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Nº 37622 de setembro de 20261h17análise histórica

A revolução de Setembro e o fim do devorismo

O episódio analisa o período do devorismo (1834-1836) após a vitória liberal na guerra civil portuguesa, caracterizado pela acusação aos governos de ocuparem o Estado e distribuírem recursos aos amigos políticos. A Revolução de Setembro de 1836, desencadeada por guardas nacionais armadas, derrubou os chamados 'chamorros' e instalou um regime setembrista, inaugurando um ciclo de violência política que duraria até 1851. O episódio mostra como as divisões entre liberais (palmelistas, saldanhistas e amigos de D. Pedro) foram mais profundas que a própria oposição a D. Miguel.

Ideias principais

  1. O liberalismo português vitorioso em 1834 estava profundamente dividido em três correntes incompatíveis: os palmelistas (monarquia à britânica), os saldanhistas (monarquia republicana) e os amigos de D. Pedro ou 'chamorros' (republicanos convertidos ao poder real), que se combatiam mutuamente com mais intensidade do que aos miguelistas.
  2. A acusação de 'devorismo' contra os governos de José da Silva Carvalho e Agostinho José Freire era em parte demagógica: embora ocupassem o Estado com partidários, as grandes vendas de bens nacionais ocorreram depois de 1836, e Carvalho era tecnicamente o mais competente dos políticos liberais.
  3. A Revolução de Setembro de 1836 inaugurou o precedente do uso da violência armada (guardas nacionais) para alternar no poder, criando um ciclo de revoltas militares e golpes que duraria quinze anos, com cartistas e setembristas radicalizados a imitar-se mutuamente.
  4. As guardas nacionais de Lisboa (10-13 mil homens armados numa cidade de 200 mil) tornaram-se uma força política autónoma de classe média que aterrorizou a corte, humilhou D. Maria II publicamente e assassinou Agostinho José Freire, criando um ambiente comparável ao Terror da Revolução Francesa.
  5. A Constituição de 1838 foi uma tentativa falhada de compromisso entre a Carta de 1826 e a Constituição de 1822, mas a polarização entre setembristas e cartistas manteve-se até à Regeneração de 1851, consagrando a violência como método de alternância política em vez das eleições.

Resumo do episódio

Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares debruçam-se sobre o chamado «devorismo» — a acusação de que os grupos dominantes saídos da vitória liberal de 1834 utilizavam o poder político para se apoderar dos recursos do Estado — e sobre a Revolução de Setembro de 1836, que pôs fim formal a esse período. A pergunta de partida é simples: o que era o devorismo e como é que ele desembocou numa revolução?

Para responder, Rui Ramos começa por mostrar que o campo liberal, após derrotar D. Miguel em maio de 1834, estava longe de ser um bloco coeso. Existiam pelo menos três correntes com visões radicalmente distintas. A corrente do Duque de Palmela defendia a Carta Constitucional de 1826 e um modelo próximo da monarquia britânica, com rei forte e parlamento bicameral. Os chamados saldanhistas, cujos principais porta-vozes eram os irmãos Passos — Manuel da Silva Passos (Passos Manuel) e José da Silva Passos —, aspiravam a uma «monarquia republicana» à imagem da Constituição de 1822, em que o parlamento concentrasse quase todo o poder. Por fim, os «amigos de Dom Pedro», conhecidos pejorativamente como «chamorros», eram antigos ministros de 1821-23, republicanos convertidos à monarquia forte por entenderem que só um executivo robusto poderia impor reformas liberais. As figuras centrais deste grupo eram José da Silva Carvalho, ministro da Fazenda habilidoso e liberal convicto, e Agostinho José Freire, ministro do Reino, brusco e arrogante mas eficaz.

Com a morte de D. Pedro em setembro de 1834 e a subsequente aclamação de D. Maria II — então com 15 anos —, os chamorros ficaram politicamente expostos, pois a corte em torno da jovem rainha era-lhes hostil. Ainda assim, mantiveram-se no poder durante dois anos, ora cooptando Palmela, ora chegando a acordos com Saldanha. A sua posição assentava em dois trunfos: eram os mais capazes administrativamente e os que tinham melhores contactos financeiros internacionais, indispensáveis para sustentar um Estado com receitas muito inferiores às despesas. A acusação de devorismo — a ideia de que reservavam empregos públicos e bens nacionais nacionalizados (das ordens religiosas extintas e da Coroa) para os seus amigos — era sobretudo uma arma política da oposição, em especial dos irmãos Passos, que a usavam para unir correntes muito díspares num programa mínimo comum. Rui Ramos reconhece que havia favoritismo na distribuição de lugares, como era aliás prática geral, mas relativiza a dimensão real das alegadas «negociatas» com os bens nacionais.

