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Nº 21019 de julho de 20231h08análise histórica

A invasão da Sicília e a queda de Mussolini

A invasão aliada da Sicília em julho de 1943 marcou um ponto de viragem decisivo na Segunda Guerra Mundial, levando à queda do regime fascista de Mussolini apenas 15 dias depois. O episódio analisa as divergências entre aliados sobre a estratégia militar, a fragilidade da parceria ítalo-alemã, e como a fraqueza industrial italiana condenou o país a tornar-se satélite da Alemanha. A queda pacífica de Mussolini em julho contrasta com a brutal guerra civil que se seguiu até 1945.

Ideias principais

  1. A Operação Husky (invasão da Sicília) em 10 de julho de 1943 envolveu 160 mil homens num único dia, um desembarque maior que o da Normandia, e forçou Hitler a cancelar a ofensiva de Kursk desviando 20% das forças alemãs da Rússia para o Mediterrâneo.
  2. A aliança ítalo-alemã foi sempre frágil: Mussolini inicialmente protegeu a Áustria contra Hitler em 1934, só se aproximou da Alemanha após a invasão da Etiópia, e a inferioridade industrial italiana (apenas 15% da capacidade do Reino Unido) tornou impossível uma 'guerra paralela' independente.
  3. A queda de Mussolini a 25 de julho de 1943 foi decidida pelo Grande Conselho do Fascismo (um órgão inexistente na Alemanha nazi) por 19 votos contra 8, incluindo o voto do próprio genro de Mussolini, demonstrando que o fascismo italiano mantinha estruturas que permitiram a sua remoção pacífica.
  4. O rei Vítor Emanuel III e o marechal Badoglio conduziram uma duplicidade extraordinária: garantiram publicamente fidelidade à Alemanha enquanto negociavam secretamente com os aliados em Lisboa, mas a exigência aliada de rendição incondicional e a ocupação alemã preventiva condenaram a Itália a uma sangrenta guerra civil.
  5. Entre setembro de 1943 e abril de 1945, a Itália viveu dividida entre a República Social Italiana fascista no Norte (um regime-fantoche alemão de cariz socialista radical) e o Reino de Itália no Sul aliado aos anglo-americanos, com dois exércitos italianos a combaterem-se mutuamente numa guerra civil traumática.

Resumo do episódio

O episódio debruça-se sobre a Operação Husky - o desembarque anglo-americano na Sicília em 10 de julho de 1943 - e sobre as suas consequências imediatas, nomeadamente a queda de Mussolini e o colapso do regime fascista italiano. Rui Ramos e João Miguel Tavares começam por contextualizar o debate interno entre os aliados ocidentais: os Estados Unidos preferiam concentrar todos os meios num desembarque direto no norte da Europa, atravessando o Canal da Mancha, ao passo que Churchill e os britânicos defendiam uma estratégia periférica pelo Mediterrâneo. A invasão da Sicília acabou por ser uma vitória da visão britânica, aprovada na Conferência de Casablanca em janeiro de 1943, em parte porque dominava vias marítimas estratégicas e em parte porque se acreditava que a Itália era o parceiro fraco do Eixo e poderia ser forçada a sair da guerra.

Para compreender essa fragilidade, os apresentadores recuam às origens da aliança entre Mussolini e Hitler. Em 1933, quando Hitler chegou ao poder na Alemanha, Mussolini levava já uma década no poder em Itália e chegou inclusivamente a proteger a Áustria contra as ambições alemãs. A aproximação definitiva entre os dois regimes só ocorreu a partir de meados da década de 1930, depois de a invasão italiana da Etiópia ter criado um fosso com as potências ocidentais. Mussolini entrou na guerra apenas em junho de 1940, convicto de que a vitória alemã era iminente e de que lhe convinha estar do lado dos vencedores. A resistência britânica subverteu esse cálculo e obrigou-o a empreender uma "guerra paralela" no Mediterrâneo e nos Balcãs - campanha que fracassou em todos as frentes, revelando a debilidade industrial e logística da Itália face às grandes potências. O exército italiano teve de ser repetidamente socorrido pela Wehrmacht, o que aprofundou a dependência italiana em relação a Berlim e alimentou uma desconfiança mútua crescente entre Mussolini e as elites do seu próprio regime.

