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Nº 24917 de abril de 202456:15efeméride

A NATO nasceu há 75 anos. Esta é a sua história

O episódio celebra os 75 anos da NATO, explicando as origens da aliança militar em 1949 como resposta à expansão soviética no pós-Segunda Guerra Mundial. Rui Ramos detalha como a contenção do comunismo levou os Estados Unidos a abandonar o isolacionismo, criar estruturas de defesa coletiva e integrar a Europa Ocidental numa aliança que ainda hoje persiste. Portugal surge como membro fundador devido aos Açores e à aliança inglesa, apesar de ser ditadura.

Ideias principais

  1. A NATO nasceu em 1949 como resposta direta à sovietização da Europa Oriental e ao golpe comunista de Praga, marcando o fim da esperança de coexistência pacífica entre blocos
  2. O telegrama de George Kennan de 1946 estabeleceu a doutrina de contenção, argumentando que a União Soviética era uma potência ideológica expansionista mas que recuaria perante firmeza ocidental
  3. Portugal foi membro fundador da NATO apesar de ser ditadura porque tinha cedido bases nos Açores aos aliados em 1943 e era visto como essencial na estratégia periférica de defesa da Europa
  4. A Guerra da Coreia foi fundamental para consolidar a NATO porque provou aos europeus e aos soviéticos que os Estados Unidos estavam dispostos a entrar em guerra para defender aliados, com 34 mil mortos americanos
  5. A NATO representou uma revolução no regime americano, criando a presidência imperial, mantendo serviço militar obrigatório em tempo de paz e expandindo o governo federal de modo sem precedentes

Resumo do episódio

Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares dedicam-se a contar a história da NATO por ocasião do seu 75.º aniversário, celebrado a 4 de abril de 2024. A pergunta de partida é dupla: por que razão nasceu esta aliança em 1949 e por que continua a existir em 2024? De caminho, os apresentadores abordam ainda a curiosidade de Portugal ter sido membro fundador enquanto a Espanha ficou de fora.

Para responder, Rui Ramos recua ao fim da Segunda Guerra Mundial. Em 1945, a Europa estava destruída e dividida entre as zonas de ocupação americano-britânica a ocidente e soviética a oriente. O entendimento inicial entre as potências vencedoras assentava na ideia de que todos os países ocupados realizariam eleições livres e formariam governos representativos. A União Soviética parecia, em alguns casos, disposta a tolerar alguma autonomia interna nos países da sua órbita - o exemplo da Finlândia era encorajador. Os Estados Unidos, por seu turno, apostavam sobretudo em instituições multilaterais como a ONU, o Banco Mundial e o FMI, repetindo o impulso globalizante que já tinham demonstrado após 1918. A Inglaterra e a França, receando um novo abandono americano como o que acontecera depois da Primeira Guerra Mundial, foram construindo as suas próprias estruturas de defesa, do Tratado de Dunquerque ao Pacto de Bruxelas.

O que mudou tudo foi o comportamento da União Soviética entre 1947 e 1948. O golpe comunista em Praga, em fevereiro de 1948, deixou claro que Stalin pretendia satellizar completamente a Europa Oriental, impondo ditaduras de partido único e não apenas uma tutela em política externa. O bloqueio terrestre de Berlim Ocidental, iniciado em junho de 1948, pareceu confirmar que o confronto seria directo. Três movimentos convergiram então para tornar a NATO possível: o reorientamento estratégico americano, expresso no "longo telegrama" de George Kennan e na doutrina Truman de contenção do comunismo; uma renovação intelectual liberal e anticomunista, com obras como as de Karl Popper, Friedrich Hayek e George Orwell; e uma resistência popular na Europa Ocidental, protagonizada pelos partidos da democracia-cristã e da social-democracia, que em eleições como as italianas de abril de 1948 derrotaram os comunistas nas urnas.

