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Nº 14627 de abril de 202253:35efeméride

A venda do Alasca e a guerra das Malvinas

Episódio dedicado a dois eventos históricos relacionados com territórios disputados: a venda do Alasca pela Rússia aos Estados Unidos em 1867 por 7,4 milhões de dólares, e a Guerra das Malvinas de 1982 entre Argentina e Reino Unido. Ambos os casos ilustram a evolução da mentalidade sobre soberania territorial, desde uma época em que territórios eram transacionados como propriedade até um período onde pequenos arquipélagos motivaram conflitos armados por razões geopolíticas e simbólicas.

Ideias principais

  1. A venda de territórios entre Estados era prática comum no século XIX, reflectindo uma mentalidade utilitarista onde grandes extensões de terra valiam menos que territórios produtivos como ilhas caribenhas produtoras de açúcar.
  2. A expansão russa para a América foi continental, através dos rios da Sibéria, motivada pelo comércio de peles, nunca envolvendo mais de mil colonos russos no Alasca, território considerado pouco promissor até à descoberta de ouro (anos 1890) e petróleo (1968).
  3. A Guerra das Malvinas resultou de cálculos errados de ambos os lados: a ditadura argentina julgou que o Reino Unido, em crise económica, não reagiria à invasão; Margaret Thatcher viu na defesa das ilhas uma oportunidade de afirmar a revitalização britânica e validar as suas políticas de reforma.
  4. A vitória britânica teve consequências políticas decisivas: assegurou a reeleição esmagadora de Thatcher em 1983 e precipitou a queda da ditadura militar argentina, iniciando um efeito dominó de democratização na América Latina (Uruguai 1985, Brasil 1985, Chile 1990).
  5. O Reino Unido fundamentou a sua posição não na ocupação territorial mas na autodeterminação: os 3 mil habitantes das Malvinas, descendentes de colonos britânicos, queriam permanecer britânicos, princípio confirmado em referendo de 2013 com 99,8% de aprovação.

Resumo do episódio

Este episódio de *E o Resto é História* aborda dois temas históricos aparentemente distantes no tempo, mas unidos por uma reflexão comum sobre a forma como os Estados atribuem valor ao território: a venda do Alasca pelos russos aos Estados Unidos em 1867 e a Guerra das Malvinas de 1982.

Rui Ramos começa por explicar como a Rússia chegou à América do Norte. Ao contrário das potências atlânticas europeias, que exploraram o mundo através dos oceanos, a expansão russa fez-se por terra - ou melhor, pelos rios da Ásia -, impulsionada sobretudo por caçadores e comerciantes de peles. Em meados do século XVII os russos chegaram ao Pacífico e, pouco depois, cruzaram o estreito que hoje tem o nome do navegador dinamarquês Vitus Bering e atingiram o Alasca. A presença russa naquele território nunca foi expressiva - nunca ultrapassou os mil habitantes num território de 1,5 milhões de quilómetros quadrados - e a atração económica resumia-se às peles de lontra, recurso que a caça excessiva estava a esgotar.

A decisão de vender o Alasca em 1867, por 7,4 milhões de dólares, resultou de uma convergência de factores. A Rússia saíra derrotada da Guerra da Crimeia e temia que, num novo conflito com a Inglaterra, os britânicos se apoderassem do território a partir do Canadá, ficando assim perigosamente próximos da Sibéria. Além disso, a Rússia estava mais interessada em expandir-se na região do rio Amur, na Ásia. Os apresentadores sublinham que esta venda não era tão estranha quanto parece hoje: naquela época predominava uma lógica de utilidade imediata sobre os territórios, e os Estados Unidos tinham eles próprios crescido através de compras semelhantes, como a da Louisiana a Napoleão em 1803 ou de uma faixa de território ao México. A hostilidade de alguns americanos à compra do Alasca - apelidada de "jardim de ursos polares" - explica-se pelo custo e pela aparente inutilidade do território, numa época em que ainda não havia indícios de ouro nem de petróleo. Só nos anos 1890 haveria uma corrida ao ouro e só em 1968 seria descoberto petróleo.

