias do século XX, o regime de Salazar teve significativamente menos vítimas mortais, reflexo de uma sociedade pouco mobilizada politicamente e de uma repressão selectiva.
Ideias principais
- A viagem de Magalhães não teve como objectivo provar que a Terra era redonda (facto já conhecido desde a Antiguidade), mas sim chegar às Molucas pelo Pacífico para reclamá-las para Espanha no âmbito do Tratado de Tordesilhas.
- A circum-navegação foi um acidente resultante da morte de Magalhães nas Filipinas, levando os sobreviventes a regressar pela rota portuguesa em vez de voltarem pelo Pacífico, completando assim involuntariamente a volta ao mundo.
- O génio de Magalhães foi conseguir atravessar o Pacífico à primeira tentativa, intuindo correctamente o sistema de ventos daquele oceano desconhecido a partir da sua experiência no Atlântico.
- Entre 1932 e 1945, o Estado Novo registou cerca de 65 mortes sob custódia policial (31 no continente, 34 no Tarrafal), número incomparavelmente inferior às 681 mil execuções na União Soviética só em 1937-38, reflectindo uma 'economia de violência' adaptada a uma sociedade rural pouco mobilizada.
- A baixa intensidade repressiva do salazarismo não deve ser vista como elogio ao regime, mas antes como crítica ao conformismo de uma sociedade portuguesa já parcialmente desmobilizada e que nunca criou oposição suficientemente forte para exigir resposta violenta massiva.
Resumo do episódio
Este episódio do podcast *E o Resto é História* divide-se em dois temas distintos: a viagem de Fernão de Magalhães, a propósito da efeméride dos 500 anos do seu início, e uma discussão sobre a natureza e a intensidade repressiva do Estado Novo português.
Na primeira parte, Rui Ramos e João Miguel Tavares debruçam-se sobre o verdadeiro objetivo da expedição de Magalhães, partindo do livro *O Drama de Magalhães e a Volta ao Mundo Sem Querer*, do historiador Luís Filipe Thomaz. Ao contrário do que ainda se ensina em alguns contextos escolares, a viagem não tinha como propósito provar que a Terra era redonda - essa era uma ideia já consolidada desde a Antiguidade. O que Magalhães pretendia era atravessar o Pacífico para demonstrar que as ilhas Molucas, riquíssimas em especiarias como a noz-moscada e o cravo, pertenciam à zona atribuída a Espanha pelo Tratado de Tordesilhas. Fidalgo português que servira a coroa portuguesa na Índia e em Malaca entre 1505 e 1513, Magalhães acabou por oferecer os seus conhecimentos ao rei de Espanha em 1517, após aparente desinteresse em Lisboa. Os apresentadores sublinham que esta foi essencialmente uma iniciativa pessoal, comparável à de Cristóvão Colombo em 1492, e não um projeto de Estado. A circunnavegação do globo foi, afinal, um resultado acidental: Magalhães morreu nas Filipinas num confronto com nativos, e os sobreviventes, incapazes de cruzar novamente o Pacífico sem a sua liderança, optaram por regressar pela rota do cabo, atravessando território português. O gênio de Magalhães residiu precisamente na sua intuição sobre o sistema de ventos do Pacífico, deduzido a partir da experiência acumulada no Atlântico - intuição que, sem ele, a tripulação remanescente não soube replicar. Quanto à querela sobre se o feito pertence a Portugal ou a Espanha, os dois apresentadores concluem, com algum humor, que a façanha foi de um português ao serviço da coroa espanhola, sendo o paralelo com Cristiano Ronaldo no Real Madrid inevitável.
Na segunda parte, o debate centra-se numa questão mais controversa: quantas pessoas morreram por perseguição política durante o Estado Novo, e como se compara esse número com outros regimes autoritários coevos? O ponto de partida foi um artigo de João Miguel Tavares em que classificou o salazarismo como uma "ditadura de baixa intensidade", expressão que gerou polémica. Rui Ramos esclarece que ninguém contesta que o regime foi uma ditadura - sem partidos legais, sem eleições livres, com censura e perseguição política - mas que os números disponíveis sugerem uma economia de violência assinalável quando comparada com outros regimes da época. Citando a historiadora Maria da Conceição Ribeiro, menciona cerca de 13 mil prisões entre 1932 e 1945, na maioria sem processo judicial, e 65 mortes no total - 31 no continente e 34 no Tarrafal - atribuíveis à custódia policial, por causas que vão dos maus-tratos à doença. Por contraste, nas grandes purgas soviéticas de 1937-38, terão sido executadas cerca de 681 mil pessoas. Outros dados comparativos revelam que a Primeira República portuguesa registou mais do dobro dos mortos por repressão de protestos do que o Estado Novo em todo o seu período, e que a Itália democrática do pós-guerra causou mais mortos em manifestações do que Salazar em quatro décadas.
Os apresentadores alertam, porém, que estes números baixos não constituem um elogio ao regime. Rui Ramos argumenta que refletem antes a profunda desmobilização e o conformismo da sociedade portuguesa, já parcialmente despolitizada pelo próprio regime republicano. Salazar não precisou de recorrer a uma violência massiva porque não ambicionava transformar revolucionariamente a sociedade: apoiou-se nas hierarquias tradicionais - a Igreja, o exército, os notáveis locais - e exerceu uma repressão seletiva, mais dura com militantes comunistas do que com opositores das elites. A baixa intensidade era, portanto, simultaneamente uma opção e um reflexo das condições de uma sociedade rural, marcada pelo analfabetismo e pela passividade, que raramente criou uma oposição suficientemente forte para exigir uma resposta mais violenta.
Personagens
- Fernão de Magalhães
- Luís Filipe Tomás
- D. Manuel I
- Cristóvão Colombo
- Pedro Álvares Cabral
- Infante D. Henrique
- Sebastião Elcano
- Cristiano Ronaldo
- Salazar
- Humberto Delgado
- Marcelo Caetano
- Stalin
- Franco
- Galileu
- Maria da Conceição Ribeiro
- Diego Palacios
Lugares/Países
- Portugal
- Espanha
- América
- Filipinas
- Molucas
- Índia
- Goa
- Malaca
- Cabo Verde
- Tarrafal
- Marrocos
- Pacífico
- Atlântico
- Europa
- Rússia
- Alemanha
- Itália
- França
- Grécia
- Flandres
- América do Sul
- América Latina
- Etiópia
- Ásia
Épocas
- século XVI
- século XV
- século XIX
- século XVII
- Estado Novo
- anos 30
- anos 40
- anos 60
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra Civil de Espanha
- Guerra Fria
- Primeira República
- antiguidade
Temas
- navegação
- exploração marítima
- colonialismo
- comércio de especiarias
- ditadura
- repressão política
- censura
- violência de Estado
- fascismo
- comunismo
- ciência náutica
- diplomacia
- partidos únicos
Eventos
- Tratado de Tordesilhas
- primeira viagem de circum-navegação
- descoberta do Pacífico
- assassinato de Humberto Delgado
- grandes purgas de Stalin
- Revolução de 25 de Abril
Guerras e conflitos
- Guerra Civil de Espanha
- Segunda Guerra Mundial
Livros citados
- O Drama de Magalhães e a Volta ao Mundo sem Querer (Luís Filipe Tomás)
- A Polícia Política no Estado Novo (Maria da Conceição Ribeiro)