Nº 22608 de novembro de 20231h09resposta a ouvintes
Anti-semitismo: quando é que ele começou e porquê?
Episódio dedicado às origens e evolução do antissemitismo desde a Antiguidade até ao século XX. Rui Ramos traça a história da perseguição aos judeus desde o Império Romano, passando pela discriminação religiosa cristã e islâmica medieval, as expulsões ibéricas, o antissemitismo racial do século XIX, até ao Holocausto nazi. Explica como os judeus foram simultaneamente tolerados e perseguidos, transformando-se na minoria religiosa mais visada da história ocidental.
Ideias principais
- Os judeus foram tolerados por cristãos e muçulmanos como 'povo do livro', mas precisamente por isso tornaram-se a minoria mais perseguida, pois representavam aqueles que recusaram a 'nova revelação'.
- A limpeza de sangue na Península Ibérica (séculos XVI-XVIII) não era apenas anti-judaica mas uma discriminação de casta que incluía descendentes de mouros e trabalhadores manuais.
- O antissemitismo moderno do século XIX é distinto do religioso medieval: tem raízes xenófobas (migração de judeus orientais exóticos), políticas (esquerda via-os como capitalistas, direita como traidores cosmopolitas) e pseudo-científicas (teoria racial).
- O Holocausto nazi baseou-se numa ideologia racial 'científica' que definia judeus biologicamente, destinando recursos militares ao extermínio mesmo durante a guerra, assassinando 6 milhões de pessoas entre 1942-1944.
- Após 1948, o antissemitismo disfarçou-se como anti-sionismo tanto na União Soviética como nos países árabes, provocando a fuga de 700 mil a 1 milhão de judeus do Médio Oriente para Israel e EUA.
Resumo do episódio
Este episódio de *E o Resto é História* é dedicado às origens e à evolução do antissemitismo, partindo de uma pergunta enviada por uma ouvinte sobre as razões históricas e culturais do ódio aos judeus. Rui Ramos e João Miguel Tavares percorrem cerca de três mil anos de história para explicar de onde vem esta hostilidade, como se foi transformando e por que razão se revelou tão persistente.
O ponto de partida é a própria identidade judaica: os judeus constroem-se historicamente como um povo perseguido desde os tempos bíblicos. Rui Ramos recorda que há cerca de três mil anos existia um reino de Israel entre o Rio Jordão e o Mar Mediterrâneo, posteriormente destruído pela Babilónia no século VI antes de Cristo, com a deportação dos seus habitantes. Com o tempo, o reino é reconstituído como reino da Judeia, mas volta a ser aniquilado pelos romanos no século I depois de Cristo. É precisamente neste contexto que os romanos, para apagar a presença judaica na região, lhe atribuem o nome de Palestina, em referência aos filisteus. Já nos autores romanos é visível uma certa estranheza perante os judeus, sobretudo pelo seu monoteísmo exclusivista e pela recusa em prestar culto ao imperador, o que os tornava suspeitos politicamente, mais do que por razões propriamente religiosas.
A situação muda radicalmente quando o Império Romano se torna cristão, e depois quando grande parte do Mediterrâneo e do Médio Oriente passa para o controlo islâmico. Tanto o cristianismo como o islão partilham raízes no judaísmo mas consideram ter superado a revelação original, o que coloca os judeus numa posição paradoxal: são tolerados como "povo do livro", mas simultaneamente perseguidos por recusarem aceitar a nova revelação. Na Europa cristã medieval, os judeus acabam por ser a única minoria religiosa tolerada, o que os torna também os alvos preferenciais de qualquer surto de violência popular ou institucional. São sujeitos a restrições jurídicas severas - proibição de possuir terras, impostos especiais, obrigação de residir em bairros separados -, ao mesmo tempo que ocasionalmente ocupam cargos de confiança junto dos poderes políticos, precisamente por dependerem inteiramente deles. Esta ambivalência repete-se nos Estados muçulmanos, incluindo o Império Otomano. As expulsões sucedem-se por toda a Europa, de Inglaterra em 1290 a França em 1306 e à Península Ibérica no final do século XV, onde a ideia de homogeneidade religiosa como fundamento da estabilidade do Estado justifica também a criação da Inquisição e a doutrina da limpeza de sangue, que introduz um critério de ascendência - mas ainda não propriamente racial - na discriminação.
No século XIX, o centro de gravidade das comunidades judaicas estava na Europa Central e Oriental, sobretudo no espaço polaco-lituano e depois nos impérios russo e austro-húngaro, com cerca de seis a oito milhões de pessoas concentradas em cidades como Varsóvia, Lodz ou Kiev, e comunidades igualmente expressivas em Salónica e Bagdad, no seio do Império Otomano. É neste contexto que emergem os chamados *pogroms* no Império Russo, organizados ou tolerados pelas elites como forma de desviar o descontentamento popular, e que documentos como os *Protocolos dos Sábios de Sião* - uma falsificação da polícia russa - difundem a ideia de uma conspiração judaica mundial. Ao mesmo tempo, na Europa Ocidental, a chegada maciça de refugiados judeus vindos do Leste alimenta uma nova forma de antissemitismo, já não religioso mas xenófobo e depois racial: o caso Dreyfus em França, a ascensão de partidos abertamente antissemitas na Áustria e na Alemanha, e a teorização pseudo-científica das raças constroem um ódio que se pretende moderno e racional. É este antissemitismo racial que o nacional-socialismo alemão vai sistematizar e levar às últimas consequências, combinando a ideia de conspiração, de raça inferior e de ameaça biológica para justificar as leis de Nuremberga e, entre 1942 e 1944, o extermínio de seis milhões de judeus.
O episódio termina notando que, apesar do descrédito total do antissemitismo após o Holocausto no mundo ocidental, ele sobreviveu noutras formas: na União Soviética, onde foi instrument
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