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Nº 17119 de outubro de 202250:49resposta a ouvintes

A invasão soviética da Polónia e 100 anos da BBC

O episódio aborda duas questões históricas: a invasão soviética da Polónia em setembro de 1939 e os 100 anos da BBC. Rui Ramos explica porque é que França e Reino Unido não declararam guerra à URSS após a invasão do leste da Polónia, revelando o cinismo diplomático e a tragédia polaca durante a guerra. Na segunda parte, analisa-se a criação da BBC como projecto de homogeneização cultural e serviço público independente, sob a liderança de John Reith.

Ideias principais

  1. A invasão soviética da Polónia em 17 de setembro de 1939 estava prevista nas cláusulas secretas do Pacto Molotov-Ribbentrop, sendo uma partilha coordenada com a Alemanha nazi, não uma improvisação.
  2. França e Reino Unido não declararam guerra à URSS porque interpretaram que as garantias dadas à Polónia aplicavam-se apenas contra a Alemanha, e porque ainda esperavam atrair os soviéticos para uma aliança contra Hitler.
  3. A Polónia foi duplamente traída: primeiro em 1939 quando os Aliados não a defenderam da invasão soviética, e depois em 1945 quando aceitaram a anexação soviética do leste polaco e a imposição de uma ditadura comunista, apesar da contribuição militar polaca na guerra.
  4. A BBC foi criada em 1922 como um projecto deliberado de homogeneização cultural, para levar a cultura das classes médias educadas a toda a população britânica, rejeitando o modelo americano de rádios comerciais locais.
  5. John Reith, director da BBC entre 1922 e 1938, estabeleceu o princípio da independência e credibilidade através da imparcialidade calculada, defendendo que contar sempre a verdade (mesmo desfavorável) garantiria que as pessoas acreditassem quando fosse necessário, tornando a BBC mais eficaz como instrumento de influência.

Resumo do episódio

Neste episódio de *E o Resto é História*, Rui Ramos e João Miguel Tavares respondem a duas questões distintas: a primeira, enviada por um ouvinte, sobre por que razão a invasão soviética da Polónia em setembro de 1939 não provocou uma declaração de guerra por parte da França e da Grã-Bretanha; a segunda, por ocasião do centenário da BBC, sobre o que mudou no mundo com o surgimento daquele serviço público de rádio e televisão.

A resposta à primeira questão começa por situar a invasão soviética no quadro do Pacto Molotov-Ribbentrop, assinado em agosto de 1939, cujas cláusulas secretas previam precisamente a partilha da Polónia entre a Alemanha nazi e a União Soviética. Tanto Berlim como Moscovo recusavam a existência de uma Polónia independente, e os dois regimes totalitários partilhavam um projeto comum de destruição do Estado polaco que havia emergido após a Primeira Guerra Mundial. Os apresentadores recordam ainda o peso do trauma soviético com a derrota sofrida diante de Varsóvia em 1920, que Stalin vivera pessoalmente, e que alimentava um rancor especial em relação à Polónia. Quando a União Soviética invadiu a Polónia a 17 de setembro, os polacos, que combatiam com bravura à espera de um ataque francês e britânico à Alemanha pelo Ocidente, viram-se apanhados entre dois invasores simultaneamente.

