Nº 13402 de fevereiro de 202241:06análise histórica
As coligações mais marcantes da nossa História
Episódio analisa as três grandes coligações mais emblemáticas da história portuguesa desde o constitucionalismo: a Fusão de 1865 (regeneradores e históricos na monarquia), a União Sagrada de 1916 (PRP e evolucionistas na República), e o Bloco Central de 1983-85 (PS e PSD na democracia). Todas surgiram em momentos de crise financeira ou guerra, todas geraram divisões internas nos partidos e todas acabaram mal, deixando um padrão histórico de dificuldade das grandes coligações em Portugal.
Ideias principais
- As grandes coligações em Portugal surgem historicamente em momentos de crise - financeira em 1865 e 1983, ou de guerra em 1916 - como tentativa de gerar consenso para medidas difíceis de austeridade ou ajustamento.
- Ao contrário do modelo parlamentar britânico de alternância entre dois partidos organizados, Portugal tendeu no século XIX para a 'fusão' bonapartista de elites e para governos de 'pastel' que agregavam personalidades de várias correntes.
- As três grandes coligações analisadas acabaram todas mal: a Fusão de 1865 terminou na Revolta da Janeirinha de 1868, a União Sagrada de 1916 no golpe de Sidónio Pais em 1917, e o Bloco Central de 1983-85 na derrota eleitoral do PS que perdeu quase metade dos votos.
- As coligações funcionam no Parlamento para viabilizar maiorias, mas criam tensões nos partidos, sentimentos de traição nas bases, ausência de oposição credível e abrem espaço para novos movimentos de contestação radical.
- Na monarquia constitucional portuguesa o rei nomeava primeiro o governo e só depois convocava eleições para confirmar a confiança, ao contrário do sistema actual - o governo tinha meios administrativos para garantir a sua própria eleição.
Resumo do episódio
Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares partem do contexto das eleições legislativas recentes - que produziram uma maioria absoluta, tornando desnecessária a formação de coligações - para lançar uma reflexão mais ampla sobre o tema. A pergunta de fundo é: quais foram as três coligações mais marcantes da história política portuguesa, uma por cada regime com pluralismo partidário - a Monarquia Constitucional, a Primeira República e a democracia pós-1976? Rui Ramos assume o papel de guia histórico, percorrendo dois séculos de vida política portuguesa através desse fio condutor.
O ponto de partida situa-se nos anos 1830 e 1840, nos primeiros tempos do constitucionalismo português, quando ainda não existiam partidos organizados, mas sim correntes de opinião - os cartistas, defensores da Carta Constitucional de 1826, e os setembristas, partidários da Constituição de 1822. Neste ambiente de grande fragmentação, a arte política consistia em agregar personalidades e pequenos grupos parlamentares em torno de um governo, numa prática que ficou conhecida como "pastelaria" - os líderes mais hábeis eram os "pasteleiros", capazes de compor maiorias com ingredientes variados. Este era também o terreno fértil para o ideal da "fusão", inspirado no modelo bonapartista, que procurava conciliar correntes opostas em nome da estabilidade. Na década de 1850, com a formação do Partido Regenerador e do Partido Histórico, pareceu possível importar o modelo britânico de dois grandes partidos a alternarem no poder. Essa expectativa acabou por ruir com a primeira grande coligação escolhida por Rui Ramos: a Fusão de 1865. Após uma década de domínio histórico e uma cisão interna entre a "unha branca" moderada e a "unha preta" radical, Fontes Pereira de Melo, pelo lado regenerador, e o Duque de Loulé, pelo lado histórico, anunciaram a fusão dos dois partidos num só governo. O escândalo foi imediato: militantes e ativistas de ambos os lados sentiram-se traídos, floresceu uma oposição radical fora do Parlamento, e o governo acabou derrubado pela Revolta da Janeirinha de 1868, em grande parte motivada por medidas de austeridade fiscal.
A segunda coligação situa-se na Primeira República, em plena Primeira Guerra Mundial. Em 1916, Afonso Costa, líder do Partido Republicano Português, propôs uma "União Sagrada" à imagem do modelo francês, convidando os partidos de oposição a governarem em conjunto. António José de Almeida, do Partido Evolucionista, aceitou e tornou-se chefe do governo, mas Rui Ramos sublinha que os ministérios verdadeiramente decisivos - Finanças, Guerra e Negócios Estrangeiros - ficaram nas mãos do PRP. Brito Camacho, do Partido Unionista, recusou a coligação, o que lhe permitiu ocupar o espaço de líder da oposição conservadora. A União Sagrada desagregou-se em 1917 e acabou varrida pelo golpe de Sidónio Pais em dezembro desse ano. Nenhum dos três partidos republicanos sobreviveu à experiência: o Partido Evolucionista e o Partido Unionista desapareceram, e o PRP fragmentou-se nos anos seguintes.
A terceira coligação é o Bloco Central de 1983-1985, entre o PS de Mário Soares e o PSD, formado para aplicar um programa de austeridade negociado com o Fundo Monetário Internacional numa situação de emergência financeira. O episódio foi marcado por tensões internas em ambos os partidos: o PS realizou um referendo interno para aprovar a coligação, e no PSD o vice-primeiro-ministro Carlos Mota Pinto demitiu-se em fevereiro de 1985 sob pressão interna. O desfecho foi igualmente penalizador: nas eleições de outubro de 1985, o PS perdeu quase metade dos seus votos, surgindo um novo partido, o PRD, que captou grande parte do eleitorado socialista descontente.
A conclusão dos apresentadores é clara: as grandes coligações portuguesas tenderam sempre a fracassar pela mesma razão estrutural. Se no Parlamento a soma dos deputados gera maiorias funcionais, fora dele a ausência de uma oposição credível alimenta a desconfiança, divide internamente os partidos coligados e abre espaço a novos movimentos
Personagens
- Napoleão Bonaparte
- D. Pedro V
- Fontes Pereira de Melo
- Duque de Loulé
- Joaquim Tomás de Lobo do Ávila
- João Quintório da Guia
- Antero de Quental
- Eça de Queiroz
- Afonso Costa
- António José de Almeida
- Manuel Brito Camacho
- Bernardino Machado
- Sidónio Pais
- Mário Soares
- Carlos Mota Pinto
- Salgado Zenha
- D. Luís I
- João César Monteiro
Lugares/Países
- Portugal
- França
- Grã-Bretanha
- Espanha
- Brasil
- Paraguai
- Alemanha
Épocas
- século XIX
- Monarquia Constitucional
- Primeira República
- Primeira Guerra Mundial
- Estado Novo
- Democracia pós-1976
- década de 1830
- década de 1840
- década de 1850
- década de 1860
- anos 1910
Temas
- parlamentarismo
- coligações políticas
- partidos políticos
- eleições
- finanças públicas
- austeridade
- impostos
- revoltas populares
- guerras
- economia
- emigração
- golpes de Estado
- constitucionalismo
Eventos
- Revolução de Setembro de 1836
- Regeneração de 1851
- Fusão de 1865
- Revolta da Janeirinha
- União Sagrada de 1916
- Golpe de Sidónio Pais
- Bloco Central de 1983-1985
- Questão Coimbrã
Guerras e conflitos
- Primeira Guerra Mundial
- Guerra do Paraguai