A segunda parte do episódio é dedicada à Guerra das Malvinas, que em 1982 opôs a Argentina ao Reino Unido durante 74 dias, em torno de um arquipélago de 12 mil quilómetros quadrados com cerca de três mil habitantes no Atlântico Sul. Ramos explica que a história de soberania sobre as ilhas é genuinamente disputada: franceses, espanhóis e ingleses ali estiveram intermitentemente desde o século XVIII, e foi apenas a partir dos anos 1830 que os britânicos as colonizaram de forma efectiva, com pastores escoceses que se dedicaram à criação de carneiros. A reivindicação argentina, retomada pelo general Perón nos anos 1950, baseia-se na sucessão do domínio espanhol.

Em 1982, a junta militar argentina, liderada pelo general Galtieri e confrontada com grave crise económica e crescente contestação interna, decidiu invadir as ilhas, calculando que o Reino Unido - enfraquecido por anos de declínio económico, greves e retirada imperial - não reagiria militarmente. O cálculo revelou-se errado. Margaret Thatcher, que desde 1979 tentava inverter o declínio britânico através de políticas de austeridade e liberalização económica muito contestadas, respondeu enviando uma força-tarefa de mais de 125 navios. Os apresentadores argumentam que a resposta de Thatcher não foi meramente oportunista: ela via na guerra a oportunidade de afirmar a viragem que pretendia impor ao país, e a vitória britânica em Junho de 1982 contribuiu decisivamente para a enorme maioria conservadora nas eleições de 1983.

Personagens

  • Luís Filipe Vieira
  • Pedro o Grande
  • Vitus Bering
  • Thomas Jefferson
  • Napoleão Bonaparte
  • Andrew Johnson
  • Juan Domingo Perón
  • Leopoldo Galtieri
  • Almirante Anaia
  • Margaret Thatcher
  • Augusto Pinochet
  • Ronald Reagan
  • François Mitterrand
  • José Cardoso Pires

Lugares/Países

  • Estados Unidos
  • Rússia
  • Alasca
  • Argentina
  • Reino Unido
  • Ilhas Malvinas/Falklands
  • França
  • Espanha
  • México
  • Louisiana
  • China
  • Sibéria
  • Canadá
  • Crimeia
  • Inglaterra
  • Índia
  • Afeganistão
  • Chile
  • Brasil
  • Uruguai
  • Cuba
  • Nicarágua
  • Portugal
  • África
  • Ásia
  • Pacífico
  • América Latina
  • Europa
  • Irlanda do Norte
  • Gibraltar
  • Grécia

Épocas

  • século XVI
  • século XVII
  • século XVIII
  • século XIX
  • século XX
  • anos 60 do século XIX
  • anos 80 do século XIX
  • anos 90 do século XIX
  • anos 50 do século XX
  • anos 60 do século XX
  • anos 70 do século XX
  • Guerra Fria
  • 1867
  • 1803
  • 1982

Temas

  • expansão territorial
  • venda de territórios
  • colonialismo
  • exploração comercial
  • comércio de peles
  • diplomacia
  • guerra
  • conflito armado
  • ditadura militar
  • democratização
  • geopolítica
  • Guerra Fria
  • liberalização económica
  • autodeterminação
  • soberania territorial

Eventos

  • Venda do Alasca
  • Compra da Louisiana
  • Guerra da Crimeia
  • Guerra Civil Americana
  • Guerra das Malvinas
  • Corrida ao ouro no Alasca
  • Partilha da África
  • Guerra Suja Argentina
  • Terceira vaga da democratização

Guerras e conflitos

  • Guerra da Crimeia
  • Guerra Civil Americana
  • Guerra das Malvinas
  • Segunda Guerra Mundial