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Nº 2929 de janeiro de 202041:15efeméride

A libertação de Auschwitz há 75 anos

Episódio dividido em duas partes: a primeira marca os 75 anos da libertação de Auschwitz, explorando o conhecimento que os Aliados tinham do extermínio nazi, as particularidades de Auschwitz face a outros campos, e a natureza ideológica e sistemática do genocídio. A segunda parte analisa o voto contra a Constituição de 1976 pelo CDS, único partido a fazê-lo, e as consequências políticas e estratégicas dessa decisão. Termina com uma pergunta sobre eventuais pretensões brasileiras a Angola após a independência.

Ideias principais

  1. Os Aliados tinham conhecimento do extermínio dos judeus desde dezembro de 1942 através de relatórios do governo polaco no exílio, mas muitos consideraram ser propaganda anti-alemã, e a extensão total do horror só foi compreendida com a libertação dos campos.
  2. Auschwitz distinguiu-se de outros campos de extermínio como Treblinka por combinar extermínio em massa com trabalho escravo, o que permitiu a sobrevivência de cerca de 20 mil prisioneiros (incluindo Primo Levi e Elie Wiesel) contra apenas 70 em Treblinka.
  3. O voto contra a Constituição de 1976 pelo CDS representou uma estratégia de capitalização do seu papel de 'mártir do PREC', duplicando a sua votação para quase 900 mil votos (16%) e tornando-se o terceiro partido, embora sem ultrapassar o PSD.
  4. O CDS enfrentou desde sempre o problema estrutural de partilhar o mesmo eleitorado do PSD, como se demonstrou em 1987 quando teve 15,4% nas europeias mas apenas 4% nas legislativas realizadas no mesmo dia, devido à vontade dos eleitores de dar maioria absoluta a Cavaco Silva.
  5. A hipótese de um 'império americano-africano' brasileiro incluindo Angola após a independência não passou de especulação: o Brasil tinha menos população que Portugal, não tinha meios militares, enfrentava risco de desagregação interna, e continuou a beneficiar do tráfico de escravos sem necessidade de ocupar os portos africanos.

Resumo do episódio

Neste episódio de *E o Resto é História*, Rui Ramos e João Miguel Tavares abordam três temas distintos: a libertação do campo de Auschwitz no seu 75.º aniversário, a história do CDS e o seu voto contra a Constituição de 1976, e, por fim, a questão de saber se o Brasil independente terá alguma vez ameaçado as possessões portuguesas em África.

O episódio abre com a pergunta central sobre o que o mundo sabia acerca do extermínio dos judeus na altura em que as tropas soviéticas libertaram Auschwitz, a 27 de janeiro de 1945. Rui Ramos recorda que já em dezembro de 1942 o governo polaco no exílio havia enviado aos aliados um relatório detalhado sobre o massacre em massa dos judeus na Polónia, ao qual se seguiu uma declaração conjunta publicada na primeira página do *New York Times*. Apesar desta informação ser de domínio público, muitos recusaram acreditar na sua dimensão - incluindo figuras proeminentes como o juiz norte-americano Felix Frankfurter. Os apresentadores distinguem ainda dois processos distintos: o chamado "Holocausto a tiro", praticado pelos Einsatzgruppen no Leste europeu, e o extermínio industrial em câmaras de gás, adotado pelas SS precisamente por permitir um maior distanciamento psicológico dos seus executores.

Ramos sublinha o que tornava Auschwitz singular: não era apenas um campo de extermínio, mas também um centro de trabalho escravo, o que fez com que sobrevivesse um número relativamente maior de prisioneiros - cerca de vinte mil - em comparação com campos como Treblinka, onde de quase um milhão de deportados sobreviveram apenas setenta pessoas. A esta sobrevivência acresceu a preservação física dos edifícios e os testemunhos literários de figuras como Primo Levi e Elie Wiesel, que conferiram a Auschwitz uma visibilidade que outros campos não obtiveram. O episódio distingue ainda, de forma clara, entre perseguições movidas pelo preconceito popular e o extermínio nazi, que foi uma decisão política fria, ideologicamente motivada, executada de forma quase clandestina pelo Estado. Por comparação, são referidos os campos soviéticos do Gulag, salientando-se que, embora a escala e a natureza dos crimes sejam diferentes, ambos os sistemas assentam na eliminação dos considerados inimigos - de raça ou de classe - e nenhum deve servir para relativizar o outro.

