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Nº 19215 de março de 202342:30análise histórica

A Primavera dos Povos ou o início do socialismo

Análise das revoluções de 1848, a Primavera dos Povos, que varreu a Europa mas fracassou rapidamente. Rui Ramos explica três causas principais: crescimento urbano, divisão das elites monárquicas e intensificação das redes de comunicação. Apesar do colapso imediato dos regimes revolucionários, 1848 consolidou o nacionalismo como força política e marcou o nascimento do socialismo como movimento político organizado.

Ideias principais

  1. As revoluções de 1848 foram essencialmente urbanas, concentradas nas capitais europeias com populações duplicadas e aglomeradas, onde trabalhadores de oficinas, estudantes e boémios constituíam a massa revolucionária, mas sem apoio dos 80% da população que vivia nos campos.
  2. O fracasso da repressão inicial deveu-se à profunda divisão das elites monárquicas sobre os fundamentos do regime - não discutiam políticas públicas mas a própria natureza do sistema político, entre absolutismo, monarquia constitucional, república ou democracia.
  3. 1848 marca o nascimento do socialismo como força política de massas, com Proudhon eleito deputado proclamando representar o proletariado contra a burguesia, e Karl Marx publicando o Manifesto Comunista em fevereiro desse ano.
  4. As revoluções falharam porque os próprios revolucionários se dividiram entre republicanos moderados e socialistas radicais em França, e entre diferentes nacionalidades nos impérios multinacionais, confirmando a profecia de Metternich de que em estados multinacionais a democracia significaria guerra.
  5. A grande descoberta traumática dos revolucionários socialistas em 1848 foi que o povo, quando votava livremente, era conservador - levando Blanqui a concluir que a revolução não podia ser feita pelo povo mas por uma vanguarda organizada, antecipando o leninismo.

Resumo do episódio

O episódio 192 de *E o Resto é História* é dedicado à Primavera dos Povos, a vaga revolucionária que, em 1848, varreu a Europa Central e Ocidental. Rui Ramos e João Miguel Tavares partem de uma dupla interrogação: como se explica que o mesmo impulso revolucionário irrompesse simultaneamente em países tão diferentes, e porque razão essas revoluções fracassaram tão depressa, sem deixar vestígios institucionais duradouros? A Europa monárquica que foi abalada em fevereiro de 1848 estava completamente restabelecida em 1851-52, e seria preciso esperar pela Primeira Guerra Mundial para que as repúblicas regressassem de forma estável ao continente.

Para explicar a simultaneidade das revoluções, Rui Ramos avança três razões principais. A primeira é o crescimento demográfico acelerado das cidades europeias na primeira metade do século XIX, sem a válvula de escape da emigração para as Américas que caracterizaria a segunda metade do século. Paris duplicou a sua população em cinquenta anos, passando de meio milhão para um milhão de habitantes em 1846, e essa massa humana acumulava-se numa malha urbana densa e medieval, com ruas cheias de oficinas, trabalhadores armados através das Guardas Nacionais e uma população habituada a levantar barricadas - como já sucedera em 1830. A segunda razão reside nos próprios regimes: as monarquias de 1848 eram regimes de transição entre o Antigo Regime e a modernidade, onde a elite política se encontrava profundamente dividida quanto aos fundamentos do sistema - não sobre políticas concretas, mas sobre a própria natureza do governo. Essa divisão impedia uma resposta repressiva coesa quando as insurreições eclodiam. A terceira razão é a densificação das redes de comunicação e circulação: comboios, barcos a vapor, telégrafo e uma imprensa pan-europeia partilhavam as mesmas leituras e os mesmos debates, enquanto uma vasta comunidade de exilados políticos - Karl Marx em Paris, Mazzini e Bakunin na Alemanha - estava pronta a exportar a revolução para os seus países de origem.

Para o fracasso das revoluções, Rui Ramos propõe igualmente três razões. A primeira é o carácter estritamente urbano dos levantamentos: tratava-se de insurreições de estudantes, boémios e trabalhadores de oficinas nas grandes capitais, sem correspondência nas zonas rurais onde vivia cerca de 80% da população europeia. Quando os governos conseguiram retomar o controlo das cidades, o problema estava resolvido. A segunda razão é a divisão interna dos próprios revolucionários. Em França, a cisão entre republicanos moderados e socialistas levou a combates sangrentos em junho de 1848, com três mil mortos e quinze mil presos em Paris. É precisamente em 1848 que o socialismo emerge como força política organizada: Proudhon é eleito deputado declarando representar o proletariado contra a burguesia, e Marx publica o *Manifesto do Partido Comunista*. Nos estados alemães e no Império Austro-Húngaro, a divisão deu-se sobretudo ao longo de linhas nacionais, confirmando a advertência do chanceler Metternich de que a soberania popular em estados multinacionais equivalia à guerra entre povos. A terceira razão é a recomposição das elites: em dezembro de 1848, Luís Napoleão Bonaparte foi eleito Presidente da República francesa com o apoio massivo do campesinato conservador - aquilo que Karl Marx designou como a «insurreição camponesa» eleitoral - e tratou de restabelecer a ordem em aliança com os antigos monárquicos, proclamando-se imperador em 1852.

O episódio termina com um balanço dos resultados duradouros de 1848: as nações afirmaram-se definitivamente como as principais entidades políticas europeias, antecipando as unificações italiana e alemã das décadas seguintes; e o socialismo instalou-se como terceira força no espectro político, ao lado de conservadores e liberais. Uma consequência inesperada foi a desconfiança de alguns revolucionários radicais, como Blanqui, face à democracia universal: ao descobrirem que o povo votava nos conservadores, concluíram que a revolução teria de ser obra de uma minoria organizada - ideia que alimentaria toda uma tradição política posterior.

Personagens

  • François Guizot
  • Luís Napoleão Bonaparte
  • Napoleão III
  • Pierre-Joseph Proudhon
  • Karl Marx
  • Giuseppe Mazzini
  • Mikhail Bakunin
  • Gustave Flaubert
  • Alphonse de Lamartine
  • Metternich
  • Alexis de Tocqueville
  • Augustin Blanqui
  • Mikhail Gorbachev
  • Liev Tolstói

Lugares/Países

  • França
  • Alemanha
  • Itália
  • Áustria
  • Hungria
  • Dinamarca
  • Suécia
  • Suíça
  • Irlanda
  • Rússia
  • Inglaterra
  • Espanha
  • Portugal
  • Estados Unidos
  • Brasil
  • Argentina
  • Checoslováquia
  • Polónia

Épocas

  • século XIX
  • século XVIII
  • Revolução Francesa
  • período napoleónico
  • 1848
  • 1989

Temas

  • revolução
  • liberalismo
  • nacionalismo
  • socialismo
  • democracia
  • república
  • monarquia
  • urbanização
  • industrialização
  • sufrágio
  • comunicação social
  • movimentos operários

Eventos

  • Primavera dos Povos
  • Revoluções de 1848
  • Revolução Francesa de 1789
  • Revolução de Julho de 1830
  • Queda das ditaduras comunistas de 1989
  • Primeira Guerra Mundial
  • invasão do Palácio das Tulherias
  • insurreição de junho de 1848
  • campanha dos banquetes

Guerras e conflitos

  • guerras napoleónicas
  • guerras liberais portuguesas
  • Primeira Guerra Mundial

Livros citados

  • A Educação Sentimental
  • Guerra e Paz
  • Manifesto do Partido Comunista