Nº 28922 de janeiro de 202540:37efeméride
Alvor: um acordo sobre Angola condenado à morte
O episódio analisa o Acordo de Alvor (janeiro de 1975), que estabeleceu as regras para a independência de Angola através de negociações entre Portugal e três movimentos (MPLA, FNLA e UNITA). Conduzido pela esquerda militar portuguesa, o acordo ignorou a sociedade civil angolana e criou condições para a guerra civil ao entregar poder aos partidos armados sem mecanismos de fiscalização. O colapso do acordo e a intervenção de potências estrangeiras mergulharam Angola numa guerra devastadora que duraria 27 anos.
Ideias principais
- O Acordo de Alvor foi conduzido pela esquerda militar portuguesa que via Angola como secundária face à consolidação revolucionária em Portugal, interessando-se apenas em garantir a saída rápida das tropas.
- Ao contrário de Moçambique e Guiné, Portugal não pôde entregar Angola apenas ao MPLA porque este estava militarmente derrotado e dividido internamente, obrigando a negociar com três movimentos simultaneamente.
- O acordo criou condições para a guerra civil ao reduzir drasticamente a presença militar portuguesa de 60 mil para 20 mil homens, permitir que os três movimentos armados ocupassem território e se instalassem armados em Luanda, e excluir toda a sociedade civil angolana emergente.
- A guerra civil angolana resultou não de um plano prévio das superpotências, mas da manipulação activa dos movimentos angolanos e patronos africanos que instrumentalizaram a Guerra Fria para obter apoio externo, envolvendo progressivamente Cuba, Estados Unidos, Zaire e África do Sul.
- Portugal manteve a data de independência (11 de Novembro de 1975) mesmo após suspender os acordos de Alvor no verão, reduzindo o papel militar português à mera evacuação de cidadãos europeus e abandonando Angola a uma guerra que destruiu décadas de desenvolvimento económico e social.
Resumo do episódio
O episódio debruça-se sobre o Acordo de Alvor, assinado em janeiro de 1975 entre o governo português e os três movimentos armados angolanos - o MPLA, a FNLA e a UNITA -, na sequência das negociações realizadas na vila algarvia do mesmo nome. O documento estabelecia em sessenta pontos as regras para a transição pacífica de poder em Angola, incluindo a formação de um governo de transição partilhado e a realização de eleições previstas para outubro desse ano. Cinquenta anos depois, Rui Ramos e João Miguel Tavares interrogam-se sobre o que correu mal - e a resposta é quase tudo, e muito depressa.
Para perceber o Acordo de Alvor, os apresentadores recuam ao contexto político português de então. O país era governado por militares: o presidente era o general Costa Gomes, o primeiro-ministro era um coronel, e o processo de descolonização estava nas mãos da esquerda militar, a ala do Movimento das Forças Armadas que dominava as estruturas tanto em Lisboa como no próprio território angolano. Os ministros civis - incluindo Mário Soares nos Negócios Estrangeiros e Almeida Santos na Coordenação Interterritorial - tinham escassa influência real nas negociações, que foram conduzidas essencialmente pelo major Melo Antunes. Soares, sublinha Rui Ramos, estava então totalmente absorvido pela política interna portuguesa, e Angola era, nas suas palavras, o centésimo item da sua lista de preocupações. A ilustrar este alheamento, o historiador recorda que o programa fundador do PPD, aprovado em novembro de 1974, não continha uma única palavra sobre a descolonização, apesar de ainda viverem duzentos a trezentos mil portugueses europeus em África.
Angola tinha especificidades que a distinguiam dos outros territórios. Em 1974 a guerra estava praticamente suspensa: o MPLA fora destruído militarmente no leste, a FNLA estava confinada à fronteira norte e a UNITA mantinha uma trégua com as forças portuguesas. Ao mesmo tempo, a economia angolana crescia a um ritmo notável, Luanda multiplicara a sua população e havia uma sociedade civil vibrante com dezenas de novos partidos políticos. Ao contrário da Guiné e de Moçambique, onde o poder foi entregue a um único movimento sem eleições, em Angola a esquerda militar não podia fazer o mesmo com o MPLA - o seu favorito -, porque este estava militarmente fraco e internamente dividido entre três fações rivais. A solução foi negociar com os três movimentos armados em simultâneo, ignorando por completo todos os outros partidos e a sociedade civil angolana.
O acordo resultante tinha falhas estruturais profundas. Apenas os três movimentos armados podiam concorrer às eleições previstas, o que canalizou toda a vida política angolana para organizações militarizadas. As forças portuguesas foram reduzidas de cerca de sessenta mil para menos de vinte mil homens, retirando-se para os centros urbanos e deixando vastas regiões entregues aos partidos armados, que rapidamente começaram a construir feudos. Estes partidos instalaram-se em Luanda com os seus exércitos e artilharia pesada, criando um polvorinho. Entretanto, os líderes dos movimentos foram atraindo patrocinadores externos: a FNLA tinha o Zaire de Mobutu, e através dele os Estados Unidos; o MPLA conseguiu envolver a União Soviética e Cuba, argumentando junto dos soviéticos que tinha o apoio do MFA português; a UNITA e a FNLA usaram o espectro soviético para pressionar Washington; e a África do Sul acabou também por intervenir a partir do sul. Em julho de 1975, o MPLA tentou expulsar militarmente a FNLA de Luanda, desencadeando combates numa cidade que não conhecia guerra desde 1961.
Portugal suspendeu formalmente os acordos de Alvor no verão de 1975, mas - num pormenor revelador das suas prioridades - manteve a data da independência para 11 de novembro de 1975, mesmo com o território em guerra e as eleições por realizar. O objetivo era sair, independentemente das consequências. A independência foi declarada sem condições mínimas de estabilidade, com exércitos estrangeiros já presentes no território - tropas cubanas a apoiar o MPLA, sul-africanas a avançar pelo sul -, e Portugal limitou-se a evacuar os seus cidadãos. A guerra civil que se seguiu durou vinte e sete anos. O episódio termina com a conclusão sombria de que o Acordo de Al
Personagens
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- Mobutu
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Lugares/Países
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Épocas
- 1974-1975
- Guerra Colonial
- 25 de Abril
- Descolonização
- Guerra Fria
Temas
- descolonização
- guerra colonial
- diplomacia
- guerra civil
- revolução
- guerra fria
- conflito ideológico
- política externa
Eventos
- Acordo de Alvor
- 25 de Abril de 1974
- 11 de Março de 1975
- Independência de Angola
- Batalha de Luanda
Guerras e conflitos
- Guerra Colonial
- Guerra Civil Angolana