Na segunda parte, os apresentadores revisitam a fundação e a trajetória inicial do CDS, a propósito da eleição do novo líder Francisco Rodrigues dos Santos, que no seu discurso evocou o voto contra a Constituição de 1976. Ramos explica que o CDS nasceu a pedido dos próprios militares do MFA, que pretendiam ter no espectro político português um partido de direita liberal. Durante o PREC, o partido foi alvo de violência e tentativas de ilegalização, o que lhe granjeou um capital de martírio que rendeu dividendos eleitorais: ao votar sozinho contra a Constituição, o CDS duplicou a sua votação nas legislativas de abril de 1976, tornando-se o terceiro partido. Paradoxalmente, foi também o partido que, entre 1976 e 1983, mais tempo passou no governo, coabitando tanto com o PS como com o PSD. O principal problema estrutural do CDS, já identificado em análises da época, era a sobreposição do seu eleitorado com o do PSD - uma relação de vasos comunicantes que se tornou dramática em 1987, quando, no mesmo dia, o partido obteve apenas 4% nas legislativas mas 15% nas europeias, demonstrando que os seus eleitores preferiram dar maioria absoluta a Cavaco Silva.

O episódio encerra com uma pergunta de um ouvinte sobre a alegada pretensão brasileira de formar um império americano-africano, unindo o Brasil à Angola portuguesa após a independência de 1822. Ramos desmonta este cenário como improvável: o Brasil de então era demograficamente mais pequeno do que Portugal, carecia de meios militares próprios e, do ponto de vista prático, já beneficiava do tráfico de escravos a partir dos entrepostos africanos sem ter de suportar os seus custos. A Inglaterra, por seu lado, tinha todo o interesse em manter o Brasil separado de qualquer potência europeia. O suposto império americano-africano não passou, assim, de uma possibilidade teórica sem qualquer viabilidade real.

Personagens

  • Francisco Rodrigues dos Santos
  • Freitas do Amaral
  • Francisco Sá Carneiro
  • Aníbal Cavaco Silva
  • Jorge Gaspar
  • Nuno Vitorino
  • Primo Levi
  • Elie Wiesel
  • Heinrich Himmler
  • Franklin D. Roosevelt
  • Winston Churchill
  • Félix Frankfurter
  • Dom Pedro I do Brasil
  • Dom Miguel I

Lugares/Países

  • Polónia
  • Alemanha
  • União Soviética
  • Estados Unidos
  • Reino Unido
  • Portugal
  • Brasil
  • Angola
  • Uruguai
  • Camboja

Épocas

  • Segunda Guerra Mundial
  • Holocausto
  • Revolução do 25 de Abril
  • PREC
  • Processo Revolucionário em Curso
  • Independência do Brasil
  • século XIX
  • século XX
  • anos 30
  • anos 40
  • Terceira República

Temas

  • genocídio
  • extermínio étnico
  • campos de concentração
  • antissemitismo
  • nazismo
  • comunismo
  • totalitarismo
  • ideologia
  • memória histórica
  • política partidária
  • democracia
  • Constituição
  • independência
  • colonialismo
  • escravatura
  • tráfico de escravos

Eventos

  • Libertação de Auschwitz
  • Holocausto
  • Conferência de Casablanca
  • Julgamentos de Nuremberg
  • 25 de Abril de 1974
  • 25 de Novembro de 1975
  • Cerco ao Congresso do CDS no Porto
  • Eleições para a Assembleia Constituinte de 1975
  • Aprovação da Constituição de 1976
  • Eleições legislativas de 1976
  • Eleições legislativas e europeias de 1987
  • Independência do Brasil
  • Pogrom de Lisboa de 1506

Guerras e conflitos

  • Segunda Guerra Mundial
  • Holocausto

Livros citados

  • Se Isto é um Homem