O Tratado do Atlântico Norte, assinado em Washington a 4 de abril de 1949, estabeleceu o princípio central de que o ataque a um membro era considerado ataque a todos - o artigo 5.º. Para os Estados Unidos, implicou uma transformação profunda: a manutenção do serviço militar obrigatório em tempo de paz, a criação da CIA e o crescimento do executivo federal, dando origem ao que se chamou a "presidência imperial". Na Europa, a NATO articulou-se com a integração europeia, facilitando a reabilitação da Alemanha Ocidental e criando o ambiente de segurança que tornou possível o Conselho da Europa e, mais tarde, a Comunidade Económica Europeia. Foi também a Guerra da Coreia, em 1950, que convenceu definitivamente os europeus - e provavelmente os soviéticos - de que o empenho americano era real.

Portugal foi aceite como membro fundador apesar de ser uma ditadura porque, ao contrário da Espanha de Franco, mantivera a aliança britânica e cedera bases nos Açores aos aliados em 1943. Os Açores eram considerados estrategicamente essenciais para a defesa periférica da Europa, que os planeadores americanos viam como provavelmente indefensável num ataque soviético convencional. A NATO legitimou o Estado Novo internacionalmente, embora nunca tenha apoiado as guerras africanas de Portugal e, após o 25 de Abril de 1974, tenha marginalmente afastado Lisboa de algumas reuniões sensíveis enquanto os comunistas participavam no governo.

Personagens

  • Franklin D. Roosevelt
  • Joseph Stalin
  • Winston Churchill
  • Harry Truman
  • George Marshall
  • George Kennan
  • Karl Popper
  • Friedrich von Hayek
  • George Orwell
  • Conrad Adenauer
  • Mao Tsé-Tung
  • António de Oliveira Salazar
  • Francisco Franco
  • Josip Broz Tito
  • Joseph McCarthy
  • Botelho Moniz
  • Costa Gomes
  • Nicolas Sarkozy

Lugares/Países

  • Estados Unidos
  • União Soviética
  • Inglaterra
  • França
  • Alemanha
  • Portugal
  • Espanha
  • Polónia
  • Roménia
  • Hungria
  • Checoslováquia
  • Finlândia
  • Grécia
  • Turquia
  • Itália
  • Bélgica
  • Holanda
  • Luxemburgo
  • Canadá
  • Islândia
  • Noruega
  • Dinamarca
  • China
  • Coreia do Norte
  • Coreia do Sul
  • Jugoslávia
  • Suécia
  • Ucrânia
  • Tibete
  • Açores
  • Berlim

Épocas

  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra Fria
  • Pós-Segunda Guerra Mundial
  • Estado Novo
  • Década de 1930
  • Século XIX
  • Década de 1940
  • Década de 1950
  • Década de 1960
  • Década de 1970

Temas

  • aliança militar
  • Guerra Fria
  • geopolítica
  • contenção comunista
  • democracia
  • ditadura
  • integração europeia
  • imperialismo
  • colonialismo
  • economia de mercado
  • armamento nuclear
  • direitos humanos
  • segurança coletiva
  • anticomunismo

Eventos

  • Fundação da NATO
  • Conferência de Ialta
  • Golpe de Praga
  • Bloqueio de Berlim
  • Guerra da Coreia
  • Guerra Civil Espanhola
  • Guerra Civil Grega
  • Revolução de 25 de Abril
  • 11 de setembro
  • Invasão da Ucrânia pela Rússia

Guerras e conflitos

  • Segunda Guerra Mundial
  • Primeira Guerra Mundial
  • Guerra Fria
  • Guerra da Coreia
  • Guerra Civil Espanhola
  • Guerra Civil Grega
  • Guerra do Suez
  • Guerra da Jugoslávia
  • Guerra do Afeganistão
  • Guerras coloniais portuguesas

Livros citados

  • The Open Society and Its Enemies (Karl Popper)
  • O Caminho da Servidão (Friedrich von Hayek)
  • Animal Farm (George Orwell)
  • 1984 (George Orwell)