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Nº 26431 de julho de 202445:49análise histórica

A Primeira Guerra foi uma tragédia evitável?

Análise das causas da Primeira Guerra Mundial, discutindo como uma guerra que ninguém desejava nem esperava acabou por acontecer e durar quatro anos. Rui Ramos argumenta que três factores foram decisivos: a instabilidade do equilíbrio de poder entre grandes potências, o sistema de alianças e mobilizações militares que criou um efeito de dominó, e a convicção errada de todos os lados de que teriam uma guerra breve e decisiva, o que paradoxalmente prolongou o conflito.

Ideias principais

  1. A Primeira Guerra Mundial não foi desejada nem esperada na forma como ocorreu: os líderes europeus eram cosmopolitas moderados, não nacionalistas fanáticos, e estavam aterrorizados com a perspectiva de guerra.
  2. Três razões explicam o eclodir da guerra: a percepção de instabilidade no equilíbrio de poder entre potências emergentes (Alemanha, Rússia, EUA, Japão), o sistema de alianças que criou dois blocos antagónicos, e os planos de mobilização militar que funcionavam como um mecanismo automático de escalada.
  3. Alemães e aliados tinham visões diferentes mas igualmente optimistas da guerra: os alemães apostavam numa batalha decisiva rápida ao estilo prussiano, enquanto os aliados confiavam num bloqueio económico que forçaria a rendição alemã em poucos meses.
  4. A guerra durou quatro anos precisamente porque ambos os lados mantiveram a convicção de que estavam prestes a ganhar: os alemães acreditavam que mais uma ofensiva traria a vitória, os aliados que o bloqueio estava a funcionar e a Alemanha estava a quebrar.
  5. O conflito não tinha lógica ideológica mas apenas geoestratégica, juntando no mesmo bloco a república francesa com a autocracia russa, o que invalidou os argumentos propagandísticos posteriores de ambos os lados sobre lutar pela democracia ou pela cultura.

Resumo do episódio

Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares debruçam-se sobre uma das questões mais debatidas da historiografia contemporânea: como foi possível que a Primeira Guerra Mundial, um conflito que ceifou cerca de dez milhões de soldados e quase oito milhões de civis, tivesse eclodido sem que ninguém a desejasse verdadeiramente nem a tivesse previsto com clareza? O ponto de partida é a observação, partilhada por historiadores como Christopher Clark e Niall Ferguson, de que se tratou de uma catástrofe em grande medida acidental - o maior erro colectivo da história das relações internacionais, na formulação de Ferguson.

Rui Ramos começa por desfazer alguns dos lugares-comuns habituais sobre as causas da guerra. O nacionalismo e o militarismo são frequentemente apontados como responsáveis, e com alguma razão: sem a identificação das populações com a nação e sem os exércitos de massas assentes no serviço militar obrigatório, teria sido impossível mobilizar dezenas de milhões de homens durante quatro anos. Contudo, os verdadeiros decisores - os políticos, diplomatas e soberanos da Alemanha, Áustria-Hungria, Rússia, França e Inglaterra - não eram fanáticos nacionalistas nem militaristas. Eram cavalheiros cosmopolitas, que falavam francês entre si, viajavam pela Europa e, nos dias que antecederam a guerra, estavam manifestamente em pânico. Os próprios imperadores - o russo Nicolau II e o alemão Guilherme II, primos entre si - trocavam correspondência frenética tentando travar o conflito. Nem sequer os militares estavam ansiosos por entrar em guerra: como nota o historiador, os generais raramente se consideram suficientemente preparados.

A primeira grande razão para a guerra ter acontecido prende-se com a percepção generalizada de instabilidade e desequilíbrio entre as grandes potências. Desde 1870, o surgimento do Império Alemão transformara radicalmente o mapa europeu; a Rússia industrializava-se a ritmo acelerado; os Estados Unidos e o Japão afirmavam-se como potências mundiais. Neste contexto de mudança acelerada, prevalecia a ideia darwinista de que os conflitos entre nações eram inevitáveis e até necessários para estabelecer quem mandava - tal como acontecera na guerra franco-prussiana de 1870 ou na Guerra dos Sete Anos no século XVIII.

A segunda razão tem uma dimensão diplomática e outra militar. Do ponto de vista diplomático, a Europa estava dividida em dois blocos de alianças - a Tríplice Aliança (Alemanha, Áustria-Hungria e Itália) e os futuros Aliados (França, Rússia e Inglaterra) - sem qualquer coerência ideológica, mas com um efeito de encadeamento letal: qualquer conflito localizado tendia a arrastar todas as potências. Foi exactamente o que aconteceu depois do assassinato do arquiduque Francisco Fernando em Sarajevo, em Junho de 1914. Do ponto de vista militar, a necessidade de mobilizar primeiro - para não ficar em desvantagem - criava uma lógica de aceleração que tornava a guerra quase automática. O historiador A.J.P. Taylor sintetizou-o com ironia: a culpa foi dos horários dos comboios.

A terceira razão, e talvez a mais decisiva para explicar a duração do conflito, é que ninguém antecipou o tipo de guerra que se seguiria. Os alemães esperavam repetir a táctica prussiana da batalha decisiva e rápida - derrotar a França em semanas, depois voltarem-se para a Rússia. Os Aliados apostavam num bloqueio naval e económico que asfixiaria a Alemanha em poucos meses. Ambos os lados entraram convictos de que iriam ganhar rapidamente. Quando nenhum dos planos resultou, nenhum dos beligerantes concluiu que a estratégia era errada; todos convenceram-se de que bastava aguentar mais um pouco. A promessa de novas armas - tanques, submarinos, aviões - alimentava a esperança de uma viragem decisiva que justificasse continuar. Foi assim que uma guerra que todos imaginavam breve se prolongou por quatro anos, destruindo uma geração inteira, arruinando as finanças europeias e criando as condições para o comunismo, o fascismo e, em última análise, a Segunda Guerra Mundial. Ninguém a quis, ninguém a esperou - e o mundo nunca mais foi o mesmo.

Personagens

  • Christopher Clark
  • Niall Ferguson
  • Otto von Bismarck
  • Nicolau II
  • Guilherme II
  • A.J.P. Taylor
  • Charles Darwin
  • Frederico II da Prússia
  • Helmuth von Moltke

Lugares/Países

  • Alemanha
  • Áustria-Hungria
  • Rússia
  • França
  • Inglaterra
  • Itália
  • Sérvia
  • Bósnia-Herzegovina
  • Bélgica
  • Estados Unidos
  • Japão
  • Espanha
  • Grécia
  • Bulgária
  • Roménia
  • Marrocos
  • Prússia
  • Império Otomano

Épocas

  • Primeira Guerra Mundial
  • século XIX
  • século XX
  • século XVIII
  • 1914-1918
  • Belle Époque
  • primeira globalização

Temas

  • guerra
  • diplomacia
  • militarismo
  • nacionalismo
  • imperialismo
  • alianças militares
  • tecnologia militar
  • bloqueio naval
  • mobilização militar
  • relações internacionais
  • darwinismo social
  • industrialização

Eventos

  • assassinato do arquiduque em Sarajevo
  • Revolução Bolchevista
  • Guerra Franco-Prussiana
  • Guerra dos Sete Anos
  • guerras dos Balcãs
  • formação do Império Alemão
  • República de Weimar

Guerras e conflitos

  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra Franco-Prussiana
  • Guerra dos Sete Anos
  • guerras dos Balcãs
  • Guerra Russo-Japonesa

Livros citados

  • Os Sonâmbulos (Christopher Clark)