A Inglaterra e a França não declararam guerra à União Soviética por várias razões conjugadas. Invocaram, de forma cínica, que a garantia de independência dada à Polónia se aplicava apenas a uma agressão alemã, não a qualquer outro país. Além disso, nunca abandonaram inteiramente a esperança de atrair a União Soviética para o seu lado contra a Alemanha. A estratégia soviética de aguardar quinze dias antes de intervir, apresentando-se como protetor das populações bielorrussas e ucranianas abandonadas pela destruição do Estado polaco, foi aceite com relativa passividade pelos aliados ocidentais. Rui Ramos sublinha que a Polónia era um Estado multinacional, onde os polacos representavam cerca de 70% dos seus trinta e um milhões de habitantes, o que tornava mais plausível o argumento soviético. A traição repetiria-se no final da guerra, quando ingleses e americanos aceitaram que a União Soviética anexasse a Polónia Oriental e impusesse uma ditadura comunista no país, apesar de milhares de soldados polacos terem combatido ao lado dos aliados, nomeadamente na campanha de Itália e na Batalha de Inglaterra. O episódio descreve ainda o massacre de Katyn, em que mais de vinte mil oficiais polacos foram executados pelos soviéticos, crime que a União Soviética tentou, com a cumplicidade passiva dos aliados, atribuir à Alemanha nazi no julgamento de Nuremberga.

Na segunda parte, os apresentadores celebram os cem anos da BBC, fundada a 18 de outubro de 1922. Rui Ramos explica que a rádio representou uma revolução sem precedentes na capacidade de unificar culturalmente populações muito segmentadas por classe, região e nível de instrução. Ao contrário do modelo americano, assente em estações privadas e comerciais, o modelo britânico optou por um serviço público nacional, financiado por uma taxa sobre os receptores, sem publicidade e sem concorrência. A BBC funcionou durante décadas como o único serviço de rádio no Reino Unido, o que lhe conferiu uma dimensão cultural extraordinária.

A figura central desta história é John Reith, director-geral da BBC entre 1922 e 1938, escocês e calvinista, que concebeu a emissora como um instrumento de elevação moral e cultural das massas, levando a música erudita, o teatro e o debate intelectual a toda a população, segundo os padrões das classes médias ilustradas. A independência da BBC em relação aos governos foi outro elemento decisivo, ilustrado pela greve geral de 1926, quando Reith resistiu às pressões do governo conservador para transformar a emissora numa arma de propaganda. Durante a Segunda Guerra Mundial, este princípio de imparcialidade e de dizer a verdade mesmo quando inconveniente tornou-se um trunfo estratégico: a credibilidade da BBC nas emissões para a Europa ocupada dependia precisamente de nunca ter sido apanhada a mentir.

Personagens

  • Adolf Hitler
  • Josef Stalin
  • Winston Churchill
  • Charles de Gaulle
  • Maurice Schumann
  • John Reith
  • Timothy Snyder

Lugares/Países

  • Polónia
  • União Soviética
  • Alemanha
  • França
  • Reino Unido
  • Grã-Bretanha
  • Rússia
  • Ucrânia
  • Bielorrússia
  • Lituânia
  • Checoslováquia
  • Roménia
  • Itália
  • Estados Unidos
  • Prússia
  • Kaliningrado
  • Königsberg
  • Varsóvia
  • Europa Central
  • Holanda
  • Bélgica

Épocas

  • Segunda Guerra Mundial
  • Primeira Guerra Mundial
  • século XIX
  • século XX
  • anos 1920
  • anos 1930
  • anos 1940
  • anos 1960
  • anos 1970

Temas

  • guerra
  • invasão
  • diplomacia
  • traição
  • ocupação
  • totalitarismo
  • comunismo
  • nazismo
  • extermínio
  • Holocausto
  • comunicação social
  • rádio
  • televisão
  • serviço público
  • propaganda
  • independência mediática
  • cultura
  • educação
  • homogeneização cultural

Eventos

  • invasão da Polónia
  • Pacto Molotov-Ribbentrop
  • Batalha de Varsóvia (1920)
  • desmembramento da Checoslováquia
  • Drôle de guerre
  • Phoney War
  • Blitz
  • insurreição de Varsóvia (1944)
  • massacre de Katyn
  • Tribunal de Nuremberg
  • greve geral de 1926

Guerras e conflitos

  • Segunda Guerra Mundial
  • Primeira Guerra Mundial
  • Guerra Polaco-Soviética

Livros citados

  • Bloodlands (Timothy Snyder)