Nº 911 de setembro de 201943:45resposta a ouvintes
A venda da Gronelândia e os alemães que mudaram Portugal
O episódio debate a evolução histórica da conceção de território e soberania, partindo da proposta de Trump de comprar a Gronelândia. Rui Ramos explica como os territórios passaram de património dos reis (alienável e divisível) a património inalienável das nações, através do nacionalismo do século XIX. O episódio inclui ainda perguntas de ouvintes sobre a crise de 1580, a influência cultural dos Saxe-Coburgo-Gota em Portugal e o mito da monarquia reacionária versus república progressista.
Ideias principais
- A venda de territórios entre Estados era prática comum até ao século XIX, quando o nacionalismo tornou os territórios patrimónios inalienáveis das nações, investidos de valor sentimental e identitário.
- A sucessão de Filipe II em Portugal (1580) foi simultaneamente jurídica, financeira (resgate de prisioneiros de Alcácer-Quibir) e militar, com a conquista por tropas veteranas do Duque de Alba.
- Os Saxe-Coburgo-Gota transformaram profundamente a cultura da corte portuguesa, introduzindo valores familiares burgueses, mecenato artístico (Palácio da Pena, restauro dos Jerónimos) e costumes como a árvore de Natal.
- A ideia de que a República de 1910 foi mais progressista que a monarquia constitucional é um mito: a República diminuiu o sufrágio, reprimiu violentamente sindicalistas e manteve muitos problemas políticos da monarquia.
- O preconceito do progresso histórico leva-nos a assumir erradamente que regimes mais recentes são sempre superiores aos anteriores, obscurecendo análises políticas rigorosas das transições de regime.
Resumo do episódio
Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares partem do desejo manifestado por Donald Trump de comprar a Gronelândia para explorar uma questão histórica mais ampla: porque razão a compra e venda de territórios entre Estados, prática corrente durante séculos, se tornou hoje impensável? Os apresentadores recordam que vastas porções do continente americano foram adquiridas pelos Estados Unidos ao longo do século XIX - a Louisiana aos franceses, o Alasca aos russos, as ilhas Virgens aos dinamarqueses -, e interrogam-se sobre o que mudou na relação entre os poderes políticos e os territórios que governam.
Rui Ramos explica que, no passado, o território era concebido como um património do soberano, divisível e transacionável tal como qualquer outro bem. A partir do século XIX, com o desenvolvimento do Estado-nação e da cultura nacionalista, essa lógica patrimonialista deu lugar a uma identificação emocional e simbólica das populações com a sua terra. As paisagens tornaram-se evocadoras da pátria, os cidadãos passaram a sentir os territórios como inalienáveis, e as constituições liberais consagraram juridicamente esse princípio. Em Portugal, a Constituição de 1822 já afirmava que a nação não renunciava a qualquer porção do seu território, fórmula que se manteve até à Constituição de 1976. Esta transformação tornou o mundo menos flexível na resolução de conflitos e alimentou disputas como as das terras irredentistas italianas ou a questão da Alsácia-Lorena entre França e Alemanha. No caso português, essa lógica estendeu-se também às colónias, como ilustra a reação exaltada ao ultimato britânico de 1890, quando Portugal lamentou a perda de territórios africanos que, na prática, nunca chegara a ocupar efetivamente.
A segunda grande questão do episódio é levantada por um ouvinte: em que medida a crise financeira portuguesa de finais do século XVI e a integração na coroa espanhola de Filipe II constituíam uma espécie de "troika do século XVI"? Rui Ramos reconhece que o Estado português gastava sistematicamente mais do que recebia, em parte porque os seus rendimentos dependiam de rotas e territórios distantes que exigiam cara manutenção militar. Após a derrota de Alcácer-Quibir em 1578, o resgate dos milhares de prisioneiros capturados pelos marroquinos agravou a situação. Filipe II aproveitou-se desta vulnerabilidade, ajudando famílias fidalgas a resgatar os seus cativos em troca de apoio político. A sucessão ao trono português combinou assim argumentos jurídicos, pressão financeira e força militar - o exército do Duque de Alba, veterano das campanhas dos Países Baixos, concentrou-se na fronteira e entrou em Portugal em 1580, sem saquear Lisboa mas entregando os seus arredores à pilhagem.
