Nº 11522 de setembro de 202140:54resposta a ouvintes
Afeganistão: um país muito diferente dos outros
Rui Ramos traça a história do Afeganistão desde a Antiguidade até à queda de Cabul em 2021, demonstrando que o país não é um território arcaico imutável mas sim um 'tabuleiro' geopolítico continuamente moldado por potências externas. Desfaz o mito do 'cemitério de impérios', mostrando que o Afeganistão conheceu múltiplos processos de modernização e ocidentalização ao longo do século XX, e que o colapso do regime apoiado pelos EUA segue o padrão histórico de realinhamento dos grupos locais em função do poder externo dominante.
Ideias principais
- O Afeganistão não é uma sociedade estagnada na Idade Média mas uma região que conheceu várias tentativas endógenas de modernização, incluindo constituições com sufrágio universal, direitos das mulheres e imprensa livre já em 1964.
- A resistência afegã aos invasores não resulta de um nacionalismo peculiar mas do facto de potências rivais apoiarem sistematicamente rebeldes contra qualquer ocupante, tornando o território num 'grande jogo' geopolítico desde o século XIX.
- O colapso rápido do regime apoiado pelos americanos em 2021 repete o padrão de 2001 com os talibãs: os grupos locais reorganizam-se em função de quem tem o apoio externo mais forte, neste caso o Paquistão, não de convicções ideológicas internas.
- O Afeganistão foi centro de civilização helenística na Antiguidade (reino de Bactria), onde se estudava Platão e se representava teatro grego, e não foi sempre muçulmano, tendo sido islamizado apenas no século XI por conquistadores persas.
- A discussão sobre nomes régios revela que o primeiro caso português de mudança de nome ao subir ao trono foi Sancho I, originalmente Martinho, porque um 'rei Martim' não soava a monarca ibérico credível numa monarquia recente que precisava de legitimidade dinástica.
Resumo do episódio
Este episódio de *E o Resto é História* começa com uma confissão bem-humorada: os apresentadores estavam de férias em agosto quando os talibãs retomaram o poder no Afeganistão, em 2021, e não puderam comentar o acontecimento na altura. Aproveitando uma pergunta de um ouvinte sobre como o Afeganistão se tornou campo de batalha da Guerra Fria e sobre a origem dos talibãs, Rui Ramos e João Miguel Tavares constroem uma análise histórica ampla do país, começando pela sua geografia e estrutura interna.
Rui Ramos apresenta o Afeganistão como uma região montanhosa da Ásia Central, com cerca de dez vezes a área de Portugal mas apenas três vezes a sua população, habitada por uma federação de etnias e línguas diferentes, unidas pela fé islâmica de matriz sunita. A comparação com a Suíça surge a propósito da fragmentação interna e da capacidade de resistir à absorção por potências vizinhas - embora, em vez de chocolate, o Afeganistão seja associado ao ópio. A independência afegã explica-se, em grande medida, pelo facto de os estados vizinhos - historicamente a Pérsia, a Rússia e o Império Britânico da Índia, hoje o Irão, a Rússia, a China e o Paquistão - nunca conseguirem entender-se sobre quem deveria controlar a região, acabando por apoiar revoltas internas sempre que um rival ganhava demasiada influência. Este equilíbrio instável ficou conhecido, no século XIX, como o "Grande Jogo" entre a Rússia e a Grã-Bretanha.
Um ponto central do episódio é a desmontagem do mito de que o Afeganistão seria uma sociedade arcaica, imune à modernidade. Rui Ramos recorda que o território foi, na Antiguidade, o centro do reino helenístico de Bactria, herdeiro da expansão de Alexandre o Grande, onde se falava grego e se estudava filosofia clássica. A islamização só chegou no século XI, trazida por conquistadores persas, e antes disso predominavam o hinduísmo e o budismo - daí as famosas estátuas budistas destruídas pelos talibãs em 2001. No século XX, vários governantes afegãos tentaram modernizar o país à semelhança do que faziam Atatürk na Turquia ou o Xá no Irão: o rei Amanullah Khan chegou a proibir a burca e a incentivar os homens a rapar a barba; em 1964, o rei Zahir Shah promulgou uma constituição com sufrágio universal, direitos para as mulheres e liberdade de imprensa. Em 1978, foram comunistas formados no Ocidente e na Índia a tomar o poder e a tentar laicizar o país - o que acabou por precipitar a intervenção soviética em 1979.
