Nº 22822 de novembro de 202356:29efeméride
A morte de Kennedy e a citação de Salazar
Este episódio analisa o assassinato de John F. Kennedy há 60 anos, em 22 de novembro de 1963, explorando as razões pelas quais Kennedy permanece uma figura central da memória americana apesar de ter governado menos de três anos. Rui Ramos examina como Kennedy representou uma mudança geracional inédita - o primeiro presidente nascido no século XX, católico, veterano da Segunda Guerra Mundial - e como usou a sua juventude e carisma para promover uma renovação americana em pleno auge da Guerra Fria. O episódio termina com uma ligação a Portugal, explorando uma citação de Salazar sobre amizade e poder político.
Ideias principais
- Kennedy foi o candidato mais jovem eleito presidente dos EUA (43 anos) e representou uma mudança geracional radical, sendo o primeiro presidente nascido no século XX e o primeiro católico, quebrando a tradição protestante anglo-saxónica da presidência americana.
- A popularidade duradoura de Kennedy deve-se não apenas ao seu assassinato e às teorias da conspiração, mas ao facto de ter chegado ao poder numa expectativa sem precedentes, prometendo restaurar a supremacia americana face à União Soviética através da 'nova fronteira'.
- Kennedy era um político profissional sem escrúpulos, disposto a mentir sobre a superioridade nuclear soviética durante a campanha (quando os EUA tinham 97% mais mísseis), protegido pela imprensa que ocultava os seus graves problemas de saúde e inúmeros casos extraconjugais.
- O establishment americano teve grande preocupação em evitar que o assassinato por Lee Harvey Oswald (que vivera na URSS e admirava Castro) fosse visto como conspiração comunista, pelo risco de a população exigir retaliação nuclear contra a União Soviética.
- A citação de António Costa sobre primeiros-ministros não terem amigos ecoa uma declaração de Salazar a Marcelo Caetano em 1958, revelando a tensão entre afeto pessoal e necessidade política, numa relação complexa de 30 anos entre ambos durante o Estado Novo.
Resumo do episódio
Este episódio do podcast *E o Resto é História* é dedicado, na sua maior parte, ao assassinato de John F. Kennedy, ocorrido a 22 de novembro de 1963, cujo sexagésimo aniversário serve de mote à conversa. A pergunta de partida é simples mas pertinente: porque é que um presidente que esteve menos de três anos no poder continua a ser uma das figuras mais recordadas da história americana? Rui Ramos e João Miguel Tavares respondem mostrando que a morte de Kennedy não explica tudo, e que a sua presidência foi, por si mesma, um momento de rutura geracional e política de enorme alcance.
Os apresentadores sublinham que Kennedy foi o presidente americano eleito mais jovem de sempre, com 43 anos, e o primeiro nascido no século XX. Num mundo em que todos os grandes líderes ocidentais - de Churchill a De Gaulle, de Adenauer a Salazar - tinham crescido antes da Primeira Guerra Mundial, a sua chegada ao poder simbolizava uma mudança de época. A isto acrescia ser católico de ascendência irlandesa, numa república historicamente pensada como protestante e anglo-saxónica, o que tornava a sua eleição quase tão perturbadora, no plano simbólico, quanto a de Barack Obama em 2008. A experiência de combate na Segunda Guerra Mundial servia-lhe de resposta a ambas as objeções - a da inexperiência e a da religião - e permitia-lhe reclamar legitimidade para romper com as hierarquias estabelecidas.
Kennedy chegou ao poder prometendo relançar os Estados Unidos numa época de Guerra Fria intensa, em que a União Soviética parecia estar a ganhar terreno - tecnológico, militar e ideológico. Rui Ramos descreve um presidente que não hesitava em distorcer factos para fins eleitorais, como ao exagerar sistematicamente a superioridade soviética em mísseis nucleares, e que governava de forma centralizada e expedita, pedindo à CIA relatórios primários em vez de sínteses, recrutando republicanos para o seu governo e escolhendo Lyndon Johnson, um democrata conservador do Sul, como vice-presidente para alargar a sua base eleitoral. Apesar da imagem de juventude e vigor, Kennedy sofria de doenças graves que o incapacitavam frequentemente, e mantinha uma vida privada que, a ser conhecida, o teria destruído politicamente em qualquer época posterior.
