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Nº 9902 de junho de 202151:23efeméride

As Conferências do Casino e a Legião Estrangeira

Episódio dedicado aos 150 anos das Conferências do Casino (1871), evento que reuniu intelectuais como Antero de Quental, Eça de Queirós e Oliveira Martins - a chamada Geração de 70 - numa crítica ao atraso cultural e político português. Rui Ramos discute a famosa tese de Antero sobre as causas da decadência peninsular (catolicismo, monarquia centralizada, império colonial) e questiona o seu fundamento histórico. O episódio termina com a história da Legião Estrangeira Francesa.

Ideias principais

  1. As Conferências do Casino marcaram a estreia pública da Geração de 70 como críticos do regime liberal português, denunciando o compromisso com instituições do passado (monarquia e Igreja) em vez da construção de uma cultura moderna e científica.
  2. A tese de Antero de Quental sobre a decadência peninsular - culpando o catolicismo da Contrarreforma, a centralização monárquica e o império colonial - tornou-se canónica mas é historicamente questionável, pois os mesmos factores não produziram decadência noutros países europeus.
  3. Portugal no início do século XX, após 100 anos de liberalismo e republicanismo, era relativamente mais pobre e atrasado em comparação com outros países europeus do que tinha sido no século XVIII sob a monarquia absoluta e a Inquisição.
  4. O governo liberal proibiu as conferências por ofensa à religião do Estado, não por defesa da fé católica, mas porque via o catolicismo como instituição de coesão social que devia ser protegida pelo poder político.
  5. A Legião Estrangeira Francesa, criada em 1831 para a conquista da Argélia, desenvolveu uma mística própria baseada na lealdade ao corpo militar em vez da pátria francesa, tornando-se uma força de elite usada nas guerras coloniais e missões externas de França.

Resumo do episódio

Este episódio do podcast "E o Resto é História" aborda dois temas distintos: as Conferências do Casino de 1871 e a história da Legião Estrangeira francesa. A primeira parte centra-se naquilo que ficou conhecido como a geração de 70, um grupo de jovens intelectuais portugueses - entre os quais Antero de Quental, Eça de Queirós e Oliveira Martins - que, em maio e junho de 1871, organizaram uma série de conferências públicas no Casino Lisbonense, em Lisboa. Rui Ramos explica que estas figuras cresceram já sob o regime liberal implantado após as guerras civis da década de 1830, numa época de relativa prosperidade e modernização, marcada pela chegada dos caminhos de ferro e do telégrafo. Ainda assim, apresentaram-se publicamente como uma geração crítica e dissidente, herdeiros de uma irreverência que já tinham mostrado na chamada Questão Coimbrã de 1865.

O contexto que favoreceu o impacto das conferências foi triplo: a grave crise financeira de 1861, que abalou a confiança no regime liberal e gerou descontentamento social; as convulsões europeias, nomeadamente a proclamação de repúblicas em França e a unificação da Alemanha, que colocavam em causa os equilíbrios estabelecidos; e a renovação intelectual trazida pelo realismo literário de Flaubert, pela crítica histórica do cristianismo de Renan e pelo materialismo científico inspirado por Darwin. A grande ideia dos jovens conferencistas era que Portugal precisava de uma nova cultura - científica e secular - para substituir o vazio deixado pela Revolução Liberal, que destruíra a antiga ordem dinástica e católica sem construir nada de sólido em seu lugar. O governo, controlado pela esquerda liberal, proibiu as conferências por ofensa à religião do Estado, não por convicção religiosa, mas porque entendia o catolicismo como um instrumento de coesão e disciplina social. A proibição, paradoxalmente, tornou os conferencistas celebridades.

