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Nº 17914 de dezembro de 202240:32resposta a ouvintes

As cheias de 1967 e os ciganos na Restauração

Episódio dividido em duas partes: primeiro, analisa a participação de ciganos e outras minorias étnicas na Guerra da Restauração (1640-1668), contextualizando a nota de Marcelo Rebelo de Sousa sobre o papel dos ciganos na independência portuguesa. Na segunda parte, examina as cheias de 1967 em Lisboa e arredores, questionando se este acontecimento marcou realmente uma viragem política na relação dos católicos com o Estado Novo, concluindo que o distanciamento já vinha de trás e foi interrompido por Marcelo Caetano.

Ideias principais

  1. A participação de ciganos na Guerra da Restauração é documentada, com destaque para Jerónimo da Costa que serviu como cavaleiro mas não era fidalgo, e 250 ciganos foram isentos de expulsão por servirem no exército, mostrando integração selectiva de minorias.
  2. O império português dependeu da integração de populações não-brancas que se identificaram com Portugal, como demonstram os casos de comandantes militares índios (António Filipe Camarão), negros (Henrique Dias) e mulatos que lideraram terços na guerra contra os holandeses no Brasil.
  3. As cheias de 1967, que causaram cerca de 500-700 mortos, não foram o momento de viragem política dos católicos contra o Estado Novo, sendo antes parte de um processo gradual de distanciamento que já vinha da década de 1960 e foi influenciado pelo Concílio Vaticano II e pela Guerra Colonial.
  4. Marcelo Caetano conseguiu uma reaproximação temporária com católicos críticos do regime em 1968-1969, prometendo reformas e desenvolvimento do Estado Social, mas o afastamento definitivo veio após 1972 quando ficou clara a incapacidade do regime para resolver os problemas políticos.
  5. A censura do Estado Novo não impediu a divulgação da tragédia das cheias mas bloqueou o debate público sobre responsabilidades políticas, gerando autocensura, enquanto a oposição comunista e de extrema-esquerda também tinha pouca credibilidade junto dos católicos por defender ditaduras ateias.

Resumo do episódio

Este episódio do podcast *E o Resto é História* divide-se em dois temas distintos: a participação de ciganos na Guerra da Restauração portuguesa e o impacto político das cheias de 1967 na região de Lisboa.

Na primeira parte, Rui Ramos e João Miguel Tavares partem de uma nota publicada pelo Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa no Dia de Portugal, em que este evocava a contribuição de portugueses de etnia cigana na Guerra da Restauração, mencionando em particular um cavaleiro fidalgo chamado Jerónimo da Costa. Os apresentadores analisam os dois documentos históricos que estão na base desta referência presidencial, ambos reunidos pelo etnólogo Adolfo Coelho num livro de 1892 intitulado *Os Ciganos em Portugal*. O primeiro é um ofício de 1646 do procurador da Coroa Tomé Pinheiro da Veiga ao rei, no qual este defende que Jerónimo da Costa - descrito como um "pobre cigano" que serviu três anos na fronteira do Alentejo com cavalo, à maneira dos fidalgos, e que morreu na Batalha de Montijo em 1644 - merecia ser feito fidalgo, e não apenas recompensado com a naturalidade portuguesa para a sua família. O segundo documento é um alvará de 1649 do rei D. João IV que, ao mesmo tempo que ordena a expulsão dos ciganos do reino por serem considerados "gente vagabunda", isenta dessa expulsão os cerca de 250 ciganos que serviam no exército contra Espanha no Alentejo, bem como os que estivessem integrados nas comunidades locais. Ramos assinala que a nota presidencial cometeu um ligeiro erro ao chamar fidalgo a Jerónimo da Costa: ele não era fidalgo, mas serviu nas condições em que um fidalgo servia, e era esse precisamente o argumento do procurador da Coroa para defender que deveria ter sido ennobrecido. Os apresentadores alargam então a discussão à presença de minorias étnicas no esforço militar português do século XVII, incluindo a Guerra da Restauração no Brasil contra os holandeses em Pernambuco, onde combateram índios, negros e mulatos sob comandantes como António Filipe Camarão e Henrique Dias, ambos posteriormente galardoados com a Ordem de Cristo. Ramos sublinha que isto não significa ausência de preconceito racial, mas que a fidelidade ao rei, a língua e a religião católica eram os critérios de integração mais determinantes, o que permitia a um país pequeno como Portugal manter um império vasto com o apoio de populações muito diversas.

