Nº 8310 de fevereiro de 202140:59resposta a ouvintes
As FP-25 e o terrorismo em Portugal nos anos 80
Episódio dedicado às Forças Populares 25 de Abril (FP-25), grupo terrorista de extrema-esquerda que assassinou 13 pessoas em Portugal entre 1980 e 1987. Rui Ramos contextualiza as FP-25 na vaga de terrorismo urbano europeu dos anos 70-80 (Brigadas Vermelhas, Baader-Meinhof, ETA, IRA), explicando a sua ideologia revolucionária, métodos violentos e ligações à criminalidade. A segunda parte aborda a história do Panteão Nacional português, desde a sua criação em 1836 até à multiplicidade actual de panteões.
Ideias principais
- As FP-25 surgem tardiamente (1980) porque durante a revolução de 1974-75 os potenciais terroristas estavam ligados ao poder revolucionário, só se voltando para o terrorismo quando a democracia se consolida
- A lógica perversa do terrorismo urbano europeu era provocar o Estado democrático a revelar-se 'fascista' através de respostas violentas, polarizando a sociedade e impedindo compromissos políticos
- Muitos membros das FP-25 eram simplesmente criminosos que usavam ideologia revolucionária como fachada, como demonstra o caso da 'rede do multibanco' no século XXI liderada por ex-membro das FP-25
- A amnistia de 1996 para 'crimes políticos' foi problemática porque muitos assassinatos das FP-25 eram crimes comuns disfarçados de execuções políticas, não verdadeiros atos revolucionários
- Portugal nunca teve um panteão nacional único comparável ao Saint-Denis francês, com cada dinastia e rei escolhendo locais diferentes de sepultura, problema que persiste com múltiplos 'panteões nacionais' actuais
Resumo do episódio
Este episódio do podcast *E o Resto é História* divide-se em dois temas distintos. Na primeira e mais extensa parte, Rui Ramos e João Miguel Tavares debruçam-se sobre as Forças Populares 25 de Abril, o grupo terrorista que actuou em Portugal entre 1980 e meados da década de 1990, a convite de um ouvinte cujo pai, Gaspar Castelo Branco, director-geral dos Serviços Prisionais, foi assassinado pelas FP-25 em Fevereiro de 1986.
Para contextualizar o fenómeno, Rui Ramos enquadra as FP-25 numa vaga mais ampla de terrorismo de extrema-esquerda que varreu a Europa Ocidental a partir de meados dos anos 70, com grupos como as Brigadas Vermelhas italianas, os Badermainhof alemães, a Acção Directa francesa e os GRAPO espanhóis. Estes grupos partilhavam uma ideologia comum: rejeitavam tanto a social-democracia como o comunismo parlamentar, que consideravam traições à revolução, e acreditavam que uma vanguarda armada poderia provocar o colapso do Estado capitalista, forçando-o a revelar a sua alegada natureza fascista. A inspiração vinha das guerrilhas do Terceiro Mundo - de Cuba, da China maoísta, do foquismo do Che Guevara - transposta agora para as cidades europeias. O historiador sublinha que esta lógica era intrinsecamente circular e fechada: qualquer resposta do Estado servia para confirmar a tese da ditadura disfarçada. Estes grupos contavam ainda com redes de apoio universitário, simpatizantes e, em alguns casos, financiamento e armamento provenientes de países comunistas ou de movimentos palestinianos.
As FP-25 surgem em Portugal mais tarde do que os seus congéneres europeus, precisamente porque, durante o período revolucionário de 1974-75, os seus potenciais membros estavam próximos do poder, ligados ao MFA e ao COPCON do major Otelo Saraiva de Carvalho. Quando a revolução falhou, esses sectores ficaram à margem. Em 1984, a polícia identificou uma estrutura dual: uma componente política legal, a Força de Unidade Popular, que teria Otelo como orientador, e uma componente armada clandestina, as FP-25. Otelo negou sempre qualquer envolvimento directo. Os apresentadores salientam, porém, que em 1984, quando Otelo voltou a candidatar-se à presidência, obteve apenas um décimo dos votos de 1976, o que revela o isolamento crescente desta corrente política.