Rui Ramos dedica também atenção ao famoso texto de Antero de Quental sobre as causas da decadência dos povos peninsulares, apresentado na segunda conferência. Antero identificava três causas do atraso de Portugal e Espanha desde o século XVII: o catolicismo da Contrarreforma, a monarquia centralizada e a expansão ultramarina. Embora o texto tenha sido enormemente influente pela qualidade literária e pela síntese que oferecia da autocrítica liberal, Rui Ramos desmonta o seu fundamento histórico: nenhuma dessas causas explica coerentemente o contraste com outros países, como a Bélgica católica que se tornou potência industrial, a aristocrática Grã-Bretanha que liderou a industrialização, ou a muito centralizada França que nunca foi pobre. Mais significativo ainda, o apresentador aponta que, após um século de liberalismo e republicanismo, Portugal era relativamente mais pobre em relação à Europa do que fora no século XVIII, sob a monarquia absoluta e a Inquisição - o que sugere que os diagnósticos culturais de Antero carecem de fundamentação empírica sólida.

A segunda metade do episódio é dedicada à Legião Estrangeira francesa. Rui Ramos contextualiza a sua criação em 1831 no quadro da conquista da Argélia, explicando que antes do século XIX os exércitos europeus incluíam regularmente soldados profissionais de outras nacionalidades, como os suíços que guardavam os reis de França ou o Papa. A Legião absorveu os regimentos suíços e alemães então dissolvidos e foi destinada a servir no norte de África. Ao contrário dos mercenários, os legionários são membros plenos das Forças Armadas francesas, com direito ao estatuto de prisioneiro de guerra. A sua mística particular - que inclui um passo de marcha próprio, mais lento, e o juramento de lealdade à própria Legião e não à França - resulta precisamente da impossibilidade de apelar ao patriotismo nacional num corpo composto por homens de todas as origens: a Legião é a sua pátria. A tradição literária e cinematográfica reforçou a imagem de um destino para homens perdidos que encontravam redenção pelo esforço e pelo perigo. A Legião teve papel central na Guerra da Indochina e na Guerra da Argélia, e existe ainda hoje com cerca de dez mil homens, continuando a ser usada nas missões externas de França.

Personagens

  • Antero de Quental
  • Eça de Queirós
  • Oliveira Martins
  • Teófilo Braga
  • Ramalho Ortigão
  • Guerra Junqueiro
  • Augusto Soromenho
  • Adolfo Coelho
  • Salomão Saraga
  • Batalha Reis
  • Augusto Fuschini
  • António Feliciano de Castilho
  • José Estevão
  • Alexandre Herculano
  • Alexis de Tocqueville
  • Gustave Flaubert
  • Ernest Renan
  • Charles Darwin
  • D. Sebastião
  • José do Telhado
  • Gary Cooper
  • Hugo Pratt
  • Marquês da Lorna

Lugares/Países

  • Portugal
  • Espanha
  • França
  • Alemanha
  • Grã-Bretanha
  • Itália
  • Bélgica
  • Áustria
  • Suíça
  • Holanda
  • Brasil
  • Argélia
  • Marrocos
  • Indochina
  • Vietname
  • Nepal
  • Índia

Épocas

  • século XIX
  • século XVI
  • século XVII
  • século XVIII
  • século XX
  • década de 1840
  • década de 1860
  • década de 1870
  • Estado Liberal
  • Monarquia Constitucional
  • Primeira República

Temas

  • literatura
  • intelectuais
  • liberalismo
  • anticlericalismo
  • secularização
  • realismo literário
  • crítica histórica
  • censura
  • decadência
  • imperialismo
  • educação
  • reforma social
  • republicanismo
  • forças militares
  • mercenários

Eventos

  • Conferências do Casino
  • Questão Coimbrã
  • Janeirinha
  • Revolução Liberal
  • Guerra Civil
  • Revolução de Janeiro de 1868
  • unificação da Alemanha
  • unificação da Itália
  • Revolução Francesa de 1789
  • Alcácer-Quibir
  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra da Argélia
  • Guerra da Indochina
  • Guerra Civil de Espanha
  • Batalha de Dien Bien Phu

Guerras e conflitos

  • Guerras Civis Liberais
  • Guerra Franco-Prussiana
  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra da Argélia
  • Guerra da Indochina
  • Guerra Civil de Espanha

Livros citados

  • Causas da Decadência dos Povos Peninsulares
  • Madame Bovary
  • Vida de Jesus
  • A Origem das Espécies
  • História de Portugal (Oliveira Martins)
  • As Farpas
  • A Velhice do Padre Eterno