Nº 5529 de julho de 202040:34efeméride
A morte de Salazar, 50 anos depois
Episódio dedicado aos 50 anos da morte de Salazar (27 de julho de 1970), explorando os misteriosos dois anos finais do ditador após a queda da cadeira em 1968, a natureza do seu regime e as razões da sua popularidade inicial. Rui Ramos contextualiza o salazarismo como resposta à instabilidade da Primeira República e discute a questão controversa de saber se o Estado Novo foi um fascismo, defendendo que foi uma ditadura com elementos fascistas mas não um verdadeiro fascismo.
Ideias principais
- O mistério dos últimos dois anos de Salazar envolve a possibilidade de ter sido mantido num teatro em que não sabia ter sido substituído, embora existam versões contraditórias sobre se ele percebeu ou não a sua destituição
- Salazar e o Estado Novo foram inicialmente populares porque substituíram não uma democracia mas a ditadura faccional do Partido Republicano, trazendo estabilidade financeira, ordem e reconciliação com a Igreja Católica
- A memória negativa do salazarismo consolidou-se com a imagem dos anos 1960, quando o regime envelhecido contrastava com uma sociedade em rápida transformação e com a guerra colonial sem fim à vista
- O salazarismo não foi tecnicamente um fascismo porque lhe faltava o movimento de massas característico dos verdadeiros fascismos, apresentando-se como uma terceira via entre fascismo e democracia liberal, embora fosse inequivocamente uma ditadura
- A utilização de Salazar como figura de oposição simbólica ao regime democrático actual replica o padrão histórico português de atribuir todos os males ao regime anterior, tal como o Estado Novo fez com a Primeira República
Resumo do episódio
## A morte de Salazar, 50 anos depois
Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares assinalam os cinquenta anos da morte de António de Oliveira Salazar, ocorrida a 27 de julho de 1970, para revisitar alguns dos temas mais debatidos sobre o Estado Novo e responder a perguntas enviadas pelos ouvintes. O ponto de partida é o período final da vida de Salazar - os quase dois anos que mediaram a sua saída do poder e a sua morte - e a questão enigmática de saber se o ditador alguma vez percebeu que tinha sido substituído.
Os apresentadores reconstroem os acontecimentos de 1968: depois de uma queda cujas circunstâncias exactas permanecem obscuras, Salazar sofreu um hematoma intracraniano e, na sequência de um AVC durante a recuperação, o Presidente da República Américo Tomás nomeou Marcelo Caetano como novo Presidente do Conselho. O problema político era sensível: Caetano estava afastado do governo desde 1958 e representava uma corrente crítica das opções salazaristas, nomeadamente na questão ultramarina. A sua nomeação foi contestada por uma franja do regime que continuou a invocar Salazar como forma de oposição interna a Caetano. Neste contexto, nunca foi comunicado a Salazar que tinha sido afastado - por receio de lhe provocar outro AVC, mas também por razões de cálculo político. A entrevista que o jornalista francês Roland Faure lhe fez em agosto de 1969 revelou que Salazar falava de Marcelo Caetano como se este continuasse a dar aulas na universidade, sem qualquer ideia de o ter sucedido no governo. Rui Ramos aponta, porém, que o médico pessoal de Salazar deixou escrito que o ditador afirmara ter sido "corrido brutalmente", o que sugere que poderia ter percebido o que acontecera, fingindo apenas desconhecê-lo. Como observou Adriano Moreira, ninguém lhe disse, mas ele também nunca perguntou.
A segunda parte do episódio responde à pergunta de um ouvinte sobre as razões que levaram muita gente, como a sua bisavó, a venerar Salazar. Os apresentadores sublinham que o Estado Novo não substituiu uma democracia como a actual, mas o domínio faccioso de um partido que censurava, fraudava eleições, destruía redacções de jornais opositores e perseguia os católicos. Para muitos portugueses, sobretudo nas décadas de 1930 e 1940, o regime representou ordem, estabilidade financeira e reconhecimento da identidade religiosa maioritária do país. Rui Ramos nota ainda que Salazar aproveitou em parte o trabalho de consolidação orçamental já iniciado pelos últimos governos republicanos. O grande paradoxo é que foi precisamente quando o crescimento económico dos anos 1950 e 1960 criou uma nova classe média que o regime começou a envelhecer: os portugueses, integrados na EFTA e na NATO, passaram a interrogar-se por que razão não podiam viver como os vizinhos europeus. A Guerra de África tornou-se o factor decisivo de erosão do regime, paralisando a capacidade de reforma de Marcelo Caetano e tornando o Estado Novo insustentável até ao 25 de Abril.
O episódio encerra com a pergunta directa de um ouvinte de 14 anos - "Salazar era fascista?" - à qual Rui Ramos responde com clareza: não, se quisermos que as palavras mantenham um sentido histórico preciso. O fascismo define-se essencialmente pelo movimento de massas que toma o poder, como aconteceu em Itália com Mussolini. Em Portugal, organismos como a Legião Portuguesa ou a Mocidade Portuguesa eram controlados pelo exército e não constituíam um verdadeiro movimento fascista autónomo. O próprio regime procurou apresentar-se como uma terceira via entre o fascismo e o liberalismo, o que lhe valeu até influência como modelo noutros países, incluindo a França de Vichy. Esta distinção, advertem os apresentadores, não significa que o Estado Novo não fosse uma ditadura - com censura prévia à imprensa, polícia política, torturas e prisões arbitrárias. A conclusão é que nem todas as ditaduras são fascistas, e que reduzir o conceito de ditadura ao fascismo cria uma ilusão perigosa de que os outros regimes autoritários são, por comparação, aceitáveis.
Personagens
- Salazar
- Américo Tomás
- Marcelo Caetano
- D. Luís
- D. Augusto
- D. Joana
- D. João
- D. Sebastião
- Franco Nogueira
- Roland Faure
- Eduardo Coelho
- Adriano Moreira
- Afonso Costa
- Norton de Matos
- Marcial Carmona
- Humberto Delgado
- D. Miguel
- Mário Centeno
- Miguel Urbano Rodrigues
- General Delgado
- Marshal Petain
- Mussolini
- Franco
- Rolão Preto
- Manuel de Lucena
Lugares/Países
- Portugal
- França
- Alemanha
- Itália
- Inglaterra
- Estados Unidos
- União Soviética
- Venezuela
- Japão
- Brasil
- Europa Ocidental
- África
Épocas
- Estado Novo
- Primeira República
- século XIX
- século XVI
- anos 1930
- anos 1960
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra Fria
- 25 de Abril
Temas
- ditadura
- política
- censura
- economia
- religião
- guerra colonial
- fascismo
- democracia
- finanças públicas
- inflação
- propaganda
- memória histórica
Eventos
- queda da cadeira de Salazar
- morte de Salazar
- 25 de Abril
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
- Exposição do Mundo Português
- crise do petróleo de 1973
Guerras e conflitos
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra Colonial
- Guerra Fria
Livros citados
- Memórias - Salazar (Marcelo Caetano)
- Diário de Franco Nogueira