Nº 9505 de maio de 202140:48efeméride
A morte de Napoleão Bonaparte foi há 200 anos
Episódio sobre os 200 anos da morte de Napoleão Bonaparte (5 de maio de 1821), analisando a sua extraordinária ascensão de pequeno nobre corso a imperador de França aos 35 anos, o seu génio militar e político, e o impacto transformador que teve na Europa. Rui Ramos explora as múltiplas dimensões do mito napoleónico - como comandante invencível, criador de um império multinacional e arquétipo do grande homem capaz de moldar a história - bem como o bonapartismo enquanto sistema político que procura fundir tendências opostas através de um líder carismático.
Ideias principais
- Napoleão representa o elevador social extremo da Revolução Francesa: de pequeno nobre corso que mal falava francês tornou-se imperador aos 35 anos, num período de apenas 16-17 anos de carreira política e militar.
- A genialidade de Napoleão residia na capacidade de dominar simultaneamente logística, táctica, estratégia, política e administração, sendo imprevisível e imaginativo num tempo em que os generais seguiam manuais - daí o receio dos adversários em enfrentá-lo directamente.
- Napoleão transformou a guerra do século XVIII (campanhas limitadas com exércitos profissionais pequenos) numa guerra total revolucionária com exércitos maciços de 150-200 mil homens, visando não ajustar fronteiras mas transformar Estados e sociedades inteiras.
- O bonapartismo como sistema político consiste num líder militar carismático que ultrapassa a polarização social através de uma síntese entre posições opostas (monarquia e república, Igreja e laicismo, antigo regime e revolução), permitindo que diferentes facções se identifiquem com o regime.
- A fragilidade de Napoleão era estrutural: ao contrário das monarquias hereditárias que sobreviviam a derrotas, o seu poder baseava-se exclusivamente na vitória militar contínua - tinha de ganhar todas as guerras, o que era estatisticamente impossível, e quando perdeu em 1815 caiu imediatamente.
Resumo do episódio
O episódio foi gravado no dia exacto em que se completavam 200 anos da morte de Napoleão Bonaparte, ocorrida a 5 de Maio de 1821 na ilha de Santa Helena, no Atlântico Sul. A pergunta de partida é aparentemente simples: o que tinha Napoleão de tão extraordinário para se tornar um mito universal, ao ponto de os loucos dos manicómios do século XIX se imaginarem ser ele?
Rui Ramos começa por enquadrar as origens do personagem: nascido na Córsega em 1769, numa família de pequena nobreza de origem italiana, Napoleão cresceu a falar italiano e só aprendeu o francês já crescido, cometendo erros ortográficos em francês durante toda a vida. A sua ascensão vertiginosa - general aos 25 anos, primeiro-cônsul aos 30, imperador coroado pelo próprio Papa aos 35 - só foi possível porque a Revolução Francesa destruiu o antigo oficialato aristocrático, promovendo quase mil novos generais numa década. Napoleão era um deles, mas distinguia-se por uma combinação rara de capacidades: domínio simultâneo da logística, da táctica, da estratégia e da liderança política, algo que impressionou os seus superiores mesmo quando esteve preso, após a queda de Robespierre, com quem estava associado. O casamento com Josefina de Beauharnais, antiga amante do poderoso Barras, e depois, em 1810, com uma arquiduquesa dos Habsburgo, ilustra bem a velocidade com que este pequeno nobre corso atingiu o cume da hierarquia europeia.
A segunda grande dimensão explorada é a militar. Napoleão transformou radicalmente a forma de fazer a guerra: substituiu os exércitos profissionais e limitados do século XVIII, que evitavam batalhas decisivas, por exércitos de massas extremamente agressivos, que visavam directamente as capitais inimigas e a transformação dos Estados ocupados. Quando o general Junot entrou em Portugal em 1807, começou imediatamente a planear a revisão de toda a legislação portuguesa - o que ilustra bem esta ideia de guerra como instrumento de revolução política. Os aliados, mesmo em 1813-1814, quando Napoleão já estava enfraquecido, instruíam os seus generais a evitar confronto directo com ele, porque era imprevisível: ao contrário dos outros comandantes, não seguia manuais.
A terceira dimensão é a de criador de um mundo. Rui Ramos cita Hegel, que em 1806, ao ver Napoleão passar em Jena, disse ter visto "o espírito do mundo a cavalo", e Beethoven, que lhe dedicou a Sinfonia Heróica. Mais revelador ainda, o romance O Vermelho e o Negro de Stendhal, cujo protagonista Julien Sorel - filho de um carpinteiro de província - encarna a ilusão napoleónica de que a vontade individual pode substituir a herança e o privilégio na conquista do poder. É esta ideia - a de que um homem pode criar por si só o que antes só Deus ou os séculos construíam - que Ramos identifica como o grande legado cultural de Napoleão ao século XIX.
O episódio aborda também a questão da queda. Napoleão era prisioneiro do próprio mito: ao contrário dos reis hereditários, que podiam perder guerras e continuar no trono, ele precisava de vencer sempre, porque o seu poder assentava exclusivamente na glória militar. Internamente, os seus próprios generais só lhe eram leais enquanto ele ganhava; externamente, havia compromissos - como a posse da Bélgica - que a Inglaterra nunca aceitaria, tornando a paz duradoura estruturalmente impossível.
Personagens
- Napoleão Bonaparte
- Josephine de Beauharnais
- Barras
- Robespierre
- Augustin Robespierre
- Hegel
- Beethoven
- Stendhal
- Julien Sorel
- Alexandre o Grande
- Júlio César
- General Junot
- Luís Napoleão
- Napoleão III
- Charles de Gaulle
- André Malraux
- Mussolini
Lugares/Países
- França
- Córcega
- Itália
- Áustria
- Prússia
- Espanha
- Rússia
- Inglaterra
- Portugal
- Holanda
- Suécia
- Alemanha
- Bélgica
- Suíça
Épocas
- século XVIII
- século XIX
- século XX
- Revolução Francesa
- guerras napoleónicas
- Antiguidade grega
- Antiguidade romana
- anos 90 (1790s)
- anos 30 e 40 (século XX)
- anos 40 (século XX)
Temas
- guerra
- revolução
- império
- ditadura
- monarquia
- república
- bonapartismo
- militarismo
- promoção social
- política
- diplomacia
- religião
- nacionalismo
- carisma político
Eventos
- Revolução Francesa
- Batalha de Jena
- Batalha de Waterloo
- queda de Robespierre
- golpe de 18 de Brumário
- coroação de Napoleão
- retirada da Rússia
- exílio em Santa Helena
- golpe de Estado de 1961
Guerras e conflitos
- guerras napoleónicas
- invasões napoleónicas em Portugal
Livros citados
- Le Rouge et le Noir