O detonador da Revolução de Setembro foi a confluência de dois fatores: a revolta liberal em Espanha no início de 1836, que inspirou os Passos, e uma crise financeira internacional que agravou o défice português — cerca de 40% da despesa ficava por cobrir pela receita — e impediu novos créditos externos, tornando insustentável o pagamento ao exército. A 9 de setembro de 1836, a chegada a Lisboa dos deputados do Porto, recebidos por uma multidão entusiasta e pelas guardas nacionais armadas, desencadeou a revolta. Os regimentos regulares recusaram marchar contra as milícias e aderiram aos amotinados, em grande parte por falta de pagamento. O governo capitulou e D. Maria II viu-se obrigada a nomear um novo executivo liderado pelo Visconde de Sá da Bandeira, com Passos Manuel como ministro do Reino. A rainha foi ainda compelida a jurar a Constituição de 1822.

A tentativa de contrarrevolução em novembro de 1836 — a «Belenzada» — falhou porque os britânicos, apesar de simpatizantes da rainha, não quiseram arriscar um confronto com a esquadra francesa fundeada no Tejo, que apoiava os setembristas. O episódio mais dramático deste período foi o assassínio de Agostinho José Freire por guardas nacionais, cujo cadáver foi arrastado pelas ruas de Lisboa, evocando os piores momentos da Revolução Francesa. O ambiente de violência política mobilizou os governos setembristas a procurarem uma solução de compromisso: em 1838 foi aprovada uma nova Constituição que combinava elementos da Carta de 1826 — duas câmaras, veto régio absoluto — com alguns traços da Constituição de 1822, nomeadamente sufrágio mais alargado e eleição directa. Nesse mesmo ano, o exército desarmou pela força as guardas nacionais no Rossio, impondo a ordem «ordeira» dos setembristas moderados.

Personagens

  • D. Miguel
  • D. Pedro IV
  • D. Maria II
  • Duque de Palmela
  • Manuel da Silva Passos (Passos Manuel)
  • José da Silva Passos
  • General Saldanha
  • José da Silva Carvalho
  • Agostinho José Freire
  • Oliveira Martins
  • Duque da Terceira
  • Príncipe Augusto
  • D. Fernando II
  • Palmerston
  • Mendizábal
  • Joaquim António de Aguiar
  • Visconde de Sá da Bandeira
  • Marquês de Fronteira
  • Costa Cabral
  • Vieira de Castro
  • Rainha Vitória
  • Príncipe Alberto
  • Rei Leopoldo I da Bélgica
  • D. João I
  • Adam Smith
  • Voltaire

Lugares/Países

  • Portugal
  • Brasil
  • Inglaterra
  • Grã-Bretanha
  • Espanha
  • França
  • Bélgica
  • Alemanha
  • Áustria
  • Estados Unidos

Épocas

  • século XIX
  • década de 1820
  • década de 1830
  • Revolução Francesa
  • Idade Média

Temas

  • liberalismo
  • guerra civil
  • constitucionalismo
  • monarquia
  • república
  • revolução
  • maçonaria
  • nacionalização
  • desamortização
  • protecionismo
  • militarismo
  • violência política
  • eleições
  • dívida pública
  • anticlericalismo

Eventos

  • Guerra Civil Portuguesa (1832-1834)
  • Revolução de Setembro de 1836
  • Belenzada (1836)
  • Constituição de 1822
  • Carta Constitucional de 1826
  • Constituição de 1838
  • Extinção das Ordens Religiosas (1834)
  • Nacionalização dos Bens da Coroa
  • Revolução Cartista do Porto (1842)
  • Regeneração de 1851
  • Revolta do Remexido

Guerras e conflitos

  • Guerra Civil Portuguesa (1832-1834)
  • Guerra Civil Espanhola (carlistas)

Livros citados

  • Os Devoristas (Vasco Pulido Valente)
  • A Revolução Liberal e os Devoristas (Vasco Pulido Valente)