Nº 3511 de março de 202044:09resposta a ouvintes
Afonso VI, o rei enclausurado (e não foi um vírus)
O episódio analisa a deposição de Afonso VI pelo irmão Pedro II em 1668, num contexto de Guerra da Restauração, envolvendo lutas de poder na corte, anulação de casamento e prisão do rei. A segunda parte aborda a continuidade da magistratura portuguesa antes e depois do 25 de Abril, a neutralidade ibérica na Segunda Guerra Mundial e a participação de Almeida Garrett no Cerco do Porto.
Ideias principais
- Afonso VI foi deposto pelo irmão Pedro II em 1668 através de um processo judicial que o declarou incapaz de governar e impotente, num episódio que envolveu lutas entre facções da corte durante a fase final da Guerra da Restauração.
- A magistratura portuguesa manteve-se praticamente intacta após o 25 de Abril porque tanto o Estado Novo como o regime revolucionário procuraram manter uma aparência de legalidade, permitindo aos juízes uma passividade calculada que os protegeu de saneamentos.
- Franco nunca teve verdadeira intenção de anexar Portugal, e a neutralidade portuguesa na Segunda Guerra Mundial só foi viável porque Espanha não entrou formalmente no conflito, apesar da pressão alemã e da divisão azul enviada à frente russa.
- A preferência de Salazar e Franco durante a Segunda Guerra era que nenhum lado vencesse completamente, pois qualquer vitória total desfaria os equilíbrios que permitiam aos regimes ibéricos manter autonomia, embora a Guerra Fria acabasse por os beneficiar.
- Almeida Garrett participou no Cerco do Porto como funcionário burocrático encarregado de reformas legislativas, tendo uma carreira marcada por exílios, talentos reconhecidos mas permanente insatisfação com o tratamento recebido dos sucessivos governos liberais.
Resumo do episódio
Este episódio do podcast «E o Resto é História» abre com uma reflexão provocada pela actualidade: o confinamento do Presidente da República português por razões de saúde leva os apresentadores a evocar um caso histórico de enclausuramento muito mais dramático - o de D. Afonso VI, rei de Portugal na segunda metade do século XVII, que terminou os seus dias preso num palácio depois de ter sido deposto pelo próprio irmão.
Rui Ramos situa o episódio no contexto da Guerra da Restauração, iniciada com a aclamação de D. João IV em 1640 e ainda em curso até 1668. À morte do rei em 1656, a rainha D. Luísa de Gusmão assumiu a regência em nome do filho D. Afonso VI, então menor. Porém, um partido de fidalgos liderado pelo jovem Conde de Castelo Melhor conseguiu afastar a rainha e instalar o rei como monarca efectivo, passando ele próprio a governar como valido - uma figura de poder semelhante, mas muito menos robusta, à do futuro Marquês de Pombal. Castelo Melhor tratou ainda de reforçar a aliança com a França através do casamento do rei com D. Maria Francisca de Saboia. Em 1667, um novo grupo de oposição, encabeçado pelo Duque de Cadaval e por vários generais descontentes, afastou Castelo Melhor e voltou-se contra o próprio D. Afonso VI. A rainha abandonou o marido e aliou-se ao infante D. Pedro. As Cortes de 1668 declararam o rei incapaz de governar, e um processo canónico, notório pela minúcia com que descreveu a incapacidade física do monarca, anulou o casamento real, permitindo que D. Pedro II casasse com a ex-mulher do irmão. D. Afonso VI foi primeiro enviado para os Açores e, após uma tentativa de conspiração a seu favor em 1673, transferido para Sintra, onde ficou efectivamente preso até à morte, em 1683. A rainha, tornada de novo soberana por breves meses, morreu também nesse mesmo ano.
O segundo tema do episódio aborda a independência do poder judicial português e a forma como os juízes atravessaram tanto o Estado Novo como a Revolução de Abril sem grandes saneamentos. Rui Ramos explica que o regime salazarista adoptou uma estratégia de «juridificação», mantendo uma aparência de legalidade que permitia aos magistrados preservar um verniz de profissionalismo e autonomia. Após o 25 de Abril, o processo repetiu-se: mesmo durante o PREC, com prisões sem julgamento e expropriações sem cobertura jurídica, a magistratura manteve-se passiva e foi amplamente poupada, em parte devido à influência do PS e do ministro Francisco Salgado Zenha, ele próprio advogado defensor de acusados pelo Estado Novo.
Seguem-se duas perguntas de ouvintes. A primeira interroga se Franco alguma vez tencionou anexar Portugal. Rui Ramos considera que não houve essa intenção concreta, embora a Falange ambicionasse uma hegemonia peninsular. O verdadeiro perigo para Portugal teria sido a entrada da Espanha na Segunda Guerra Mundial, que arrastaria inevitavelmente a Península Ibérica para o conflito. Franco geriu essa pressão com listas intermináveis de exigências que tornavam a entrada na guerra impraticável, enquanto Salazar procurava manter a neutralidade apostando em estar do lado dos vencedores, fossem eles quais fossem. A partir de 1943-44, com a maré a virar a favor dos Aliados, Franco foi gradualmente reposicionando a Espanha como potência atlântica e anticomunista.
A última pergunta versa sobre o Cerco do Porto e o papel de Almeida Garrett. Rui Ramos recomenda o «Portugal Contemporâneo» de Oliveira Martins como a melhor leitura acessível sobre o tema, e traça um retrato de Garrett como figura de talento inegável, mas cronicamente insatisfeita: exilado várias vezes, colaborador de ministros como Mouzinho da Silveira, burocrata da revolução liberal no Porto sitiado, diplomata mal pago em Londres e Bruxelas, e perene queixoso de governos que, apesar de tudo, lhe iam sempre arranjando novos cargos.
Personagens
- Afonso VI
- Pedro II
- João IV
- Luísa de Gusmão
- Conde de Castelo Melhor
- Maria Francisca de Sabóia
- Duque de Cadaval
- Marquês de Cascais
- Henrique IV de França
- Marcelo Rebelo de Sousa
- Marquês de Pombal
- Francisco Salgado Zenha
- José Diogo
- Francisco Franco
- Salazar
- Spínola
- Hitler
- Alfredo Pimenta
- Almeida Garrett
- Miguel I
- Pedro IV
- Maria II
- Mousinho da Silveira
- João VI
- Oliveira Martins
Lugares/Países
- Portugal
- Espanha
- França
- Inglaterra
- Alemanha
- Itália
- União Soviética
- Estados Unidos
- Brasil
- Marrocos
Épocas
- século XVII
- século XX
- século XIX
- Restauração
- Estado Novo
- Segunda Guerra Mundial
- Revolução de 25 de Abril
- PREC
- Guerra Civil Espanhola
- Guerra Fria
- Guerras Liberais
Temas
- monarquia
- política
- guerra
- diplomacia
- revolução
- justiça
- neutralidade
- exílio
- conspiração
- reforma administrativa
Eventos
- Restauração da Independência
- Guerra da Restauração
- Batalha do Ameixial
- deposição de Afonso VI
- 25 de Abril de 1974
- Revolução de Setembro de 1836
- Cerco do Porto
Guerras e conflitos
- Guerra da Restauração
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra Civil Espanhola
- Guerras Liberais
Livros recomendados
- Portugal Contemporâneo (Oliveira Martins)