Nº 31920 de agosto de 202541:08efeméride
A Segunda Guerra Mundial acabou há 80 anos
O episódio marca os 80 anos do fim da Segunda Guerra Mundial no Pacífico (15 de agosto de 1945) e analisa as consequências da rendição japonesa. Rui Ramos descreve a ocupação americana do Japão sob MacArthur, que transformou radicalmente o país através de reformas políticas, económicas e sociais, levando ao milagre económico japonês. Em contraste, o resto da Ásia viveu processos de descolonização violentos, guerras civis e o estabelecimento de ditaduras, num contexto de início da Guerra Fria.
Ideias principais
- A ocupação americana do Japão (1945-1952) foi um caso único de nation building bem-sucedido, ao contrário da Alemanha dividida, com MacArthur exercendo poder absoluto mas mantendo o imperador como símbolo de continuidade.
- MacArthur revolucionou o Japão através de reformas radicais: nova Constituição, separação Estado-religião, voto feminino, reforma agrária, destruição de monopólios, novo sistema educativo e até simplificação da escrita japonesa.
- O milagre económico japonês foi possível pela combinação de base industrial desenvolvida, população escolarizada, acesso aos mercados ocidentais e investimento americano, com o PIB de 1939 recuperado já em 1955 e crescimento anual de 10% entre 1954-1973.
- A descolonização na Ásia correu muito pior que no Japão: movimentos nacionalistas armados, apoio soviético, resistência das potências europeias (Holanda, França, Grã-Bretanha) levaram a guerras prolongadas, massacres e ditaduras generalizadas.
- A perda da China para o comunismo em 1949 criou paranoia nos Estados Unidos e determinou que a Guerra Fria na Ásia seria quente (Coreia, Vietnã), ao contrário da Europa onde permaneceu estática mas sem confronto direto.
Resumo do episódio
Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares assinalam os oitenta anos do fim da Segunda Guerra Mundial no Teatro do Pacífico, assinalado oficialmente a 15 de agosto de 1945 com o anúncio do imperador Hirohito - conhecido no Japão como imperador Showa - de que o país aceitava os termos da Declaração de Potsdam. Os apresentadores sublinham que o fim formal das hostilidades não coincidiu com o fim de todos os combates: o exército soviético continuou a combater forças japonesas na Manchúria até setembro, e a rendição oficial só foi assinada a 2 de setembro de 1945, a bordo do couraçado americano Missouri, por delegados do governo e das forças armadas japonesas.
A discussão centra-se, em seguida, na ocupação americana do Japão, liderada pelo general Douglas MacArthur enquanto Comandante Supremo das Forças Aliadas. Ao contrário do que sucedeu na Alemanha - dividida entre as quatro potências vencedoras e com o governo dissolvido -, o Japão ficou sob controlo exclusivamente americano e manteve o seu governo e as suas instituições em funcionamento, ainda que sob tutela estrita. Uma das decisões mais significativas foi a proteção do imperador: os americanos decidiram preservar a figura imperial como âncora de estabilidade social, dissociando deliberadamente Hirohito das responsabilidades pela guerra e impedindo que fosse incriminado no Tribunal Militar Internacional de Tóquio. Os acusados japoneses assumiram individualmente culpas que, em parte, pertenciam também ao imperador, numa inversão do comportamento observado em Nuremberga, onde os réus nazis tentaram transferir responsabilidades para outros.
MacArthur empreendeu então uma transformação profunda da sociedade japonesa: separou o Estado shintō da religião, concedeu o direito de voto às mulheres, legalizou os sindicatos, saneou duzentos mil funcionários associados ao militarismo, reformou o sistema de ensino segundo o modelo americano, simplificou a escrita japonesa, realizou uma reforma agrária que distribuiu terra por pequenos camponeses e impôs, em 1947, uma nova Constituição - ainda vigente - que transformou o imperador num chefe de Estado de monarquia constitucional e proibiu o Japão de ter forças armadas. Esta última disposição geraria uma situação paradoxal: os próprios Estados Unidos, que impuseram a Constituição, viriam mais tarde a exigir a sua revisão para que o Japão pudesse rearmar-se, sem êxito.