Rui Ramos insiste numa dimensão frequentemente ignorada: para além da ideologia, as FP-25 funcionavam crescentemente como uma organização criminosa. Os assaltos a bancos eram a sua principal actividade, e episódios como a vingança perpetrada em Malveira da Serra - onde membros da população mataram dois elementos do grupo durante um assalto frustrado e as FP-25 regressaram posteriormente para matar dois GNR em retaliação - revelam uma lógica de violência tribal muito afastada de qualquer projecto político. Um ex-membro viria a dirigir, já no século XXI, uma rede criminosa de assaltos a caixas multibanco, organizada segundo os mesmos moldes militares das FP-25. A amnistia de 1996 para crimes políticos gerou polémica, dado que muitos destes crimes eram, na prática, actos de criminalidade comum contra um regime democrático.
Na segunda parte do episódio, em resposta a uma pergunta do escritor Afonso Reis Cabral, trineto de Eça de Queirós, os apresentadores traçam a história do Panteão Nacional em Portugal. A ideia, inspirada na Revolução Francesa e no Panteão de Paris, foi formalmente criada em 1836, mas durante décadas não havia um espaço físico designado. Na prática, os Jerónimos foram-se tornando o repositório das figuras maiores - Camões, Alexandre Herculano, Fernando Pessoa -, enquanto a Igreja de Santa Engrácia, designada Panteão Nacional em 1916, só ficou concluída em 1966, após 284 anos de obras. Ao longo da história portuguesa, a ausência de um panteão régio único - ao contrário de França, com Saint-Denis - fez proliferar locais de memória: Mosteiro da Batalha, Jerónimos, São Vicente de Fora, Basílica da Estrela, Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. A solução encontrada foi, com alguma
Personagens
- Manuel Castelo Branco
- Gaspar Castelo Branco
- Horst Mahler
- António Negri
- Aldo Moro
- Otelo Saraiva de Carvalho
- Che Guevara
- Luís de Camões
- Alexandre Herculano
- Sidónio Pais
- Fernando Pessoa
- Almeida Garrett
- Guerra Junqueiro
- João de Deus
- Óscar Carmona
- D. Afonso Henriques
- D. Dinis
- D. Pedro I
- Inês de Castro
- D. João I
- D. Duarte
- D. Afonso V
- D. João II
- D. Manuel I
- D. João III
- D. Sebastião
- D. João IV
- D. Maria I
- D. Maria II
- Duque de Saldanha
- Duque da Terceira
- Mirabeau
- Luís XVI
- Imperador Adriano
- Agripa
Lugares/Países
- Portugal
- Alemanha
- Itália
- França
- Espanha
- Grécia
- Irlanda
- País Basco
- Japão
- Checoslováquia
- Líbia
- Uruguai
- Argentina
- México
- China
- Cuba
- Vietname
- Suécia
- Bélgica
Épocas
- anos 1970
- anos 1980
- década de 1960
- anos de chumbo
- Revolução Francesa
- Maio de 1968
- século XVII
- século XIX
- século XX
- século XXI
- Estado Novo
- Revolução de 25 de Abril
Temas
- terrorismo
- guerrilha urbana
- extrema-esquerda
- violência política
- luta armada
- revolução
- democracia
- criminalidade
- assassinatos políticos
- amnistia
- panteão nacional
- monarquia
- sepulturas régias
- memória nacional
Eventos
- Revolução de 25 de Abril de 1974
- Maio de 1968
- Revolução Francesa
- Guerra do Vietname
- Crise do petróleo de 1973
- Sequestro de Aldo Moro
- Golpe de Estado de 1981 em Espanha
- Assalto à embaixada alemã em Estocolmo
- Primeira Guerra Mundial
Guerras e conflitos
- Guerra do Vietname
- Primeira Guerra Mundial