Na segunda parte do episódio, a partir da pergunta de um ouvinte sobre o casamento de D. Maria II com Fernando de Saxe-Coburgo-Gota, discute-se o impacto cultural desta dinastia alemã em Portugal. Rui Ramos sublinha que os Saxe-Coburgo-Gota dominavam o xadrez dinástico europeu do século XIX, reinando também na Bélgica e no Reino Unido. Em Portugal, D. Fernando II trouxe novos costumes cortesãos, um modelo de família real como paradigma burguês de domesticidade e educação, uma sensibilidade artística que está na origem do Palácio da Pena e da restauração do Mosteiro dos Jerónimos, e até tradições nórdicas como a árvore de Natal. O seu filho D. Pedro V identificava-se profundamente com o primo Alberto de Inglaterra, partilhando o mesmo ideal de austeridade e rigor intelectual.
O episódio encerra com uma reflexão sobre a imagem da monarquia constitucional portuguesa como regime retrógrado em contraste com a República progressista. Os apresentadores consideram esta narrativa uma caricatura historicamente infundada: a monarquia liberal do século XIX foi responsável por reformas profundas, enquanto a República, após 1910, reduziu o sufrágio, reprimiu violentamente os sindicatos e não resolveu os problemas políticos que alegadamente justificaram a mudança de regime. A persistência deste equívoco é atribuída a um preconceito cultural enraizado - a crença de que os acontecimentos mais recentes representam necessariamente um estádio mais avançado de civilização.
Personagens
- Donald Trump
- D. Afonso Henriques
- D. Sancho I
- D. Afonso II
- Napoleão Bonaparte
- D. Pedro V
- D. Sebastião
- Filipe II de Espanha
- Duque de Alba
- D. Fernando de Toledo
- Marquês de Santa Cruz
- D. António (Prior do Crato)
- D. Diego da Silva
- D. Maria II
- D. Fernando II
- Leopoldo I da Bélgica
- Alberto de Saxe-Coburgo-Gota
- Rainha Vitória
- Carlota do México
- Eduardo VII do Reino Unido
- D. Carlos I
- Conde de Mafra
- Ramalho Ortigão
- Alfredo Kale
- D. Manuel II
- D. Luís I
- D. Miguel I
- Marechal Carmona
- António Costa
- Marcelo Rebelo de Sousa
Lugares/Países
- Estados Unidos
- Gronelândia
- Dinamarca
- França
- Rússia
- Portugal
- Brasil
- Espanha
- Alemanha
- Áustria
- Itália
- Inglaterra
- Reino Unido
- Holanda
- Timor
- Angola
- Moçambique
- Marrocos
- Flandres
- Bélgica
- México
- Alsácia
- Lorena
- Andaluzia
- Minho
Épocas
- século XIX
- século XX
- século XVI
- século XVII
- século XVIII
- Idade Contemporânea
- Estado Novo
- Primeira República
Temas
- territorialidade
- soberania nacional
- nacionalismo
- diplomacia
- constituições
- monarquia
- dinastia
- guerra
- colonialismo
- escravatura
- resgate de prisioneiros
- sucessão dinástica
- invasão militar
- património cultural
- família real
- educação
- republicanismo
- socialismo
- direitos laborais
- sufrágio
- progressismo político
- cultura política
Eventos
- Compra da Louisiana
- Compra do Alasca
- Compra das Ilhas Virgens Americanas
- Batalha de Alcácer-Quibir
- Crise de sucessão de 1580
- Ultimato inglês de 1890
- Guerra Franco-Prussiana (1870-1871)
- Primeira Guerra Mundial
- Implantação da República Portuguesa (1910)
- Monarquia do Norte (1919)
Guerras e conflitos
- Guerra de 1870-71 (França-Alemanha)
- Primeira Guerra Mundial
- Guerras civis liberais
- Guerra da sucessão portuguesa (1580)