Nº 28311 de dezembro de 202440:16resposta a ouvintes
A invasão de Chipre e o fim da ditadura na Grécia
O episódio explora a história da divisão de Chipre entre cipriotas gregos e turcos, desde a Idade Média até à invasão turca de 1974, que resultou na partilha da ilha. Esta invasão foi desencadeada por um golpe pró-grego apoiado pela junta militar que governava a Grécia, mas o fracasso militar levou à queda imediata da ditadura dos coronéis e à transição democrática grega, paralela à portuguesa nesse mesmo ano.
Ideias principais
- Chipre tem uma história milenar como ilha de cultura grega ortodoxa, mas foi sucessivamente dominada por potências externas (francos, venezianos, otomanos e britânicos), o que criou uma tradição de poder exterior separado da população local.
- A colonização otomana introduziu uma minoria muçulmana de língua turca que, através de sistemas educativos separados no século XX, se nacionalizou distintamente da maioria grega, inviabilizando uma identidade cipriota comum.
- A invasão turca de Chipre em julho de 1974, em resposta a um golpe pró-união com a Grécia, resultou numa limpeza étnica recíproca que deslocou um quarto dos gregos para o sul e metade dos turcos para o norte, criando uma divisão que persiste há 50 anos.
- O fiasco militar em Chipre provocou a queda imediata da ditadura dos coronéis na Grécia (23-24 de julho de 1974), iniciando uma transição democrática liderada por Constantino Caramális que culminou com a alternância pacífica de poder em 1981.
- Chipre entrou na União Europeia em 2004 com um terço do território ocupado pela Turquia, criando um precedente único de um Estado-membro com território ocupado por uma potência externa, situação comparável ao caso actual da Ucrânia.
Resumo do episódio
Este episódio de «E o Resto é História» parte de uma pergunta enviada por ouvintes que visitaram Chipre e ficaram intrigados com a divisão da ilha e com a sua história pouco conhecida do grande público. A ocasião é também marcada pelo cinquentenário do golpe de Estado cipriota de julho de 1974 e da subsequente invasão turca, acontecimentos que conduziram ao fim da ditadura militar na Grécia - a outra grande transição democrática de 1974, a par da portuguesa.
Rui Ramos começa por traçar a longa história de Chipre, ilha do Mediterrâneo Oriental situada a escassos setenta e cinco quilómetros da costa turca. Na Idade Média fazia parte do Império Bizantino e era de cultura grega e cristã ortodoxa. Com as Cruzadas chegou uma aristocracia de origem francesa e religião católica, conquistada por Ricardo Coração de Leão, que instalou uma dinastia exógena sem alterar a base populacional. Depois de Veneza, foi o Império Otomano a tomar o controlo no século XVI, introduzindo gradualmente colonos de língua turca e religião muçulmana, que nunca chegaram a representar mais de um quinto da população. Sob os otomanos, o arcebispo ortodoxo tornou-se o interlocutor político da comunidade grega, um modelo que moldaria a organização política da ilha séculos mais tarde. Em 1878, o Império Otomano cedeu a administração de Chipre à Grã-Bretanha em troca de proteção contra a expansão russa, e com a entrada dos otomanos na Primeira Guerra Mundial ao lado da Alemanha, a ilha foi formalmente declarada colónia britânica.
A aspiração dos cipriotas de língua grega à Enosis - a união com a Grécia - tem raízes no próprio projeto dos independentistas gregos do século XIX, que nunca conceberam a Grécia como um Estado confinado aos Balcãs, mas como a restauração de um mundo helénico que incluía as costas da Ásia Menor, as ilhas do Egeu e Chipre. Essa ambição colidiu com o nacionalismo turco emergente após a Primeira Guerra Mundial, culminando na expulsão de centenas de milhares de gregos da Ásia Menor na década de 1920. Em Chipre, entre 1955 e 1959, a organização guerrilheira EOKA combateu os britânicos com o objetivo de obter a união com a Grécia. Os britânicos optaram então pela solução da independência: em 1960, Chipre tornou-se uma república com uma constituição que reconhecia separadamente as duas comunidades - um presidente eleito pelos gregos, um vice-presidente eleito pelos turcos, e quotas étnicas no governo e no parlamento. O primeiro presidente foi o arcebispo Makários.
