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Nº 4703 de junho de 202041:02resposta a ouvintes

A Inglaterra planeou invadir os Açores?

Episódio dedicado a responder a perguntas dos ouvintes sobre três temas distintos: o papel da rádio como arma de propaganda durante a Segunda Guerra Mundial e Guerra Fria, incluindo as emissões clandestinas em Portugal; a frustrada tentativa portuguesa de colonização da Terra Nova nos séculos XV-XVI; e o valor económico das especiarias que justificou a expansão marítima. Rui Ramos contextualiza ainda os planos britânicos para invadir os Açores em 1943.

Ideias principais

  1. A rádio foi uma arma fundamental de guerra e propaganda desde os anos 30, com todos os beligerantes da Segunda Guerra Mundial a transmitirem em dezenas de línguas para desmoralizar o inimigo e manter a moral das suas populações, chegando alguns locutores como William Joyce a serem julgados e executados por traição após a guerra.
  2. Portugal manteve-se neutral durante a Segunda Guerra Mundial mas enfrentou planos de invasão de todos os lados: os britânicos planearam a Operação Life Belt para ocupar os Açores em 1943, enquanto o governo de Salazar preparava um plano de retirada para as ilhas semelhante à fuga da corte portuguesa para o Brasil em 1807.
  3. A tentativa portuguesa de colonização da Terra Nova nos séculos XV-XVI falhou porque a região, apesar de rica em pesca, não fazia parte do imaginário da cruzada e do Oriente que motivava a expansão portuguesa, sendo apenas frequentada por pescadores sazonais e acabando dominada por ingleses e irlandeses.
  4. As especiarias eram extraordinariamente valiosas na Europa medieval e moderna porque, apesar de virem de milhares de quilómetros de distância (como a pimenta do sudoeste da Índia), eram indispensáveis na culinária, conservação de alimentos e farmacopeia, chegando a ser usadas como moeda de pagamento e até exigidas pelo chefe bárbaro Alarico como resgate de Roma em 408.
  5. Durante o Estado Novo, a Rádio Portugal Livre transmitia de Bucareste ligada ao Partido Comunista e a Rádio Voz da Liberdade de Argel ligada à oposição não-comunista, enquanto Portugal acolhia em Glória do Ribatejo um grande centro emissor da Rádio Europa Livre financiada pelos americanos para transmitir para leste da Cortina de Ferro.

Resumo do episódio

Este episódio do podcast *E o Resto é História* aborda três perguntas enviadas por ouvintes, percorrendo temas tão diversos como a guerra das ondas hertzianas, a presença portuguesa na Terra Nova, o valor das especiarias e um plano britânico para ocupar os Açores durante a Segunda Guerra Mundial.

A primeira pergunta, motivada pela existência de um centro retransmissor da Rádio Europa Livre em Glória do Ribatejo, serve de mote para Rui Ramos traçar uma história do papel da rádio como instrumento de propaganda e de guerra. Os apresentadores recordam que a rádio surge como emissão regular nos anos 20 e rapidamente desperta o interesse dos Estados, tanto para fins de educação das massas - o modelo BBC de Lord Reith - como para fins de propaganda política pura. O exemplo pioneiro de Franklin Roosevelt, que recorreu a conversas informais no rádio para comunicar directamente com os americanos sem a mediação da imprensa, ilustra bem esta dimensão. Durante a Segunda Guerra Mundial, a rádio torna-se um campo de batalha em si mesmo: os britânicos ouvem Churchill, os alemães ouvem Hitler, e todos os beligerantes emitem em línguas estrangeiras para desmoralizar o inimigo ou captar simpatias nos países neutros. São evocados casos como o do locutor britânico-fascista William Joyce, enforcado por traição depois da guerra, ou a chamada Tokyo Rose, locutora japonesa que transmitia para as tropas americanas no Pacífico. A canção *Lili Marleen*, que passou de sucesso da rádio alemã a êxito universal, exemplifica como a guerra das ondas também gerou trocas culturais inesperadas. Na Guerra Fria, esta lógica continuou com a Rádio Europa Livre e a Rádio Liberty, financiadas pelos Estados Unidos para transmitir para além da Cortina de Ferro, e, no caso português, com a Rádio Portugal Livre emitida a partir de Bucareste e a Rádio Voz da Liberdade a partir de Argel.

