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Nº 31813 de agosto de 202545:19efeméride

As bombas atómicas de Hiroshima e Nagasaki

O episódio analisa os bombardeamentos atómicos de Hiroshima e Nagasaki em agosto de 1945, explorando as razões militares e políticas que levaram os Estados Unidos a usar a arma atómica contra o Japão. Rui Ramos demonstra como a resistência japonesa, evidenciada na sangrenta batalha de Okinawa, e a pressão política interna americana tornaram o uso da bomba inevitável para forçar a rendição incondicional. O episódio examina ainda o impacto da arma na sociedade japonesa do pós-guerra e as razões pelas quais nunca mais foi utilizada.

Ideias principais

  1. A decisão de usar a bomba atómica foi motivada pela estimativa de que a invasão convencional do Japão custaria aos Estados Unidos um milhão de baixas e prolongaria a guerra por anos, face à resistência demonstrada em Okinawa onde morreram um terço dos civis e 84 mil militares americanos ficaram feridos.
  2. A elite militar japonesa resistiu à rendição mesmo após Hiroshima, exigindo uma segunda bomba em Nagasaki, e houve uma tentativa de golpe de Estado na noite de 14 para 15 de agosto de 1945 para impedir a capitulação, com o ministro da guerra a cometer seppuku por não aceitar a humilhação.
  3. O estatuto de vítima dos bombardeamentos atómicos permitiu ao Japão, ao contrário da Alemanha, não internalizar as culpas dos seus crimes de guerra, mantendo até hoje homenagens a criminosos de guerra condenados no templo de Yasakuni.
  4. A propaganda soviética equiparou deliberadamente Hiroshima a Auschwitz para criminalizar os Estados Unidos e alimentar o movimento pacifista, uma narrativa que persiste até hoje apesar das evidências históricas sobre a necessidade militar da decisão.
  5. A arma atómica nunca mais foi usada não tanto pelo equilíbrio do terror (que só existiu décadas depois), mas pela consciência moral imediata de que se tinha entrado numa nova era que colocava em risco a própria existência da humanidade, levando mesmo Truman a recusar o seu uso na Guerra da Coreia.

Resumo do episódio

Este episódio de *E o Resto é História* é dedicado ao lançamento das bombas atómicas sobre Hiroshima e Nagasaki, em agosto de 1945, por ocasião do seu 80.º aniversário. Rui Ramos e João Miguel Tavares propõem-se responder a duas perguntas fundamentais: por que razão as bombas foram lançadas e por que razão nunca mais voltaram a ser usadas desde então.

Para explicar a decisão americana, os apresentadores começam por reconstituir a situação militar no verão de 1945. Apesar de a Marinha japonesa ter sido destruída, o Japão distava ainda muito da derrota. O seu exército terrestre mantinha-se praticamente intacto, com seis milhões de homens, e continuava a ocupar vastos territórios na China, na Coreia e no Sudeste Asiático - regiões que albergavam cerca de 20% da população mundial. O único caminho para forçar a rendição incondicional que os aliados exigiam desde 1943 parecia ser a invasão das ilhas principais do arquipélago. Os planos americanos para essa operação, denominada *Operation Downfall*, previam pelo menos um milhão de baixas americanas. A batalha de Okinawa, uma ilha relativamente pequena e secundária, serviu de antecipação brutal do que seria essa invasão: durou 82 dias, custou 84 mil baixas americanas, matou 150 mil civis japoneses e deixou 90% dos edifícios destruídos. Os soldados japoneses combateram quase até ao último homem, e parte da população civil suicidou-se em massa em vez de se render. Esta experiência foi profundamente traumática para as forças americanas.

A par das considerações militares, pesavam igualmente razões políticas internas. O presidente Truman sabia que não podia prolongar indefinidamente a mobilização de doze milhões de americanos nas forças armadas, nem sustentar o apoio público a uma guerra cujo fim era incerto. Com eleições presidenciais em 1948, usar a bomba era também a única forma de evitar que a história o julgasse por ter deixado morrer centenas de milhares de pessoas quando tinha à sua disposição uma arma capaz de encerrar o conflito. A alternativa de fazer uma demonstração da bomba fora do Japão foi considerada e descartada por se julgar insuficiente para impressionar o comando japonês. E, de facto, mesmo após o bombardeamento de Hiroshima, a 6 de agosto, parte da elite militar japonesa recusou-se a ceder, chegando alguns a especular que os americanos só teriam tido uma bomba. A segunda bomba, lançada sobre Nagasaki a 9 de agosto, foi necessária para desencadear o processo de rendição, que ainda assim só se concretizou após uma tentativa de golpe de Estado na noite de 13 para 14 de agosto e o suicídio ritual do general Anami, ministro da guerra, que preferiu a morte à humilhação da capitulação.

Os apresentadores analisam depois o impacto das bombas na sociedade japonesa. Ao contrário da Alemanha, que internalizou a responsabilidade moral pela guerra e pelos seus crimes, o Japão construiu para si uma identidade de vítima, ancorada no facto de ter sido a única população a sofrer bombardeamentos atómicos. Rui Ramos aponta que isso permitiu ao Japão não assumir plenamente as atrocidades cometidas pelo seu exército - massacres em Nanquim, escravidão sexual, uso de armas químicas -, ao contrário do que a Alemanha fez relativamente ao Holocausto. Um sinal dessa memória seletiva é a continuada veneração do santuário de Yasukuni, em Tóquio, onde constam os nomes de criminosos de guerra condenados pelo tribunal internacional.

A última parte do episódio é dedicada à questão da não utilização posterior da bomba. Os apresentadores sublinham que a União Soviética não se deixou intimidar pelo monopólio nuclear americano entre 1945 e 1949, avançando com a satellização da Europa de Leste e outras agressões. Tal deveu-se, em parte, à percepção soviética - alimentada por uma vasta rede de espionagem - de que a opinião pública americana dificilmente aceitaria o uso da bomba fora de um cenário de ameaça existencial aos Estados Unidos. O próprio Truman recusou terminantemente o seu uso durante a Guerra da Coreia. Rui Ramos conclui que a razão mais profunda pela qual a arma nunca mais foi usada não reside apenas no equilíbrio do terror, mas numa consciência moral que se instalou de imediato: a

Personagens

  • Harry Truman
  • Joseph Stalin
  • J. Robert Oppenheimer
  • Anami
  • Suzuki
  • Hanami
  • Mao Tse Tung
  • Adolf Hitler
  • Heinrich Himmler
  • Martin Bormann

Lugares/Países

  • Estados Unidos
  • Japão
  • União Soviética
  • China
  • Coreia
  • Alemanha
  • França
  • Itália
  • Indonésia
  • Coreia do Norte
  • Coreia do Sul
  • Checoslováquia

Épocas

  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra Fria
  • Era Atómica

Temas

  • guerra
  • tecnologia militar
  • diplomacia
  • rendição incondicional
  • crimes de guerra
  • pacifismo
  • propaganda
  • espionagem
  • memória histórica

Eventos

  • Bombardeamento atómico de Hiroshima
  • Bombardeamento atómico de Nagasaki
  • Rendição do Japão
  • Declaração de Potsdam
  • Batalha de Okinawa
  • Massacre de Nanking
  • Batalha de Xangai
  • Julgamentos de Tóquio
  • Julgamentos de Nuremberga
  • Bloqueio de Berlim
  • Revolução Chinesa
  • Guerra da Coreia
  • Golpe comunista na Checoslováquia

Guerras e conflitos

  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra do Pacífico
  • Guerra da Coreia
  • Guerra Fria