Na segunda parte, os apresentadores debatem as cheias de novembro de 1967, que na noite de 25 para 26 de novembro devastaram zonas como Odivelas, Vila Franca de Xira e a Arruda dos Vinhos, provocando a morte de várias centenas de pessoas - os números citados oscilam entre 500 e 700 - e destruindo bairros de construção precária como o da Pontinha. A questão central é saber se estas cheias representaram um verdadeiro ponto de viragem política, capaz de afastar uma geração de jovens católicos do Estado Novo. Ramos é cético quanto a essa leitura e defende que há algum exagero na forma como o episódio é habitualmente recordado. O distanciamento dos católicos em relação ao salazarismo já vinha de trás - do caso do Bispo do Porto em 1958, do Concílio Vaticano II e das crescentes tensões entre o Vaticano e Lisboa a propósito das colónias africanas - e foi depois atenuado pela chegada ao poder de Marcelo Caetano em 1968, que conseguiu atrair de regresso figuras críticas como Francisco Sá Carneiro. A ruptura definitiva só se consumou nos anos 70, quando se tornou evidente que Caetano não conseguia liberalizar o regime nem encontrar uma saída para as guerras coloniais. As cheias funcionaram sobretudo como catalisador pontual para alguns jovens que contactaram diretamente com a pobreza das periferias de Lisboa, mas não como o acontecimento fundador de uma viragem política geracional. A censura, por seu lado, não conseguiu esconder a magnitude da tragédia, mas impediu o debate público sobre responsabilidades que numa democracia teria inevitavelmente ocorrido - e, nesse sentido, o seu efeito mais pernicioso foi, como sublinham os apresentadores, a autocensura praticada pelos próprios jornalistas.

Personagens

  • Marcelo Rebelo de Sousa
  • D. João IV
  • Jerónimo da Costa
  • Tomé Pinheiro da Veiga
  • Adolfo Coelho
  • Gil Vicente
  • Francisco Barreto de Menezes
  • António Filipe Camarão
  • Henrique Dias
  • João Fernandes Vieira
  • André Vidal de Negreiros
  • Matias Vidal de Negreiros
  • Gilberto Freyre
  • Franco Nogueira
  • Salazar
  • Paulo VI
  • Marcelo Caetano
  • Francisco Sá Carneiro
  • António Alçada Baptista

Lugares/Países

  • Portugal
  • Espanha
  • Brasil
  • Holanda
  • Angola
  • Moçambique
  • Índia
  • Polónia
  • Hungria
  • União Soviética
  • China

Épocas

  • século XV
  • século XVI
  • século XVII
  • século XVIII
  • Restauração da Independência (1640)
  • Estado Novo
  • anos 1960
  • Primeira República
  • década de 1920

Temas

  • guerra
  • restauração da independência
  • minorias étnicas
  • integração social
  • colonialismo
  • império português
  • escravatura
  • religião
  • catolicismo
  • censura
  • ditadura
  • catástrofes naturais
  • pobreza
  • desenvolvimento económico
  • oposição política

Eventos

  • Restauração da Independência (1640)
  • Batalha de Montijo (1644)
  • Batalhas dos Guararapes (1648-1649)
  • Terramoto de 1755
  • Cheias de 1967
  • Maio de 68
  • Concílio Vaticano II
  • Eleições presidenciais de 1972
  • 25 de Abril de 1974

Guerras e conflitos

  • Guerra da Restauração
  • Guerra contra a Holanda no Brasil
  • Guerra Colonial

Livros citados

  • Os Ciganos em Portugal (Adolfo Coelho)