A segunda pergunta incide sobre a presença portuguesa na Terra Nova. Rui Ramos esclarece que os portugueses, nomeadamente os irmãos Corte Real e João Fernandes Lavrador, navegaram por essas paragens no início do século XVI, mas não chegaram a estabelecer uma colonização efectiva. Topónimos como Portugal Cove devem-se provavelmente à passagem de pescadores portugueses e não a um verdadeiro povoamento, que foi feito por irlandeses e ingleses. A falta de interesse de Portugal pelo Atlântico Norte explicar-se-ia pelo facto de estas regiões não fazerem parte do grande imaginário que justificava a expansão - a cruzada, a busca do Oriente, a evangelização -, ao contrário do que acontecia com o Atlântico Sul e o Índico.

A terceira pergunta aborda o valor das especiarias no período das Descobertas. Ramos explica que produtos como a pimenta, a canela ou a noz-moscada eram caros porque eram raros na Europa, provenientes de regiões muito distantes, e tinham utilizações culinárias, medicinais e até financeiras - chegando a servir de moeda ou de pagamento de impostos. A anedota do chefe bárbaro Alarico a exigir ouro e pimenta como resgate para não saquear Roma ilustra bem o seu valor simbólico e económico.

Por fim, João Miguel Tavares levanta a questão da Operação Life Belt, um plano britânico para ocupar os Açores, que terá gerado uma acesa discussão entre Churchill e Anthony Eden em agosto de 1943. Rui Ramos contextualiza: os ingleses tinham planos para os Açores desde 1940, a par de outros beligerantes, sobretudo por causa da importância estratégica das ilhas para o controlo do Atlântico e para garantir o abastecimento britânico. Salazar, por seu lado, tentou dissuadir qualquer invasão mobilizando tropas para as ilhas - metade do exército português estava estacionado nos Açores, na Madeira e em Cabo Verde em 1942. Em agosto de 1943, porém, a situação estratégica já era diferente: a ameaça alemã dissipara-se, e estavam em curso negociações para a cedência voluntária de bases nos Açores aos aliados, pelo que a irritação de Churchill terá sido mais conjuntural do que o reflexo de uma necessidade militar real.

Personagens

  • Guglielmo Marconi
  • Lord Reith
  • Franklin Roosevelt
  • Winston Churchill
  • Adolf Hitler
  • Joseph Stalin
  • Charles de Gaulle
  • Fernando Peça
  • William Joyce
  • Hans Fritsche
  • Marlene Dietrich
  • Gaspar Corte-Real
  • Miguel Corte-Real
  • João Fernandes Lavrador
  • Luís Albuquerque
  • Alarico
  • Andrew Roberts
  • Anthony Eden
  • Salazar

Lugares/Países

  • Portugal
  • Estados Unidos
  • Inglaterra
  • Alemanha
  • União Soviética
  • França
  • Itália
  • Irlanda
  • Japão
  • Vietname
  • Roménia
  • Argélia
  • Canadá
  • Espanha
  • Noruega
  • Egipto
  • Índia

Épocas

  • século XIX
  • século XX
  • anos 20
  • anos 30
  • anos 40
  • anos 50
  • anos 60
  • anos 70
  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra Fria
  • século XV
  • século XVI
  • século XVII
  • Idade Média
  • Antiguidade
  • século V
  • século XI
  • século XII
  • século XIII
  • Estado Novo

Temas

  • propaganda
  • comunicação social
  • guerra
  • tecnologia
  • colonização
  • expansão marítima
  • pesca
  • comércio
  • especiarias
  • diplomacia
  • resistência
  • exílio
  • neutralidade

Eventos

  • Batalha do Atlântico
  • Operação Life Belt
  • Julgamentos de Nuremberg
  • invasões bárbaras do Império Romano
  • Cruzadas

Guerras e conflitos

  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra Fria
  • Guerra do Pacífico
  • Guerra do Vietname
  • Guerra Colonial

Livros citados

  • Churchill Caminhando com o Destino