O assassinato em Dallas, onde Kennedy tinha ido tentar recuperar apoio entre os democratas sulistas descontentes com as suas posições sobre os direitos cívicos, colocou de imediato um problema geopolítico gravíssimo: o suspeito, Lee Harvey Oswald, vivera na União Soviética e era simpatizante de Fidel Castro. A morte de Oswald dois dias depois, antes de qualquer julgamento, aprofundou o mistério. Os apresentadores argumentam que terá havido uma preocupação deliberada do establishment americano em apresentar Oswald como um desequilibrado a agir sozinho, para evitar que a opinião pública exigisse uma resposta militar contra a URSS ou Cuba. Esse esforço de contenção acabou por alimentar, nas décadas seguintes, uma cultura generalizada de desconfiança face ao poder, intensificada pela guerra do Vietname, pelos Pentagon Papers e pelo caso Watergate, que deu origem às inúmeras teorias da conspiração que persistem até hoje.
No final do episódio, a conversa toma um rumo inesperado. João Miguel Tavares recorda que o primeiro-ministro António Costa afirmara publicamente que "um primeiro-ministro não tem amigos", e Rui Ramos identifica a origem provável da frase: uma declaração de Salazar registada por Marcelo Caetano nas suas memórias. Em agosto de 1958, num encontro em São Bento em que Salazar se preparava para dispensar Marcelo Caetano do governo, após as tensões geradas pela candidatura de Humberto Delgado, o ditador afirmou, em tom que Caetano descreve como simultaneamente cortante e patético: "Não sou amigo de ninguém. Não posso ter amigos." A ironia, sublinhada pelos dois apresentadores, é que Marcelo Caetano acrescenta nas suas memórias que sabia não ser verdade - e que o próprio livro termina com uma carta de Salazar em que este confessa que despedir Caetano fora o maior desgosto dos seus trinta anos de governo. A relação entre os dois, conclui Rui Ramos, era uma mistura de tensão, desconfiança e afeição mútua que desmente a máxima do poder solitário, mesmo que a política a tornasse inevitável.
Personagens
- John F. Kennedy
- Júlio César
- Lee Harvey Oswald
- Abraham Lincoln
- James Garfield
- William McKinley
- George Washington
- Richard Nixon
- Franklin D. Roosevelt
- Woodrow Wilson
- Lyndon Johnson
- Barack Obama
- Theodore Roosevelt
- Winston Churchill
- Charles de Gaulle
- Konrad Adenauer
- Francisco Franco
- António de Oliveira Salazar
- Dwight Eisenhower
- Robert Kennedy
- Ted Kennedy
- Joe Kennedy
- Robert McNamara
- Jacqueline Kennedy
- Ted Sorensen
- Marilyn Monroe
- Martin Luther King
- Nikita Khrushchev
- Ngo Dinh Diem
- Humberto Delgado
- Marcelo Caetano
- Américo Tomás
- Craveiro Lopes
- Santos Costa
- Fidel Castro
- Elon Musk
- António Costa
Lugares/Países
- Estados Unidos
- União Soviética
- Portugal
- Cuba
- Alemanha
- França
- Espanha
- Inglaterra
- Vietnã do Sul
- Berlim
- Texas
- Dallas
- Europa Ocidental
- África
- Ásia
- Pacífico
Épocas
- século XX
- século XIX
- anos 60
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra Fria
- Estado Novo
- década de 1980
Temas
- assassinato político
- presidência
- Guerra Fria
- corrida espacial
- política externa
- direitos civis
- comunicação política
- teorias da conspiração
- catolicismo
- armas nucleares
- Estado Social
- descolonização
- ditadura
- escândalo político
Eventos
- assassinato de JFK
- eleição presidencial de 1960
- crise dos mísseis de Cuba
- construção do Muro de Berlim
- invasão da Baía dos Porcos
- Sputnik
- corrida à Lua
- caso Watergate
- Pentagon Papers
- eleição presidencial de 1964
- golpe de Botelho Moniz
Guerras e conflitos
- Segunda Guerra Mundial
- Primeira Guerra Mundial
- Guerra Fria
- Guerra do Vietnã
Livros citados
- As Minhas Memórias de Salazar