Na segunda parte do episódio, os apresentadores debatem por que razão o projeto americano de construção de uma democracia no Afeganistão, entre 2001 e 2021, falhou tão rapidamente. A explicação de Rui Ramos é estrutural: no Afeganistão, a legitimidade de qualquer regime depende menos do apoio interno da população do que do patrocinador externo que o sustenta. Quando os Estados Unidos anunciaram a retirada, os grupos políticos locais reorientaram-se para o poder que ainda tinha um padrinho forte - o Talibã, apoiado pelo Paquistão. O mesmo mecanismo explica a rapidez com que o próprio regime talibã colapsara em 2001, quando o Paquistão foi forçado a retirar o seu apoio. Longe de ser um povo naturalmente resistente ao estrangeiro, os afegãos revelam uma grande permeabilidade às influências externas, e o Afeganistão continua a ser, nas palavras dos apresentadores, um tabuleiro do Grande Jogo.
O episódio termina com uma pergunta de um ouvinte mais jovem sobre a mudança de nome dos reis na coroação. Rui Ramos explica que esta prática foi comum em várias civilizações asiáticas e em alguns reinos medievais europeus, sobretudo quando candidatos estrangeiros ao trono adoptavam nomes tradicionais locais para reforçar a sua legitimidade. Em Portugal, o único caso conhecido é o do segundo rei: o filho mais novo de D. Afonso Henriques chamava-se Martinho, nome considerado inadequado para um monarca ibérico, e mudou-o para Sancho, tornando-se Sancho I.
Personagens
- Alexandre o Grande
- Kemal Atatürk
- Reza Shah
- Amanullah Khan
- Mohammed Zahir Shah
- Platão
- Sófocles
- Eurípides
- Eduardo VII
- Eduardo VIII
- Jorge VI
- Afonso Henriques
- Infante Dom Henrique
- Sancho I
- Afonso II
- Afonso III
- Dom Dinis
- Afonso IV
- Dom Pedro
- Dom Fernando
- Dom João
- Dom Duarte
- Afonso V
- Afonso VI
- Dom João IV
- Júlio César
Lugares/Países
- Afeganistão
- Portugal
- União Soviética
- Estados Unidos da América
- Paquistão
- Irão
- Índia
- Turquia
- Arábia Saudita
- Rússia
- China
- Turcomenistão
- Uzbequistão
- Tajiquistão
- Grã-Bretanha
- Suíça
- Europa
- Japão
- Hungria
- Polónia
- Baviera
- França
- Espanha
- Castela
- Leão
- Navarra
Épocas
- século XIX
- século XX
- anos 80
- anos 20
- anos 60
- anos 70
- Antiguidade Clássica
- século I a.C.
- século IV a.C.
- século XI
- século XIII
- século XVIII
- Guerra Fria
- Segunda Guerra Mundial
- Idade Média
- Idade Moderna
Temas
- guerra
- geopolítica
- islamismo
- modernização
- ocidentalização
- imperialismo
- colonialismo
- comunismo
- fundamentalismo islâmico
- democracia
- nation building
- revolução
- tribos
- clãs
- monarquia
- direitos das mulheres
- secularismo
Eventos
- tomada de Cabul pelos talibãs
- invasão soviética do Afeganistão
- invasão americana do Afeganistão
- ocupação mongol
- Revolução de 1978 no Afeganistão
Guerras e conflitos
- Guerra Fria
- invasão soviética do Afeganistão (1979-1988)
- Guerra do Afeganistão (2001-2021)
- invasão mongol (1219)
- Grande Jogo (século XIX)