Este arranjo revelou-se frágil. Os sistemas de ensino separados aprofundaram as identidades nacionais distintas em vez de forjar uma identidade cipriota comum, e nos anos de 1963 e 1964 a república entrou em colapso. Os cipriotas turcos foram progressivamente confinados a enclaves no norte, empobrecidos e dependentes de proteção, enquanto a ONU instalava uma força de manutenção da paz que permanece até hoje. Na Grécia, o político socialista Andréas Papandréu agitava a vida política ao ponto de o exército dar um golpe em abril de 1967, instaurando a ditadura dos coronéis. Em 1974, com dificuldades económicas e pressão interna crescente, a junta militar - dominada pelo coronel Ioannidis - decidiu patrocinar um golpe em Chipre que depusesse Makários e proclamasse a Enosis, à semelhança do que a Argentina tentaria em 1982 com as Malvinas: uma aventura externa para legitimar a ditadura. O golpe ocorreu a quinze de julho de 1974, mas cinco dias depois a Turquia invadiu a ilha, alegando defender a minoria muçulmana. O exército turco acabou por ocupar um terço do território, provocando a deslocação de cerca de cento e cinquenta mil gregos para o sul e de cinquenta mil turcos para o norte. O humilhante fracasso levou a junta a entregar o poder, três dias após a invasão, ao político conservador Constantino Karamânlis, que iniciou a transição democrática grega, criando as condições para a alternância pacífica de 1981, quando Andréas Papandréu e o PASOK venceram as eleições.
Quanto a Chipre, Makários regressou como presidente em dezembro de 1974, mas os esforços de
Personagens
- Ricardo Coração de Leão
- Arcebispo Macarius
- Andréas Papandréu
- Kemal Atatürk
- Coronel Papadópoulos
- Coronel Dimitrios Ioannidis
- Constantino Caramális
- Rei Constantino II da Grécia
- Josip Broz Tito
Lugares/Países
- Chipre
- Grécia
- Turquia
- Reino Unido
- Império Otomano
- Império Bizantino
- República de Veneza
- Rússia
- França
- Egipto
- Líbano
- Síria
- Creta
- Estados Unidos
- Jugoslávia
- União Soviética
- Ásia Menor
- Península Ibérica
- Gibraltar
- Malta
- Esmirna
- Atenas
- Esparta
- Alexandria
- Constantinopla
- Istambul
- Argentina
- Brasil
- América Latina
- Irlanda
Épocas
- Idade Média
- Cruzadas
- século XII
- século XV
- século XVI
- século XVII
- século XIX
- século XX
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra Fria
- década de 1820
- década de 1920
- década de 1960
- década de 1970
- anos 1974
Temas
- colonialismo
- imperialismo
- nacionalismo
- ditadura militar
- democracia
- transição democrática
- guerra civil
- conflito étnico-religioso
- limpeza étnica
- partilha territorial
- ocupação militar
- refugiados
- educação e nacionalização
- bases militares
- geopolítica
- religião
- cristianismo ortodoxo
- islamismo
Eventos
- invasão de Chipre pela Turquia (1974)
- golpe dos coronéis na Grécia (1967)
- queda da ditadura dos coronéis (1974)
- transição democrática grega (1974)
- Guerra Civil Grega
- independência da Grécia (1820)
- anexação de Creta pela Grécia (1908)
- tratado de concessão de Chipre à Grã-Bretanha (1878)
- independência de Chipre (1960)
- golpe de Estado em Chipre (15 de julho de 1974)
- invasão turca de Chipre (20 de julho de 1974)
- entrada da Grécia na CEE (1981)
- entrada de Chipre na União Europeia (2004)
- declaração da República Turca do Norte de Chipre (1983)
- revolta estudantil de Atenas (1973)
- golpe militar no Brasil (1964)
- Guerra das Malvinas/Falklands (1982)
Guerras e conflitos
- Cruzadas
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra Civil Grega
- conflito greco-turco (década de 1920)
- guerrilha EOKA (1955-1959)
- invasão de Chipre (1974)