A situação deteriorou-se ainda mais com a destruição do corpo expedicionário italiano de 250 mil homens na frente russa, durante o inverno de 1942-43, e com a derrota na Tunísia em maio de 1943, onde foram capturados 360 mil soldados do Eixo. As elites políticas e militares italianas chegaram à conclusão de que era preciso ou convencer Hitler a fazer a paz com Stalin e concentrar esforços no Mediterrâneo, ou, em alternativa, retirar a Itália da guerra. Mussolini tentou transmitir este ultimato a Hitler num encontro em Feltre, a 19 de julho, mas não conseguiu fazê-lo e regressou a Roma sem ter dito o essencial. Nesse contexto, o líder fascista Dino Grandi promoveu uma moção no Grande Conselho do Fascismo - órgão constitucional sem equivalente na Alemanha nazi - a recomendar que o rei Vítor Emanuel III reassumisse o comando das Forças Armadas. Na madrugada de 25 de julho, a moção foi aprovada por 19 votos contra 8. Nessa tarde, o rei demitiu Mussolini numa audiência e mandou-o prender sem resistência; horas depois, a rádio anunciava a sua queda e a polícia detinha os principais dirigentes fascistas. Em dois dias, uma ditadura de 20 anos desmoronou sem derramamento de sangue.

O novo governo de Badoglio manteve publicamente a aliança com a Alemanha enquanto negociava em segredo com os aliados - negociações que decorreram em parte em Lisboa, em agosto de 1943. A 8 de setembro, o armistício foi anunciado pelo general Eisenhower, apanhando o governo italiano de surpresa. Os alemães, que já haviam entrado em massa em Itália logo após a queda de Mussolini com o pretexto de a defender, desarmaram de imediato as unidades italianas e ocuparam o norte e o centro do país. O rei e Badoglio fugiram para o sul, sob proteção aliada. Entretanto, Hitler mandou libertar Mussolini, preso nos Apeninos, numa operação aerotransportada a 12 de setembro, e obrigou-o a encabeçar a República Social Italiana, um regime fascista colaboracionista instalado no norte ocupado. Os aliados só chegaram a Roma em junho de 1944 e ao norte de Itália em abril de 1945

Personagens

  • Benito Mussolini
  • Adolf Hitler
  • Winston Churchill
  • Franklin D. Roosevelt
  • Dwight D. Eisenhower
  • Bernard Montgomery
  • George Patton
  • Erwin Rommel
  • Albert Kesselring
  • Pietro Badoglio
  • Vítor Emanuel III
  • Dino Grandi
  • Galeazzo Ciano
  • Josef Stalin
  • Francisco Franco
  • Dino Alfieri
  • Margaret Thatcher

Lugares/Países

  • Itália
  • Alemanha
  • Reino Unido
  • Estados Unidos
  • França
  • União Soviética
  • Áustria
  • Etiópia
  • Grécia
  • Egito
  • Tunísia
  • Marrocos
  • Argélia
  • Japão
  • Espanha
  • Portugal
  • Suíça

Épocas

  • Segunda Guerra Mundial
  • anos 1920
  • anos 1930
  • anos 1940
  • período entre-guerras

Temas

  • guerra
  • diplomacia
  • fascismo
  • ditadura
  • operações militares
  • alianças
  • ocupação militar
  • guerra civil
  • resistência
  • política externa
  • industrialização

Eventos

  • Operação Husky
  • Batalha de Kursk
  • Operação Cidadela
  • Batalha da Tunísia
  • Batalha de Estalinegrado
  • desembarque da Normandia
  • Conferência de Casablanca
  • queda de Mussolini
  • Operação Alarico

Guerras e conflitos

  • Segunda Guerra Mundial
  • invasão da Etiópia
  • campanha do Norte de África
  • guerra na Rússia
  • invasão da Sicília
  • guerra civil italiana

Livros citados

  • Dois Ditadores Face a Face