O resultado económico desta reconfiguração foi notável. Em 1955 o Japão já havia recuperado o nível de rendimento per capita anterior à guerra, e entre 1954 e 1973 a economia cresceu a uma taxa anual de dez por cento. Os apresentadores atribuem este desempenho não a nenhum milagre, mas à base industrial consolidada desde o século XIX, a uma população muito escolarizada e ao acesso privilegiado aos mercados ocidentais sob a proteção americana - um percurso semelhante ao da Alemanha Ocidental na Europa e, posteriormente, ao da Coreia do Sul.
O contraste com o resto da Ásia foi, porém, dramático. As potências europeias - França, Holanda, Grã-Bretanha e Portugal - tentaram regressar aos seus impérios coloniais, mas encontraram movimentos nacionalistas armados que, durante a ocupação japonesa, tinham alimentado a expectativa da independência. A Holanda mobilizou duzentos e vinte mil homens para tentar reimpor-se na Indonésia, rendendo-se em 1949; a França necessitou de cerca de quatrocentos e setenta mil homens na Indochina, acabando derrotada em 1954; a Grã-Bretanha abandonou a Índia em 1947 por manifesta impossibilidade financeira e militar de resistir ao movimento de desobediência civil. A União Soviética apoiou ativamente estes movimentos de libertação, criando dificuldades políticas internas aos governos europeus. Na China, a guerra civil entre nacionalistas e comunistas retomou após 1945, terminando com a vitória de Mao Tsé-Tung em 1949 - um trauma enorme para os Estados Unidos, que haviam entrado na guerra precisamente para impedir a dominação japonesa da China. Este trauma alimentou a paranoia anticomunista do senador McCarthy e precipitou a intervenção americana na Guerra da Coreia em 1950. Ao contrário da Europa, onde a Guerra Fria foi uma guerra estática de esferas de influência, na Ásia traduziu-se em guerras convencionais localiz
Personagens
- Hirohito
- Douglas MacArthur
- Adolf Hitler
- Mao Tsé-Tung
- Chiang Kai-shek
- Joseph Stalin
- Sukarno
Lugares/Países
- Japão
- Estados Unidos
- China
- Coreia
- Taiwan
- Filipinas
- Alemanha
- União Soviética
- França
- Holanda
- Grã-Bretanha
- Índia
- Paquistão
- Indonésia
- Vietnã
- Laos
- Camboja
- Birmânia
- Malásia
- Singapura
- Timor-Leste
- Itália
- Bélgica
- Portugal
- Argélia
- Okinawa
- Manchúria
Épocas
- Segunda Guerra Mundial
- Pós-Segunda Guerra Mundial
- Guerra Fria
- Ocupação do Japão (1945-1952)
- Década de 1940
- Década de 1950
- Década de 1960
- Século XIX
Temas
- guerra
- ocupação militar
- nation building
- reforma constitucional
- descolonização
- Guerra Fria
- nacionalismo
- comunismo
- imperialismo
- colonialismo
- milagre económico
- reforma agrária
- industrialização
- independência
- guerras civis
- ditaduras
- separação Igreja-Estado
- direitos das mulheres
Eventos
- Rendição do Japão
- Declaração de Potsdam
- Bombardeamentos de Hiroshima e Nagasaki
- Assinatura da rendição no USS Missouri
- Jogos Olímpicos de Tóquio 1964
- Tribunal Militar Internacional de Tóquio
- Independência da Índia (1947)
- Independência da Indonésia (1949)
- Tomada do poder pelos comunistas na China (1949)
- Golpe de Estado na Indonésia (1965)
- Partilha Índia-Paquistão
- Movimento Quit India
Guerras e conflitos
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra da Coreia
- Guerra da Indochina
- Guerra do Vietnã
- Guerra Civil Chinesa
- Guerra de Independência da Indonésia